Prejuízos menores, por favor

Metaforicamente, nosso cérebro é uma máquina feita para preferir 10 rodadas de perdas de 10 mais duas rodadas de perdas de quatro, do que apenas 10 rodadas de perdas de 10.

Prejuízos menores, por favor

Papai era homem estóico. Trabalhava demais. Sofreu muito também por conta da miastenia, da montanha-russa do trading e da culpa associada aos erros derivados do excesso de alavancagem e concentração. Mas nunca reclamava. Dia bom, dia ruim, jamais transmitia pra gente verbalmente. Percebíamos as notícias do pregão pela intensidade do tabagismo.

“O menor prejuízo é o melhor”, repetia como se tentasse me convencer por osmose. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço. A lição era valiosa, claro, mas desafiava a prática. Ele mesmo resistia a vender posições perdedoras e misturava o vício na nicotina com outro no preço mérdio.

Papai era apenas humano, demasiadamente humano.

Teddy Odean debruçou-se sobre a tendência dos investidores a segurarem em demasia posições ruins, pela dificuldade em reconhecer materialmente a dor psicológica associada ao prejuízo. Ao decidir continuar com uma ação em carteira, o sujeito abre mão da possibilidade de vendê-la e recuperar suas perdas numa outra oportunidade. A todo momento, precisamos nos questionar sobre o custo de oportunidade de manter aquilo. Sua carteira atual é a melhor para se ganhar dinheiro pra frente? O passado não se muda. Não importa se ganhamos ou perdemos. São essas as posições mais vencedoras do futuro?

Já falamos sobre isso. Mas há outro problema sobre experiências passadas desagradáveis.

Os estudos sobre comportamento humano, que obviamente nada tem a ver com a espécie Homo Economicus descritas em profundidade e detalhe nos livros das Ciências (?) Econômicas, mostram diferenças importantes entre o fato objetivo em si, a forma como o interpretamos e a memória formada a partir daquela experiência.

O que você prefere?

1 – Jogar 10 rodadas e perder 10 em cada uma delas?

2 – Jogar 12 rodadas, perder 10 nas 10 primeiras e dois nas últimas duas?

Obviamente, do ponto de vista financeiro, a primeira alternativa é preferível.

Daniel Kahneman encontrou coisas bastante anedóticas em seus estudos sobre situações negativas e associadas a dor. Assumindo um comportamento médio, se você ficar por 10 minutos com as mãos dentro de um balde com muito gelo, vai se lembrar dessa experiência de maneira mais desagradável do que se passasse esses mesmos 10 minutos mais outros dois com as mãos ali dentro caso esse fim seja menos dolorido do que a fase anterior. Veja: os dois últimos minutos ainda são desagradáveis, mas apenas menos desagradáveis do que os dez anteriores. Ainda assim, você prefere 10 minutos muito ruins mais dois minutos moderadamente ruins, do que apenas dez minutos muito ruins, ferindo evidentemente as premissas de perfeita racionalidade e preferências monotônicas.

A coisa do gelo é, claro, uma experiência em tom de brincadeira. Kahneman pediu exemplos semelhantes a seu amigo Donald Redelmeier no escopo material da medicina. Ele encontrou rigorosamente o mesmo padrão em experiências com colonoscopia – até os anos 80, esse era um procedimento muito desagradável, de que os pacientes tentavam se esquivar; uma forma de fazê-los dispor-se a uma nova colonoscopia era simplesmente adicionar alguns minutos finais menos desagradáveis ao procedimento.

Evidentemente, a transposição do contexto médico e de dor para o universo das finanças se liga aos prejuízos. Metaforicamente, nosso cérebro é uma máquina feita para preferir 10 rodadas de perdas de 10 mais duas rodadas de perdas de quatro, do que apenas 10 rodadas de perdas de 10.

A maneira com que os prejuízos acontecem e a forma com que lidamos e lembramos deles são diferentes. O bolso, porém, ainda insiste em nos lembrar que o menor prejuízo é o melhor. A memória mais eficiente que podemos ter das operações é o extrato bancário. Este é o mais estóico de todos. Não demonstra sensações. Apenas é.

Antes de ir para o protocolar comentário sobre o comportamento diário dos mercados, quero falar rapidinho dos resultados impressionantes de Guararapes. Porrada monstra, mesmo num contexto desafiador, com lucro mais do que dobrando. Imagina isso num contexto de juro a 7 por cento ao ano e economia um pouquinho melhor. Ação está na série oportunidades de uma vida no Palavra do Estrategista (fechado para novas assinaturas) desde os R$ 40. Claro que, se eu falasse à época da inclusão que iria a R$ 110, seria evidentemente exagerado. Agora, a R$ 108, jogado a seus pés e com mil rosas roubadas, acho que vão a R$ 150 no prazo de 18 meses.

Mercados iniciam a quinta-feira ainda pressionados por aumento das tensões entre EUA e Coreia do Norte. Ameaça de bombardeio à ilha de Guam, onde se situa base naval norte-americana, representa recrudescimento da temperatura geopolítica. Investidores procuram por portos seguros e evitam posições de risco, embora sem muita intensidade. Dólar e ouro sobem no exterior.

Por aqui, declarações de membros do Centrão contra a Previdência geram algum desconforto, embora todos saibam que pode ser mera pressão por mais cargos, emendas e afins. E lá se vai mesmo a meta fiscal deste e do próximo ano. Na véspera, Comissão da Câmara aprovou Distritão e fundo de 3,6 bi de reais para financiamento de campanha.

Na agenda econômica estrita, prévia do IGP-M apurou deflação de 0,03 por cento, próxima às estimativas. Temporada de resultados corporativos ganha força com números do Banco do Brasil agora pela manhã e Petrobras à noite. Nos EUA, temos pedidos de auxílio-desemprego e inflação ao produtor.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,4 por cento, dólar sobe contra o real e juros futuros avançam em novo dia de aumento da aversão a risco.

Encerro com um convite àqueles que entendem a necessidade de prejuízos menores e controlados. Encerraremos hoje as adesões em condições muito especiais do Gamma Trader. Perdas limitadas, com potenciais de lucros ilimitados. Estóico pode até não comemorar, mas lá no fundo também gosta de ganhar dinheiro.

Conteúdo relacionado