Precisamos falar sobre dívidas

Antes tarde do que mais tarde - encare suas dívidas

Precisamos falar sobre dívidas

Caro leitor,

Não sei se você viu o filme “Precisamos falar sobre Kevin”, mas é capaz que já tenha ouvido alguma brincadeira com esse título. Hoje, chegou a nossa vez: Nós precisamos falar sobre dívidas.

Kevin era um rapaz calado. A família sabia que havia algo errado, mas agiu tarde demais. Em um spoiler leve, o que eu posso dizer é que o fim foi trágico. Não queremos esse fim para sua vida financeira.

Por isso, antes tarde do que mais tarde, vamos falar sobre as dívidas.

Neste ano, houve um aumento claro do endividamento dos brasileiros. Os bancos já registraram aumento da inadimplência de seus clientes e as perspectivas para os próximos meses são ruins.

Nessa semana, a Serasa disse que seu indicador de perspectiva de inadimplência do consumidor subiu em março pelo quinto mês seguido. Em um resumo simplista, mas necessário, digo que os sinais são de que os brasileiros não estão conseguindo pagar suas contas.

As taxas de juros cada vez mais elevadas, a inflação e o desemprego agravam a situação. Os altos juros e multas cobrados dos endividados são facilmente capazes de transformar pequenas dívidas em bolas de neve.

Pagar suas dívidas e cortar os gastos para não ficar endividado é um primeiro passo para a construção de riqueza.

No gráfico abaixo apresentamos a inadimplência de clientes em quatro dos maiores bancos brasileiros. No final das linhas coloridas é possível ver um aumento recente do percentual das pessoas que não pagaram duas dívidas.

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Buscamos os números nos balanços financeiros dos bancos Itaú, Santander, Bradesco e Banco do Brasil, que foram divulgados nas últimas semanas. Os dados são referentes às dívidas com atraso de 15 a 89 dias.

Podemos notar que, na média, houve um aumento de 2,9% para 3,4% na inadimplência nas dívidas de 15 a 89 dias – do fim do ano passado para o fim de março desse ano.  Uma luz amarela salta aos nossos olhos e nos indica que nos próximos trimestres notaremos um aumento da inadimplência superior a 90 dias.

O retrato atual do brasileiro inadimplente é esse:

– Seu nome está sujo há aproximadamente dois anos;
– Seu saldo devedor está distribuído (em média) entre 3,7 diferentes empresas;
– A maior parte de sua dívida está no cartão de crédito e de lojas;
– Deve R$ 21.676 aos credores, já considerando multas e taxas de atraso;
– A dívida equivale a 768% da renda familiar mensal (de R$ 2.822).
Todos esses dados são de uma pesquisa divulgada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil).

O mais assustador é o alto valor da dívida em comparação com a renda familiar: quase oito vezes maior. Os juros cobrados pelos bancos e financeiras são altos, isso faz com que o aumento do volume das dívidas aconteça de forma rápida.

A mesma pesquisa mostrou que a principal razão do endividamento de três em cada cinco inadimplentes é a falta de controle no uso do cartão de crédito – que tem, justamente, o juro mais alto de todos.

Hoje, a taxa média de juros cobrada de quem não paga a fatura do cartão de crédito no Brasil está em 385,7% (!!!!) ao ano, segundo dados fresquinhos do Banco Central que pegamos ontem no site.

Esse é o juro que quem está do outro lado recebe por te emprestar dinheiro.

Fica fácil entender a razão de sermos estimulados a todo momento a assumir novas dívidas. Com certeza você já viu na televisão aquelas propagandas que mostram famílias felizes, pessoas bem sucedidas e jovens girando de braços abertos em um jardim. Se você seguir os incentivos dos bancos, das financeiras e das lojas – de comprar, consumir e tomar crédito – seu futuro será bem diferente da imagem que eles passam na televisão.

Aliás, recomendo uma consulta à página de juros cobrados por cada uma das instituições.

Os campeões dos juros

Colocamos na tabela abaixo os atuais campeões dos juros. Veja que a tabela inclui tanto os bancos, como Bradesco, Itaú, como lojas, como LuizaCred, empresa do grupo Magazine Luiza que oferece o Cartão Luiza.

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Um de nossos leitores disse que tem hoje uma dívida de R$ 7.000 no cartão de crédito. Considerando a taxa média de todas as 44 instituições pesquisadas pelo Banco Central, sua dívida saltará para R$ 26.699 após apenas um ano. Isso mesmo, UM ano.

Nesse caso, o ideal seria que ele quitasse a dívida imediatamente, transferindo-a, por exemplo, para um crédito consignado.

Essa é a sugestão de o Fernando Cosenza, diretor da Boa Vista, administradora do SCPC, e também de Marcela Kawauti, economista do SPC Brasil. O crédito consignado é uma opção ótima para quem quer pagar suas dívidas com taxas de juros menores.

Entenda – Empréstimo Consignado: é um tipo de empréstimo no qual as parcelas são descontadas diretamente do salário de quem realizou a operação.

O interessante dessa troca é que você quita o cartão de crédito e, embora continue devendo, sua dívida terá um fluxo completamente diferente. Ou seja, sua dívida passa a crescer mais lentamente, com um juro que pode ter menos da metade do valor cobrado no cartão.

Dito isso, nossa sugestão é que você siga os seguintes passos:

1 – Encare a realidade. Ignorar o assunto “dívida” ou fingir que a situação financeira não é prioritária só faz o problema crescer.

Tratar da dívida não precisa ser um assunto negativo e pesado. Basta olhar para o assunto com uma perspectiva positiva: como se fosse um primeiro passo para, depois, construir um patrimônio.

2 – O segundo passo é priorizar o pagamento da dívida, todos os meses, assim que sua renda cair na sua conta.

Antes de comprar presentes para você ou para os outros, antes de planejar uma viagem e, principalmente, antes de pensar em colocar dinheiro na poupança ou em alguma aplicação, é preferível pagar a dívida. Dificilmente um investimento vai render mais do que o valor que a sua dívida vai crescer.

De nada adianta ter dinheiro rendendo 6% ao ano na poupança – ou mesmo 15% em um aplicação – se você tem uma dívida com custo de mais de 300% ao ano no cartão de crédito. Depois de ter liquidado sua dívida, você poderá aplicar bem o seu dinheiro e multiplicá-lo.

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Abraços

Olivia Alonso

 

 

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