Título de capitalização – vale a pena?

Entenda de uma vez por todas por que não há justificativas racionais para comprar esse produto

Compartilhe:
Enviar link para o meu e-mail
Título de capitalização – vale a pena?

Caro leitor,

Imagine a cena. Uma cliente entra numa agência bancária e, ao se aproximar do caixa, é intimidada e ameaçada por um gerente armado.

Gerente – Calma, com calma. Vai pegar esse dinheirinho aí, vai botar num fundo de investimento aqui do nosso banco. Com calma.

Cliente – Ai meu Deus!

Gerente – Não reage! Se reagir, vai ser pior!

Cliente – Pode deixar.

Gerente – Dá esse dinheiro todo pra gente, bora!

Cliente – Eu queria fazer um investimento na minha conta.

Gerente – Isso, agora vai fazer um título de capitalização, vai.

Cliente – Desculpa, mas eu não preciso de um título de capitalização.

Gerente – Quê?

Cliente – Eu preciso, eu quero muito um título de capitalização.

Gerente – Você precisa, isso. Agora dá dois talões para ela, D. Leilane. Esses dois talões aqui pra você, ó. Vai investir R$ 10 reais por mês no Plic Ploc e concorre a prêmios de até mil reais. Bora.

Cliente – Pra quê?

Gerente – Pra quê? Pra você juntar com seu seguro que você vai fazer agora. Dois seguros.

A cena hilária faz parte do vídeo “Assalto”, do Porta dos Fundos, e para nossa tristeza, tem bastante semelhança com situações vividas em nosso dia a dia no banco.

O empurra-empurra que gerentes de bancos fazem de produtos que só beneficiam as próprias instituições financeiras é mais comum do que o desejado, e hoje nós da Empiricus resolvemos abordar um tipo “especial”, que alguns insistem em chamar de investimento.

Você pode até não ter, mas certamente seu irmão, seu pai, sua mãe, outro familiar ou um amigo tem. Sim, estou falando deles: os títulos de capitalização, que deveriam  se chamar planos de “descapitalização”.

Velhos conhecidos dos brasileiros — nada menos que 15,9 milhões de pessoas físicas tinham esses títulos no fim de 2015 —, os produtos são ofertados por 10 em cada 10 gerentes. Em geral, eles usam argumentos de tom duvidoso, como a famosa ajudinha para preencher as metas do mês, o apelo dos prêmios sorteados ou o benefício de aliviar os juros cobrados no crédito que você está contratando.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

E essa forma de venda, aliada aos baixos valores de aportes, facilita a popularização do produto. Apesar do recuo no ano passado, a indústria dos títulos de capitalização segue com uma estrutura representativa no Brasil.

Há uma pressão clara para vender e, em grande parte dos casos, pouca disposição para explicar o que são esses títulos.

Falo isso com conhecimento de causa, já que minha gerente me abordou exatamente dessa maneira, querendo uma ajuda para preencher a meta. Na ocasião, eu disse que, se aceitasse, teria que entregar junto minha carta de demissão!

Nosso planejador financeiro, Walter Poladian, também lembra de uma investida recente feita por sua gerente on-line.

“Aproveito para sugerir que você participe dos nossos sorteios. Para participar, você faz uma reserva mensal de apenas R$ 100,00,concorre a 92 sorteios de R$ 100 mil e mais 04 sorteios especiais!! O valor mensal aplicado ficará capitalizando por 48 meses. E neste período ocorrem os sorteios! Ao término do plano, você receberá todo o valor aplicado de volta, independente se foi sorteado ou não. Portanto é SORTE ou seu DINHEIRO DE VOLTA!! Fiz uma reserva para você, posso efetivar?”

Que maravilha, não? Você empresta o dinheiro ao seu banco por QUATRO anos e é “abençoado” com a possibilidade de participar de sorteios ou, no pior dos casos, receber seu dinheiro de volta (o que não é exatamente realidade, como veremos a seguir). Num país com juros na casa dos 14% ao ano, soa como piada uma oferta tão indecorosa.

O Walter não quis aceitar toda essa sorte, mas já ouvi muita gente bem próxima, com absoluto conhecimento das condições desses produtos, confessando (sim, porque é quase um crime) ter comprado títulos para garantir alguma vantagem em outra negociação ou por pressão do gerente.

Você sabe como é estruturado um título de capitalização?

Os títulos podem ser adquiridos à vista, com um pagamento único, ou a prazo, por meio de pagamentos periódicos, geralmente mensais. Eles têm duração de no mínimo 12 meses.

Nos planos com vigência de 12 meses, os pagamentos são obrigatoriamente fixos. Em títulos com prazo maior, os pagamentos podem ser atualizados a cada ano.

