Ponte Área Viena-NY: ações com 50 por cento de desconto, na 1a classe

Steve Jobs foi adotado. Jeff Bezos também. Será que isso diz mesmo alguma coisa sobre suas personalidades obstinadas? Ou seria só coincidência?

Ponte Área Viena-NY: ações com 50 por cento de desconto, na 1a classe

Há artigos científicos demonstrando como filhos de pais pobres tendem, na média, a apresentar retornos superiores de suas carteiras quando comparados a herdeiros ricos. Embora eu me sinta tentado a acreditar, confesso: aposto que existem outros estudos sugerindo o contrário. A marreta sobre os dados é mais poderosa do que gostaríamos de supor – torturamos os números até que eles confessem o que queremos.

Um importante gestor de ações brasileiro costuma dizer que consegue antever o perfil de retorno de um fundo a partir da árvore genealógica de seus principais executivos – se o gestor é o primogênito, será mais agressivo, alavancado e concentrado; se o caçula, mais bunda na parede.

Sei lá. Não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem. Talvez meu apreço pelas ações seja simplesmente resultado de uma relação edípica mal resolvida. Na tentativa de superar o pai herói, eu precisaria me provar em Bolsa. Pode até ser, mas não gosto de acreditar nisso. Quero crer que se trata verdadeiramente de uma decisão racional, da aplicação de um método e do aproveitamento de janelas de oportunidade.

Primeiro, tem toda a coisa estrutural brasileira, de que os juros são muito altos e há uma subalocação em renda variável. Em mais uma jaboticaba típica, somos historicamente o País em que o prêmio de risco de mercado é negativo. Ou seja, a bolsa tradicionalmente paga mal. Ocorre que isso tende a mudar. Seja pelo cenário bom (Brasil faz ajuste fiscal estrutural e juro real vai ser baixo porque juro nominal vai ser baixo), seja pelo cenário ruim (Brasil não faz ajuste fiscal e juro real vai ser baixo porque a inflação vai ser alta). Se arrumarmos minimamente a casa, o Brasil, num cenário de ampla liquidez global, estará overfunded e precisaremos quase inexoravelmente migrar para Bolsa.

A isso talvez pudéssemos somar questões de momento, ligadas à mudança do espectro político em direção ao centro e à direita, numa ruptura que veio acompanhada da ortodoxia na gestão da política econômica. Historicamente, os grandes ciclos de multiplicação das ações no Brasil foram marcados justamente pela reunião desses dois elementos.

Mas a coisa é mais ampla. Não se trata apenas de uma janela conjuntural ou de idiossincrasias brasileiras. Há uma força epistemológica, quase ontológica, em favor das ações.

A renda variável obedece ao princípio da convexidade. Por construção, e pela responsabilidade limitada, o investidor pode perder apenas o que aplicou numa determinada ação. Prejuízo máximo de 100 por cento do capital, com a contrapartida de um ganho potencial infinito (pode ser 10, 20, 100, 200, 1.000, 10.000 por cento).

Então, pensa o seguinte: se você não souber nada (normalmente não sabemos mesmo; bem-vindo ao clube) e selecionar 50 ações aleatoriamente (ou qualquer outro número grande de sua escolha), o que deve lhe acontecer depois de 30 anos? Alguma coisa mais ou menos assim: 10 empresas quebram (perda de 100 por cento), 30 ficam ali entre pequenos lucros e prejuízos, e outras 10 se multiplicam por algum fator grande, aquelas que realmente deram certo. Veja que, nessas últimas, o ganho não foi apenas de 100 por cento. As companhias que realmente prosperaram podem ter se multiplicado por, sei lá, 100 vezes. Então, seus prejuízos serão mais do que compensados pelos lucros, por grande vantagem.

Os ensinamentos de Nassim Taleb em prol da convexidade e da antifragilidade favorecem as ações.

“Ah, mas não é muito arriscado comprar muitas ações? Eu não vejo os grandes investidores brasileiros falando tanto em ações…”

Bom, lembre-se que o fundo Verde nasceu com a intenção de ter cerca de 1/3 de suas aplicações em Bolsa. Mas deixemos isso de lado.

Aqui entra o sócio de Nassim Taleb na história: Mark Spitznagel, também fundador da Empirica. Ele formalizou como podemos ter uma alta alocação em ações (ou outro ativos de risco), naquilo que batizou de “Paradoxo do maior retorno com menor risco”.

A ideia é que você pode comprar bastante Bolsa, contanto que destine um pequeno percentual de seu patrimônio à aquisição de seguros-catástrofe, ativos que devem se multiplicar por um fator grande caso o mercado de ações caia muito. Esses seguros vão proteger seu portfólio no caso de uma crise e são tipicamente representados por puts (opções de venda) fora do dinheiro – Spitznagel recomenda mais fortemente aquelas 25 a 40 por cento fora do dinheiro, com vencimento em três ou quatro meses à frente.

