É o juro real, estúpido!

Forte desaceleração da inflação garante retornos ainda interessantes na renda fixa, mesmo com a queda da Selic
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É o juro real, estúpido!

Todos os dias quando acordo

Não tenho mais o tempo que passou

Mas tenho muito tempo

Temos todo o tempo do mundo

Todos os dias antes de dormir

Lembro e esqueço como foi o dia

Sempre em frente

Não temos tempo a perder

Que me perdoem os fãs de Renato Russo, mas sempre tive dificuldade para entender a música “Tempo Perdido”. Mesmo sabendo a letra de cor, como resquício de uma adolescência movida aos Acústicos MTV, sempre achei o recado inconsistente.

Afinal, temos todo o tempo do mundo ou não temos tempo a perder?

Mesmo com receio de também parecer de certa forma contraditória, depois de muito tempo livre pensando na música, hoje arrisco dizer: os dois.

Já não sou mais tão jovem como o Renato cantava na música, mas ainda acredito que tenho (quase) todo o tempo do mundo para começar algo do zero. Mas, seguindo na toada da contradição, também avalio que não tenho mais tempo a perder.

Está confuso? Então acompanhe meu raciocínio.

De uns tempos para cá, muitos assinantes ou meros simpatizantes da Empiricus têm se colocado com um tom meio derrotista, como se tivessem chegado atrasados para fazer a prova do Enem, para pegar o último voo para o carnaval do Rio de Janeiro ou para alcançar a última fornada de pão de queijo na famosa casa da rua Haddock Lobo, em São Paulo.

A razão para tamanho inconformismo? A queda dos juros.

Tenho a sensação de que, para grande parte dos leitores, a renda fixa acabou para sempre e que não existem mais alternativas para quem sempre teve a classe em tão alta estima.

Faz um ano que o Banco Central brasileiro começou a reduzir a taxa Selic, que já caiu de 14,25 para 8,25%, e, desde então, parte dos investidores parece brincar de estátua, sem conseguir entender o movimento e suas consequências. Inseguras, essas pessoas não conseguem tomar uma atitude, embora tenham certeza de que não há mais espaço para a renda fixa na carteira.

Até que ontem recebi o seguinte e-mail do José Eduardo, que renovou minhas esperanças de que alguém está prestando atenção:

Tenho ouvido e lido, seja em monitorias ou relatórios, que com a queda da Taxa Selic a Renda Fixa está perdendo atratividade.
Mas olha só: o que importa mais, o juro nominal ou o juro real?
Creio que a Renda Fixa está remunerando e preservando valor um pouco mais agora (em termos reais) do que quando a Selic estava 14,5 por cento e o IPCA, 12 por cento.
Não entendo bem essa fixação geral nas taxas numéricas.

Entendido ou não, o José Eduardo fez a colocação num momento mais do que oportuno para darmos uma espiada na evolução do juro real, a diferença entre o juro nominal e a inflação.

Em português claro, o juro real representa a fatia que você efetivamente coloca no bolso, seu lucro efetivo, antes de descontar eventuais impostos. Um juro real positivo garante um aumento do seu poder de compra ao longo do tempo. É fundamental acompanhar esse indicador para entender quanto seu dinheiro está rendendo de verdade.

Se você der uma olhada no gráfico a seguir, vai notar o vaivém dos juros nominais (antes de descontar a inflação) e do IPCA acumulado em 12 meses nos últimos dez anos.

Fonte: Bloomberg Elaboração: Empiricus

Ao observar os dados mais recentes, você consegue notar como a inflação (linha verde) tem perdido força rapidamente, deixando o juro real (linha azul) ainda num patamar confortável do seu ponto de vista, como investidor, na casa dos 5,6%.

Hoje temos uma Selic a 8,25% (e prestes a cair mais amanhã) e um IPCA em 12 meses de 2,54%. Há exatamente um ano, a Selic estava em 14% ao ano, mas a inflação girava em torno de 8%, o que levava o juro real a um patamar bem próximo do atual.

Assim fica mais claro para entender o raciocínio do José Eduardo.

É o juro real que importa! E ele permanece elevado, mesmo com a queda de seis pontos da Selic.

Essa percepção só reforça nossa indicação para os papéis indexados à inflação, que seguem pagando juros altos historicamente e também quando comparados com os retornos de outros países.

Se for comprar um papel do tipo Tesouro IPCA, você ainda encontra taxas reais da ordem de 5,2% ao ano, garantindo proteção contra um aumento da inflação por mais de 30 anos se assim desejar.

Não temos todo o tempo do mundo, é verdade, mas ainda temos tempo a perder. Vale se expor à renda fixa, sim, ainda que a classe de ativos como um todo deva abrir espaço em sua carteira para a renda variável.

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Tudo vai depender dos seus objetivos e também do seu perfil como investidor — se mais arrojado ou mais conservador.

Na Carteira Empiricus, por exemplo, a renda fixa responde hoje por cerca de 60% do portfólio, que também conta com ações, moedas, fundos imobiliários e opções. Aliás, hoje serão abertas as vagas para o novo curso de opções aqui na Empiricus. Se você se interessa pelo mercado, mas ainda tem receio de entrar nele por desconhecimento, vale garantir seu lugar para aprender tudo sobre calls e puts.

P.S.: estou fazendo uma enquete no Twitter para tentar desmistificar certas teorias sobre as corretoras. Por que as pessoas ainda têm tanto medo de investir por meio de corretoras independentes, deixando pra trás de uma vez por todas os altos custos dos grandes bancos? Me escreva contando!

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