Para você que checa o e-mail enquanto dirige

“Um tempo atrás comprei um desses amáveis equipamentos na forma de um iPhone, o que significava que eu poderia também checar meu e-mail esperando na […]

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Para você que checa o e-mail enquanto dirige

“Um tempo atrás comprei um desses amáveis equipamentos na forma de um iPhone, o que significava que eu poderia também checar meu e-mail esperando na fila de checkout, caminhando pelo escritório, andando de elevador, enquanto ouvia as palestras de outras pessoas (ainda não descobri como fazer isso durante minhas próprias palestras), e mesmo quando parava no semáforo. Na realidade, o iPhone fez o nível do meu vício muito claro.”

Esse é Dan Ariely, em “Previsivelmente Irracional”, livro ironicamente classificado como “lúcido” pelo jornal “The New York Times”.

Lúcida é a última palavra que me vem à mente ao mergulhar nos estudos do Ph.D em psicologia cognitiva e administração de negócios. Parece que somos todos mesmo muito loucos – e aceitar isso é o primeiro passo.

Confesso: tenho checado o retorno dos meus fundos no celular enquanto atravesso a rua a caminho do trabalho (ao som de buzinas, porque moro em São Paulo). E, quanto mais o mercado se estressa, mais eu confiro.

Orgulho-me de ter desenvolvido estômago para checar, ver prejuízo e não sacar: raros fundos de ações e multimercados estão ganhando dinheiro de um mês para cá. Minha mãe diz que é feio se consolar com desgraça alheia, mas confesso também que espiar o retorno no ano da Dynamo (-9,76 por cento), da Atmos (-16,02 por cento) ou do Verde (1,46 por cento) – reconhecidamente três das melhores gestoras brasileiras, infelizmente com fundos fechados para captação – tem sido o meu Rivotril.

Eu gostaria, entretanto, de ter estômago para investir mais. O livro-texto manda ajustar sua parcela em risco, indo às compras, à medida que ela encolhe. Isso – abrindo meu coração aqui – tenho dificuldade de fazer.

Como convencer nosso cérebro de que algo que machuca no curto prazo pode ser bom no longo prazo?

Buscando conforto cognitivo no papa Ariely, encontrei uma técnica besta, mas que decidi colocar em prática. Vou compartilhar com você.

Ao fazer uma transfusão de sangue, Ariely contraiu hepatite C e aceitou participar de um tratamento experimental para combatê-la. O protocolo exigia que ele aplicasse em si mesmo injeções três vezes por semana, com efeitos colaterais sofridos: febre, náusea, dores de cabeça e vômito.

Por seis semanas, às segundas, quartas e sextas, ele voltou da escola e, religiosamente, aplicou em si mesmo a tal da injeção.

Ariely se deparava todos os dias com este cenário: dar-se uma injeção e se sentir doente pelas próximas 16 horas (efeito negativo imediato) em prol da esperança de que o tratamento iria curá-lo da hepatite (o efeito positivo de longo prazo).

Ao fim de seis semanas, os médicos contaram a Ariely que ele foi o único paciente que seguiu o protocolo de forma exata; os outros deixaram de tomar o medicamento várias vezes. “A dificuldade que eu e o resto dos pacientes tivemos com o interferon foi o problema básico de gratificação postergada e autocontrole”, ele conta no livro.

Como Ariely superou essa dificuldade? Como um bom cinéfilo, ele tomou a decisão de só assistir a filmes depois de tomar uma injeção. Após cada uma delas, ele poderia dedicar-se à telinha até que caísse no sono. A rotina passou a ser: sair da escola, ir à locadora buscar filmes (não havia Netflix naquele tempo), tomar a injeção e dar início ao seu minifestival particular.

Dessa forma, o estudioso das finanças comportamentais conseguiu ajudar o cérebro a associar a injeção mais com o prazer dos filmes do que com seus efeitos colaterais. E, assim, continuar o tratamento.

Fácil, não? Não é à toa que um psicólogo já ganhou um prêmio Nobel de Economia.

“Para superar muitos tipos de vulnerabilidades humanas, acredito que seja útil buscar truques que combinem imediatos e poderosos reforços positivos com os passos não tão prazerosos que precisamos tomar em direção aos nossos objetivos de longo prazo”, escreve brilhantemente Ariely.

Logo, se o seu guru financeiro diz a você para economizar no cafezinho e na pipoca do cinema, dê uma banana para ele.

Estamos vivendo um daqueles momentos que testam nossa capacidade de postergar. Facilite para o seu cérebro: dê-se uma recompensa no presente.

A cada 1 mil reais adicionais investidos em um fundo que caiu (desde que você tenha escolhido bem o gestor, claro) ou naquele fundo de previdência – cujos benefícios você só vai aproveitar dentro de décadas –, faça algo muito legal por você.

Pode ser uma ida àquele cinema da cadeira que reclina e da pipoca gourmet. Ou aquele café da loja de chocolates que custa mais caro do que o pacote do grão, mas que vem com um acompanhamento delicioso. Ou quem sabe um boteco com os amigos…

Um brinde a Ariely!

A Morningstar, maior provedora de dados de fundos do mundo, quantifica todos os anos os danos sobre o retorno do investidor ao se movimentar muito – em geral sacando na queda e investindo mais na alta.

O estudo mais recente, divulgado neste mês, mostra que enquanto os fundos de ações americanos renderam em média 8,93 por cento ao ano na última década, o investidor médio ganhou com os mesmos produtos 8,32 por cento ao ano (pelo seu movimento de entradas e saídas).

Para ações internacionais, o gap é maior. Os fundos conseguiram um ganho médio de 3,99 por cento ao ano. Os investidores, reagindo aos instintos de entrar e sair, ficaram para trás, com 2,95 por cento.

A Morningstar destaca que o retorno do investidor ficou próximo da média dos fundos nos últimos anos – o que atribui a anos melhores para os mercados financeiros. Nos piores, o investidor tende a se movimentar mais, tentando acertar o timing. E, consequentemente, deixa mais dinheiro na mesa.

Tomou posse na presidência da Anbima, associação do mercado financeiro, Carlos Ambrósio, presidente da Claritas. Ele é o primeiro representante de gestora independente (e não de banco) à frente da associação.

É uma ótima notícia para o mercado brasileiro, em que a gestão de fundos ainda está muito concentrada nos grandes bancos.

Dos 4,19 trilhões de reais investidos em fundos no Brasil, 58 por cento são geridos pelos cinco maiores bancos – Banco do Brasil, Caixa, Itaú, Bradesco e Santander. Os demais 551 gestores dividem o restante do bolo.

Parece normal a olhos tupiniquins, mas olhe para fora. As três maiores gestoras do mundo – BlackRock, Vanguard e State Street Global Advisors – têm como atividade principal investimentos, não crédito bancário.

O SEGREDO DOS MILIONÁRIOS

Aqui na Empiricus, ninguém entende mais de construção de fortunas para o longo prazo do que o Rodolfo Amstalden. E ele conta para você aqui os três grandes segredos dos maiores investidores do mundo.