Procurando Nemo

Os grandes tubarões agora estão Procurando Nemo.

Procurando Nemo

Depois de se mudar para a Palestina e se instalar pela costa, os filisteus, tidos como bastante perigosos e conhecedores da arte da guerra, foram se deslocando para leste, rio acima ao longo do vale de Elá.

Eles queriam capturar a cadeia montanhosa perto de Belém e, para isso, precisariam enfrentar os israelitas, liderados pelo rei Saul. Incomodado pela aproximação do impiedoso inimigo, Saul organizou seus homens e foi em direção às montanhas para prontamente enfrentar os filisteus. Esses, por sua vez, levantaram acampamento, enquanto os israelitas se mantinham do outro lado da cadeia montanhosa, ao norte.

Por longos e apreensivos momentos, estabeleceu-se uma espécie de guerra fria. Os dois exércitos se olhavam sem nenhum movimento. Ninguém ousava atacar. Quem primeiro se movesse teria de descer o vale e caminhar ladeira acima pelas montanhas do outro lado, enfrentando um exército bem postado e em clara vantagem estratégica. A decisão por iniciar a batalha era suicida.

Os filisteus, mais ansiosos pela conquista e sabedores da necessidade de seguir em frente, logo escolheram um representante para a guerra. Escolheram seu maior guerreiro para descer a montanha e enfrentar o selecionado pelo outro grupo frente à frente – essa era uma forma típica de se resolver impasses dessa natureza. Sacrificava-se apenas um homem, supostamente o mais hábil guerreiro, sem que todo o exército precisasse se enfrentar, poupando vidas e fazendo com o que o único representante servisse de símbolo para todo o embate.

O escolhido para ir à batalha pelo lados dos filisteus era um gigante de dois metros de altura. Ele vestia um capacete de bronze e uma armadura de corpo inteiro. Carregava uma lança de arremesso, outra de curto alcance e uma espada.

Quem teria coragem de enfrentar aquela figura assustadora e aparentemente insuperável?

“Qual é o seu escolhido?”, gritaram os filisteus.

Após alguns instantes de silêncio pelo lado israelita, um jovem pastor, de origem em Belém, se pôs como voluntário. Ele é magro, sem aparente treinamento para a guerra. Não dispunha de armadura, tampouco de lances potentes. Saul, de súbito, rejeitou a oferta. “Você não tem a menor condição, meu caro.” Ele insistiu e, sem opções, o rei acabou cedendo.

Parecia não haver a menor chance para o pobre pastor. Enquanto ele descia a montanha, o lado israleita parecia já antecipar a derrota. O gigante estava inteiramente preparado para o embate um a um. Vestia uma túnica feita de centenas de escamas de bronze sobrepostas, que cobria seus braços até os joelhos. Caneleiras protegiam suas pernas, unidas a placas de bronze cobrindo seus pés. A cabeça era protegida por um capacete de metal.

Do outro lado, um pastor que recusa sequer ter uma espada. Ele carrega apenas seu cajado de pastor, uma bolsa de couro de sua funda e algumas pedras pesadas.

Então, antes mesmo de começar o confronto corpo a corpo, o jovem pastor coloca uma de suas pedras na bolsa de couro de sua funda, lançando-a na testa exposta do gigante, com velocidade e precisão simplesmente estonteantes. O guerreiro filisteu tomba de uma só vez, para surpresa geral. O azarão ganhou a batalha sem ter sofrido qualquer grande ameaça.

O nome do gigante era Golias. O pastor era Davi. A batalha entre os dois virou um grande clássico, uma metáfora corriqueira para se referir sempre ao enfrentamento de gigantes pelos pequenos, de pessoas comuns contra poderosos, de desconhecidos contra famosos, por aí vai.

Normalmente, se associa a Davi uma adversidade muito grande. Sua vitória seria sinal inequívoco de superação de algo aparentemente intransponível. A verdade, porém, é que Golias não tinha a menor chance contra Davi.

Ele poderia ser mais forte, mais bem preparado para o combate corpo a corpo, mais bem armado. Mas jamais poderia enfrentar um fundibulário, um “guerreiro de projéteis”, alguém capaz de acertar-lhe à distância, de forma ágil e precisa. No Livro dos Juízes do Antigo Testamento, os fundibulários são descritos como capazes de atirar uma pedra com uma funda num fio de cabelo sem errar. Poderia matar alguém a uma distância de até 200 metros. Qual a chance de um gigante, com uma pesada armadura sobre si, escapar de alguém munido dessas características?

A batalha de Davi contra Golias não oferece a vitória do azarão, no sentido de que venceu quem dispunha das menores probabilidades de sucesso. A vitória do pequeno e ágil contra o grande e estático era simplesmente inexorável.

Por que essa longa história?

Quando nós criamos a Empiricus, tínhamos uma única obsessão: levar à pessoa física investimentos tão bons quanto aqueles praticados pelos profissionais.

A ideia desafiava por completo o status quo. No país dos oligopólios, entre os quais o setor financeiro é representação canônica, e da superioridade (?) intelectual da Faria Lima e do Leblon, somente os grandes investidores poderiam aferir retornos anormais. Quem ousa desafiá-los?