Se você atrasar o pagamento, estará sujeito a multa e a atualização monetária, ou a apenas atualização monetária ou então poderá ter a vigência do plano prorrogada. E é importante saber: títulos em atraso são suspensos e não possuem direito aos sorteios durante o prazo de suspensão. Há inclusive a possibilidade de cancelamento, mas o titular sempre terá direito ao capital formado para resgate, após encerrado o prazo de carência.

Parte dos pagamentos é usada para formar um capital do título, e o restante é destinado para custear despesas administrativas (o que funciona como uma taxa de administração) e sorteios, quase sempre previstos neste tipo de produto, mas sem garantia.

O Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) explica:

Cota de capitalização: do montante pago pelo consumidor, essa é a parcela destinada à capitalização a ser resgatada ao fim do período, e só ela é remunerada pela Taxa Referencial (TR).

Cota de sorteio: percentual destinado a custear os prêmios distribuídos por intermédio de sorteio.

Cota de carregamento: percentual voltado aos gastos e às despesas, e também à formação de reserva de contingência e às despesas de corretagem e seguros.

Há quatro modalidades de planos.

  • – Tradicional: quando você recebe no prazo final de vigência do título,no mínimo, o valor total dos pagamentos efetuados. Durante o período, se estiver com as mensalidades em dia, o cliente concorre a sorteios em dinheiro. Essa modalidade também é utilizada para soluções de garantia locatícia.
  • – Popular: o objetivo é propiciar a participação do titular em sorteios,sem que haja devolução integral dos valores pagos.
  • – Compra-Programada: prevê a acumulação mensal vinculada à compra de bens duráveis com sorteio de prêmios. Ao fim do contrato de vigência, você pode receber o valor do resgate em dinheiro ou em forma bens ou serviços já identificados na ficha de cadastro. Por exemplo: você pode optar por receber um carro no resgate e seu fluxo de pagamento será ajustado de forma a bancar essa aquisição. Seria o mesmo que dizer que o título está formando sua poupança para essa compra e, ao mesmo tempo, lhe dando a oportunidade de concorrer a prêmios por meio dos sorteios.
  • – Incentivo: solução sob encomenda para empresas, que compram títulos e os cedem total ou parcialmente (somente o direito ao sorteio) aos consumidores do produto utilizado no evento promocional. Pode ser usado como uma estratégia de atração ou fidelização de clientes em ações promocionais.

As Melhores Ações para o Rali do Impeachment

A maior manifestação da história do Brasil inflama ainda mais as perspectivas de troca de governo, principal motor dos mercados. Chegou a hora de capturar a próxima pernada do Rali do Impeachment que atingirá as ações.

Saiba mais

 

Mas afinal, por que se critica tanto esse produto?

Salvo se você tiver a sorte de ser sorteado, há diversas razões para buscar outras formas de poupar dinheiro e de obter uma remuneração de verdade. Confira as principais:

1º ponto – Baixa remuneração

Embora você possa comprar um título de capitalização que garanta a devolução de todo o valor gasto, apenas o valor destinado à cota de capitalização é remunerado, por meio da correção pela TR. Assim, além de não acompanhar a inflação, o título perde até para a poupança.

E atenção: não há obrigação prevista em lei para que o resgate seja igual ao montante pago. Cada empresa define o percentual pago em relação aos pagamentos realizados. E é importante lembrar que, quanto maiores os prêmios oferecidos, menor o percentual que o consumidor receberá ao fim da aplicação.

2º ponto – Liquidez (ou a falta dela)

Nem todo título pode ser resgatado antes do prazo final, pois alguns têm prazo de carência, e você só vai receber o dinheiro depois desse período. Além disso, você poderá pagar multa de até 10% do capital alocado se decidir antecipar o resgate. Esse limite também vale para situações de resgate parcial.

3º ponto – Não é investimento!

Você deve estar cansado de ouvir isso, mas, se ainda não estiver convencido, veja o recado da economista do Idec, Ione Amorim: “Título de capitalização não é nem um ativo, nem uma linha de investimento, ele funciona mais como um seguro com direito à premiação, que é seu maior apelo”.

“Além de sequer garantir o retorno do valor aplicado ao longo do período de vigência, as chances de ser sorteado são remotas, como numa loteria”, crava Ione. E muitos esquecem que há incidência de imposto de renda de até 30% sobre os valores dos prêmios, 20% se você tiver obtido rendimentos com o próprio título.

Em sua cartilha “Venda responsável de produtos e serviços financeiros”, lançada em 2012, o Idec já se posicionava contra o suposto “investimento” nesses planos.