Isso é o que ele chamou de Austrian Investing I, uma abordagem de investimento apoiada nos ensinamentos da Escola Austríaca – para ele, os principais crashs do mercado são resultado de distorções promovidas por uma política econômica intervencionista, normalmente de uma política monetária excessivamente expansionista. Quanto maior for a injeção de dinheiro no sistema pela autoridade monetária, maior deve ser sua compra de puts – esse é o resumo da coisa.

Até aqui, nenhuma grande novidade. Já escrevi sobre isso algumas vezes. O que tem para hoje especificamente? As linhas acima foram escritas apenas para chegarmos ao chamado Austrian Investing II.

Se vamos manter uma posição razoavelmente grande em ações, como selecioná-las? Mark Spitznagel recomenda foco em dois indicadores: i) ROIC; ii) Faustmann ratio.

O primeiro passo é ordenar as empresas pelo seu nível de ROIC, o retorno pelo capital investido. Maneira mais simples de obtê-lo: EBIT (lucro antes de juros e impostos, ou lucro operacional) sobre capital investido (o capital operacional exigido para gerar esse EBIT).

O ROIC alto garante que a companhia poderá seguir reinvestindo seus lucros naquele negócio para se tornar ainda mais eficiente e continuar crescendo. De forma bastante simples: você investe, tem alto retorno sobre o investimento e pode seguir a expansão. Trata-se de uma espécie de garantia de crescimento com rentabilidade.

Dentro das empresas de alto ROIC (foque no primeiro quartil), Spitznagel procura aquelas com o que chama de baixo Faustmann Ratio, uma espécie Valor de Mercado sobre Patrimônio Líquido (no original, aparece como Market Capitalization of Equity / Net Worth, em que Net Worth = Invested Capital + Cash – Debt – Preferred Equity).

O baixo Faustmann Ratio seria uma indicação de que o mercado está, por alguma razão (possivelmente por conta de algum resultado ruim de curto prazo), subestimando a capacidade daquela companhia gerar lucros intertemporalmente.

Note, portanto, que seria uma espécie de união de um critério de growth (alto ROIC indicaria capacidade de manter a expansão sob bons níveis de rentabilidade) com value (baixa relação de valor de mercado sobre patrimônio).

A abordagem austríaca de Mark Spitznagel apresenta, sim, relação com o value investing tradicional, cuja difusão se iniciou pela Universidade de Columbia. Ainda que haja diferenças de método, as semelhanças são notáveis.

Warren Buffett também mostra apreço por bons níveis de ROIC, além de se autodefinir como uma mistura de Benjamin Graham (value) com Phillip Fisher (growth). E o próprio Benjamin Graham gostava de dois critérios fundamentais: ações abaixo de 120 por cento do patrimônio líquido, com earnings yield atrativos.

Talvez nem o próprio Mark Spitznagel concorde, mas eu vejo mais semelhanças do que mistérios na ligação entre os austríacos e a Universidade de Columbia.

Semana começa com grande expectativa em torno das taxas de juro. Copom anuncia nova Selic na quarta-feira, com expectativa predominante de novo corte de um ponto percentual, para 9,25 por cento. Talvez até mais importante do que a decisão em si, já amplamente esperada, sejam as sinalizações do que pode vir à frente.

Banco Central dos EUA também atualiza suas diretrizes de política monetária na quarta, com prognóstico de manutenção do juro básico. Há certa preocupação com eventuais sugestões sobre a diminuição do balanço do Fed e timing da subida de juro, provavelmente em dezembro.

Hoje, agenda local traz: IPC-S (+0,09 por cento); relatório Focus, com revisão para cima nas projeções de inflação depois de aumento de impostos sobre combustíveis, mas manutenção das estimativas para Selic; balança comercial e relatório da dívida pública. Safra de resultados trimestrais ganha fôlego nesta semana.

No exterior, dia é mercado por uma série de indicadores PMIs. Além disso, nos EUA temos vendas de casas usadas e resultados da Alphabet, controladora do Google. FMI soltou relatório de projeções para economia global, com prognóstico de crescimento de 3,5 por cento neste ano e 3,6 por cento em 2018.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,2 por cento, influenciado por relativa calma (sabe-se lá até quando) na esfera política e alta da maior parte das commodities, com destaque para o petróleo. Dólar e juros futuros estão perto do zero a zero.

Mês de julho tem sido positivo para Bolsa. Capturamos fortemente o movimento na Carteira Empiricus. O portfólio recomendado completa 40 meses desde sua concepção. Para celebrar a data, fizemos uma promoção realmente especial para a assinatura. Tenho muito orgulho do que produzimos no Carteira , com um retorno excepcional de 170 por cento do CDI desde sua criação. Certamente contamos com a sorte no meio do caminho, mas que ela continue conosco à frente. Fica o compromisso de muita dedicação e diligência para estender isso no futuro. O convite está feito e as portas da Empiricus totalmente abertas com a promoção de hoje. Confira.

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