Eu até poderia entender o esforço egocêntrico dessa gente em se colocar como superior aos demais. O narcisismo das pequenas diferenças. Mas o mais surpreendente foi de que o próprio investidor não profissional se colocava em desvantagem. Ele assumia para si a posição de sardinha indefesa contra os tubarões ávidos por sangue, que, nessa metáfora mitológica, só poderiam lucrar aproveitando-se da fragilidade alheia.

Nunca acreditei nisso. Aqui dentro, repito diariamente – e as pessoas a minha volta já não aguentam mais a mesma história – que cada palavra que escrevemos precisa valer para a minha mãe e para o maior gestor de investimentos do Brasil. Nunca admiti que “porque é para a pessoa física, que está na poupança ou no fundo DI pagando 4 por cento ao ano, podemos fazer um trabalho apenas nota 6.”

Há duas razões objetivas para isso. Se a ação XPTO sobe 30 por cento, ela sobe igualzinho para a minha mãe e para o gestor famoso. O mercado é um ambiente absolutamente democrático e justo – aqui no sentido clássico de justiça, em que a deusa Têmis aparece vendada para não escolher a priori vencedores e derrotados. O sentido de equidade é preservado na medida em que os ganhos estão lá para todos, basta encontrá-los.

Além disso, se, em algum momento, a pessoa física perceber que estamos lhe oferecendo uma espécie de “série B” dos investimentos, ela deixará de contar com a nossa ajuda. Precisamos lhe entregar o que há de melhor, um research efetivamente de ponta. Isso, claro, exige muito trabalho, uma equipe grande e competente, interlocução com outros agentes de mercado e por aí vai.

Felizmente, hoje podemos oferecer isso.

Mas o que eu gostaria de dizer mesmo hoje é que, no meu entendimento, o momento atual não somente permite ao investidor pessoa física ter rendimentos alinhados àquele do investidor institucional grande. Eu acho que o ciclo atual lhe confere vantagem sobre os grandes gestores. Falo isso sinceramente.

Se estivermos certos sobre a hipótese da consolidação de um bull market estrutural de alguns anos, qual classe de ativos vai oferecer os maiores ganhos?

Em assumindo válida a hipótese acima (em outra oportunidade podemos atacá-la, mas aqui vamos assumi-la verdadeira), o mercado acionário será o grande líder de rentabilidade nos próximos anos – aqui já temos o primeiro obstáculo a ser superado pelos grandes fundos macro brasileiro, ainda, no geral, bastante despreparados em termos de equipe e processos para investir em ações.

Mais do que isso, serão as small caps as representantes das maiores multiplicações. Elas tradicionalmente oferecerem a maior assimetria de retorno e serão elas as líderes em valorização num grande ciclo de melhora da economia brasileira, agenda reformista e ainda ampla liquidez global. E qual a capacidade dos grandes gestores investirem hoje em small caps no Brasil? Mínima!

Para eles, não vale sequer o tempo de estudar uma ação que pode se multiplicar por 5x. Mesmo que identifique uma superoportunidade numa empresa pequena, qualquer posição sua minimamente relevante naquilo vai puxar os preços substancialmente para cima e impor-lhe sérios problemas no momento da saída.

Você pode até convencer um grande gestor de que Senior Solutions, por exemplo, é uma grande oportunidade – eu mesmo acho isso. Ele vai concordar com você. Mas na hora de montar no próprio fundo, provavelmente vai lhe responder que: “aqui, não cabe. Você sabe.” E o pior: ele tem razão. Só lhe resta atuar como pessoa física naquela própria empresa e comprar para si se eventualmente quiser.

Os grandes tubarões agora estão Procurando Nemo.

As condições, ao menos por enquanto (e essa restrição temporal é sempre importante), parecem postas para a continuidade do bull market, principalmente para mercados emergentes. Minério de ferro bateu limite de alta na China e petróleo sobe de maneira vigorosa. O rali de commomities anima ações e moedas emergentes nesta manhã.

Agenda é relativamente fraca nesta segunda-feira e investidores começam a se preparar para encontro de grandes banqueiros centrais no final de semana.

Sem grandes drivers adicionais, bolsas lá fora estão perto do zero a zero. Alta das matérias-primas sustenta bom humor por aqui, em dia de agenda fraca – relatório Focus aqui e atividade pelo Fed de Chicago nos EUA.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,3 por cento e dólar cai contra o real. Juros futuros estão perto da estabilidade após um relatório Focus sem grandes alterações.

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De relevante mesmo na agenda: hoje temos estreia aqui na casa. O Mastrocinque passou as últimas semanas estudando diferentes classes de ativos (no Brasil e no exterior) e preparou um relatório recheado de recomendações originais. Os estudos saíram do Brasil, passaram pelo Japão e, acreditem, foram até a Venezuela para te entregar ideias e recomendações que você não vai ver em nenhum outro lugar. “Para descobrir o novo, é preciso se extremo!” Sinceramente, novidade é o que não falta no Super Extreme Investment Ideas.

E para encerrar, Daniel Malheiros, que tem feito um trabalho impecável na cobertura de fundos imobiliários, hoje traz um grande Screaming Buy. Realmente, todos os interessados no assunto precisam ler isso.

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