Apesar de os gerentes de bancos terem métodos de venda muitas vezes controversos, publicamente, as instituições defendem que os títulos de capitalização ajudam os clientes a poupar e têm como atrativo adicional os sorteios.

“A Brasilcap, em trabalho conjunto com o setor, tem buscado cada vez mais a transparência na venda dos títulos de capitalização. Essa transparência passa fundamentalmente em separar a capitalização de investimento”, alega a Brasilcap, empresa de capitalização do grupo Banco do Brasil.

A Caixa Seguradora tem discurso semelhante. “Guardar dinheiro e ainda concorrer a prêmios faz com que muitas pessoas adquiram títulos de capitalização, um produto financeiro que costuma ser uma das primeiras opções do brasileiro para economizar. É uma solução capaz de atender a perfis variados de consumidores, combinando soluções de negócios com sorteios, não podendo ser confundida com investimento, mas sim como uma forma de economia programada.”

Mas parece que a Febraban, federação que reúne os bancos, precisa alinhar o discurso com seus associados. Em reportagem publicada em 2014, o Valor Econômico chamou atenção para o fato de a entidade chamar os títulos de capitalização de investimento.

Mesmo com o alerta, a entidade mantém essa denominação ativa em seu portal de educação financeira – http://www.meubolsoemdia.com.br/.

“Esse tipo de investimento é bom para quem quer resistir à tentação de gastar o dinheiro poupado, já que você só pode resgatar o valor investido depois de um tempo estipulado no contrato.”

Cuidados

A economista do Idec alerta para o risco de comprar um título de capitalização por imposição do gerente, em troca de taxas mais baixas na contratação de crédito, por exemplo, na qual o consumidor está mais sensibilizado.

Se você não seguiu a orientação de não aderir à compra do produto, há ainda salvação. Além do canal de reclamações da Susep, órgão responsável pelo controle e fiscalização do mercado de capitalização, Ione sugere buscar o SAC do banco em questão para, após um processo para obter resposta, partir para a ouvidoria e, posteriormente, recorrer ao Banco Central ou ao Procon-SP.

No ano passado, o Procon-SP fez 157 atendimentos relativos a títulos de capitalização (ante 161, em 2014, e 260, em 2013), dos quais 14 referentes a venda enganosa e 36 a cobrança indevida.

Outro canal para reclamações, o Reclame Aqui recebeu 144 queixas referentes aos títulos de capitalização apenas no primeiro bimestre deste ano.

Também temos sentido insatisfação por parte de nossas leitoras.

Lidia L. – Infelizmente estou há 4 anos presa em um título de capitalização. Só agora descobri que isso é bom para o banco, apenas.

Maisa S. – Nossa, já fiz vários CAPs.. Só agora percebo o quanto perdi.

O fato é que não é tarefa fácil provar que a venda foi inadequada e que você foi coagido a aceitar um título para reduzir, por exemplo, os juros de algum empréstimo.

Por isso, Ione, do Idec, recomenda a você documentar as taxas antes e depois de aceitar adquirir o plano de capitalização, para provar a pressão a qual foi submetido. “É possível alegar que a compra foi feita por imposição. Se eu não tivesse adquirido esse produto, não teria o crédito. Teria que alegar quanto seria a taxa de juros sem o serviço”, explica.

Termos dos contratos

Se, mesmo com todos os argumentos citados, você decidir se aventurar no mundo dos títulos de capitalização, analise atentamente as condições do contrato.

Artigo do Procon-SP enfatiza os cuidados necessários: “O consumidor deve ter certeza de que o valor das parcelas não irá comprometer o orçamento familiar, e tirar da cabeça a ideia de economia ou investimento ao comprar um título de capitalização. Um cofrinho ou uma simples conta poupança são mais úteis para quem quer realmente economizar”.

Conforme o Procon-SP devem constar em um contrato de capitalização:

– o prazo de vigência do título;

– a quantidade e o valor de parcelas a serem pagas;

– as datas dos sorteios e os valores dos prêmios;

– a taxa de juros a ser aplicada no reajuste das prestações pagas;

– o valor da multa pelo atraso de pagamento;

– as condições para resgate dos valores depositados e cancelamento do contrato.

Espero que agora você pense no seu bolso antes de dar aquela força para seu gerente.

Leitura sugerida:

– 10 oportunidades raras para lucrar com ações em 2016

– Máximo pessimismo é o momento certo para investir, afirma Mark Mobius sobre Brasil

– Veja 8 erros que atrapalham a criação de riqueza

E veja ainda o vídeo do Porta dos Fundos na íntegra

Um abraço,

Beatriz Cutait

Conteúdo recomendado