Quando o “stop” não funciona

Melhor do que buscar formas de driblar o Fisco, conheça a fundo os impostos que recaem sobre cada produto antes de aplicar seu dinheiro

Quando o “stop” não funciona

Nunca me esqueço daquele dia.

Tinha apenas 8 anos e estava superempolgada com a primeira viagem para fora do país. Finalmente conheceria a tão sonhada Disney!

Engatinhando ainda no inglês, tinha o vocabulário básico suficiente para dar “bom dia” no café da manhã, agradecer, pedir licença, falar meu nome e não muito mais do que isso. As aulas na Cultura Inglesa estavam apenas para começar…

Um dia, minha avó resolveu fazer um teste para “turbinar” meu inglês: me incumbiu de fazer um pedido de um lanche no McDonald’s. A tarefa tinha tudo para ser bem fácil, afinal, ainda era a época dos números, o que me dispensava de elencar separadamente a batata, o sanduíche e o refrigerante.

Depois de um breve ensaio, cheguei toda feliz e preparada no balcão com minha nota de 10 dólares e logo mandei um: “Hello. I’d like the number three, please”. Não era muito, mas era o suficiente para ser compreendida. Pelo menos era o que eu imaginava…

Entreguei o dinheiro, certa de que a missão havia sido cumprida e que podia concentrar minha atenção apenas em devorar o lanche, quando fui surpreendida por uma resposta absolutamente incompreensível. Era inglês, mas soava como grego aos meus ouvidos!

A missão deveria ser simples. Havia sido “instruída” para aguardar o valor do lanche, pegar o troco e voltar com o meu pacote para a mesa. Simples e indolor! Mas o atendente resolveu se alongar no script, me deixando em verdadeiro pânico, o que me fez reagir com a única palavra que poderia impedir aquela humilhação de continuar: “Stop” — argumentei, levando meus vizinhos de fila a caírem na gargalhada.

Deixei o dinheiro ali no balcão e saí correndo para buscar minha mãe, que era “gente grande” e com certeza poderia falar a língua do risonho funcionário do McDonald’s.

Naquele longínquo 1992, fui apresentada a uma das maldades que mais ofuscariam grandes planos ao longo da minha vida: os perversos impostos.

Nos Estados Unidos, os impostos sempre aparecem de forma discriminada no pagamento e nas notas fiscais — por isso a confusão na minha compra. O valor anunciado no painel do McDonald’s referente ao número 3 era maior do que eu previra com o acréscimo dos impostos.

Fiquei frustada, com o sentimento de missão não cumprida, mas aprendi uma lição importante. O valor cobrado pelo governo em todas as movimentações financeiras se repetiria muitas vezes ao longo da minha vida e ofuscaria alguns grandes planos, por isso, era fundamental evitar surpresas.

Faço esse alerta porque muito investidor me escreve ainda de maneira ingênua ou gananciosa além da conta, tentando encontrar formas muitas vezes escusas para driblar o Fisco, ou se esquecendo de pagar os impostos devidos.

Não existe almoço grátis. Melhor do que tentar encontrar formas escusas de driblar um imposto é conhecer a fundo que tipo de tributação recai sobre cada investimento.

A seguir, respondo a algumas das dúvidas mais comuns sobre o tema.

Quer turbinar seu dinheiro em menos de um mês? Esqueça! Além do Imposto de Renda, um IOF decrescente, que começa em salgados 96 por cento, vai corroer seus parcos rendimentos.

Está investindo em bitcoin, de olho na megavalorização deste ano, e acha que o lucro irá direto para o bolso? Trate de repensar essa presunção. Quando as vendas em um mês superarem 35 mil reais, os ganhos de capital devem ser tributados em 15 por cento. O recolhimento do imposto deve ser feito até o último dia útil do mês seguinte ao da transação.

(Antes que me perguntem, gostaria de dizer que tenho lido muito sobre as moedas virtuais e o atual frenesi em torno do bitcoin. Tenho recorrido aos relatórios do Fernando Ulrich para me guiar e entender se vale a pena entrar nesse mercado. Recomendo acompanhar o Fernando, profissional com maior base para opinar sobre o tema!)

Vai investir em Tesouro Direto? Aceite que terá que pagar um IR entre 22,5 por cento e 15 por cento sobre o lucro. Esforce-se para garantir a menor alíquota, com a paciência de deixar o dinheiro aplicado por pelo menos dois anos.

Está escolhendo um bom plano de previdência? Muita atenção para o tipo de tributação. O imposto só chegará à alíquota mínima, de 10 por cento, se você selecionar a opção regressiva. Lembre-se de que a tabela progressiva só faz sentido para aqueles que projetam receber uma renda bem pequena quando se aposentarem.

Comprou ações e não quer entregar nenhuma parte do lucro ao governo na hora da venda? Então tenha em mente que o valor total da venda (e não do lucro!) não pode superar 20 mil reais ao mês.

Está em busca de aplicações que garantam isenção de Imposto de Renda nos rendimentos? Fique de olho nos bons fundos imobiliários e nas melhores empresas pagadoras de dividendos, e esteja ciente de que o benefício não se aplica na hora de vender as cotas dos fundos com lucro. No caso das ações, confira a resposta acima.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

Por serem isentas de IR, LCIs, LCAs, CRIs e CRAs são sempre melhores que CDBs? Não! Tudo depende da taxa de retorno garantida. Utilize nossa planilha de comparação de taxas para saber qual aplicação é melhor conforme o prazo, e nunca descuide da segurança do emissor, ainda mais neste momento em que a renda fixa tem perdido atratividade.

Uma última dica: não confunda isenção com não declaração. É preciso sempre informar ao Fisco onde está seu dinheiro. Ainda que você esteja dispensado de pagar imposto sobre seu lucro.

Deu para entender como é importante ficar por dentro dos impostos antes de investir? Não há pedido de “stop” que baste para colocar um fim nesse “pedágio”.

Na semana que vem, falarei de outro tipo de incômodo, esse, sim, contornável: as taxas cobradas pelas corretoras na disputa pelo seu patrimônio. Se quiser me enviar perguntas, escreva para beatriz.cutait@empiricus.com.br. Até lá!

Um abraço,
Beatriz

Conteúdo relacionado