Próxima parada: 70 mil pontos

A partir de pessoas realmente especiais, podemos atingir uma dimensão mais elevada.

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Próxima parada: 70 mil pontos

Eu não sou pessimista. A vida é que é péssima. Dizem que o Saramago falou isso. Se não falou, dessa ele esqueceu.

Mark Twain – e ele vai voltar hoje algumas vezes – tem uma boa também: “e assim é o mundo; às vezes, sinceramente, desejo que Noé e sua comitiva tivessem perdido aquele barco.”

Estando no Brasil, a gente se esquece facilmente: surpresas positivas também acontecem.

No fim do dia, eu sempre acho que são as pessoas, sabe? Alguns gostam de processos, outros de tecnologia. Eu gosto mesmo é de gente. Acho que são as pessoas que desenham bons processos e constroem a tecnologia. No meu humilde entendimento, mesmo um bom robô advisor, como é aquele do amigo Luciano Tavares, foi construído por meio da arte e da ciência da alocação, num modelo formulado e parametrizado por uma pessoa.

Os métodos matemáticos, embora sejam tentativas de filtrar as mazelas impostas pelas características humanos e aproximar as finanças e a economia das ciências consideradas mais nobres, acabam sendo mera descrição quantitativa da nossa subjetividade.

Você monta um DCF para descobrir o valor intrínseco de uma determinada empresa. Ocorre, porém, que, sem perceber, você já decidiu se vai comprar aquilo ou não. Se está mais otimista, marreta seu custo do equity o quanto for necessário, amplia o “g” da perpetuidade em mero 0,5 ponto percentual (suficiente para aumentar seu potencial de valorização em 15 por cento) e traz um incremento de receita de 2 pontos percentuais no primeiro ano, com impactos exponenciais para o valor lá na frente, posto que as vendas subsequentes são estimadas como um múltiplo do faturamento do primeiro ano.

Sempre me interessei mais pelo homem (mais precisamente, pela mulher, no caso) do que pelo homo economicus. Eu jamais me apaixonaria pelo segundo.

Quando foi nomeada a equipe econômica do governo Temer, imediatamente pensei que aquilo trazia mais impacto positivo para as contas públicas do que as pessoas estavam imaginando. “Ah, mas é um trabalho difícil.” “O que exatamente eles vão fazer?” “As coisas têm que passar pelo Congresso.”

Todas eram considerações pertinentes. O problema é que eram também arrogantes. O fato de nós – analistas, financistas, gestores e investidores – não conseguirmos enxergar tudo o que eles podem fazer não significa que eles não tenham instrumentos além de nossa própria capacidade de antevisão. Se você não vê novas medidas fiscais a serem desenhadas, não decorre dai que Meirelles, Mansueto, Kanczuk, Guardia e os demais não o façam. Não enxergar a saída não significa que a saída não exista.

Mas tudo bem. De novo recorrendo a Mark Twain, “vamos agradecer aos idiotas. Não fosse por eles não faríamos tanto sucesso.”

Para a surpresa geral da nação – e a alta de quase 20 por cento de seus ADRs -, o Ministério de Minas e Energia, influenciado pela Fazenda segundo o jornal Valor, propôs ontem a privatização da Eletrobras, que provavelmente viria de um aumento de capital de até 20 bi, com a preservação de golden share pelo governo para vetos de assuntos específicos.

Talvez a real privatização ainda demore. Bom, a Vale só foi privatizada mesmo agora, considerando a governança prática do negócio. Mas certamente é um começo.

A notícia não é boa somente em si, por conferir maior eficiência à gestão da companhia, cujas ineficiências acumuladas em 15 anos montam a nada menos do que 250 bilhões de reais, segundo o MME.

Além de empurrar as ações de Eletrobras, a notícia pode servir de trigger também para Copel e Cemig, com elucubrações sobre eventuais outros nomes que podem engajar-se num processo de privatização. Certamente, ainda é cedo para pensar na Petrobras, mas sonhar não custa – bom, ao menos por enquanto; do jeito que as coisas vão, se alguém der ideia, é capaz de logo tacarem um imposto sobre a atividade onírica.

Os desdobramentos setoriais também são importantes. Com uma gestão potencialmente mais eficiente em Eletrobras, seria razoável imaginar o desinvestimento em ativos non core e que, dentro do guarda-chuva da companhia integrada, podem não fazer sentido. Sendo válida a construção, acabamos vendo efeitos secundários positivos sobre o racional de Equatorial, que é um comprador clássico de ativos candidatos a turnaround, e também de Energisa, para quem podemos, em alguma instância e guardadas as devidas proporções, traçar paralelos com a própria Equatorial. E não me seria surpresa se toda a movimentação com as distribuidoras de energia viesse a retomar as conversas sobre fechamento de capital de Coelce.

Embora não esteja diretamente ligado ao assunto, já que estamos no setor elétrico e comentando eventuais oportunidades de lucros aqui, não posso deixar de pontuar: o mercado secundário de transmissão de energia parece bastante aquecido, com espaço para algum deal iminente. Nesse escopo, Alupar é nosso pick favorito, comentada com profundidade e detalhe pelo Sergio Oba, no Serious Trader. O Oba me confidenciou ontem que prepara agora um relatório imperdível no setor de shopping. Aguardo ansiosamente. Vale a pena ficar de olho.

Ainda na ótica das oportunidades, merece atenção o caso de Hypermarcas. Ações da companhia devem abrir em queda hoje com notícia de que Lúcio Funaro confirmou pagamento de 20 milhões de reais pela empresa ao PMDB da Câmara, a pedido de Moreira Franco. Não é a primeira vez que surge a notícia. Ela vem, as ações caem e depois voltam. Qualquer queda mais substancial poderia ser vista como oportunidade de compra. Case continua muito sólido e racional intacto.

Voltando à questão estrita de Eletrobras, as consequências da decisão de privatização vão além também do escopo setorial. Equipe econômica passa uma mensagem clara e importante de que está disposta a implementar alternativas fora da caixa, inclusive testando limites ideológicos de parte da base, como forma de ajeitar as contas públicas. O corolário prático do raciocínio é a necessidade de alongamento das durations de suas carteiras de renda fixa – mais diretamente: compre títulos longos, ao menos um pouco; ninguém os tem ainda praticamente e esse é um trade cujo técnico está muito mais favorável do que nos curtos.

Quando vejo pessoas efetivamente competentes à frente de empresas ou de políticas econômicas, sou tomado por uma contestação à supremacia da razão. Fico apaixonadamente seduzido pelo “leap of faith” (salto de fé) de Soren Kierkegaard. A partir de pessoas realmente especiais, podemos atingir uma dimensão mais elevada.

Dois recados rápidos antes de prosseguir para as notícias do dia:

  1. Fernando Ulrich responde hoje se você deve ou não comprar bitcoins, e qual a forma de fazê-lo. Eu tenho sido bombardeado com essa pergunta. Talvez seja a resposta que todos queiram ouvir. Portanto, não percam nossa série sobre criptomoedas. O relatório já está disponível na área de assinantes.
  2. Alexandre Mastrocinque lhe oferece três ideias bastante extremas de investimento, coisas de gente especial, que pensa fora da caixa. Ninguém está falando sobre isso no Brasil e pode ser uma grande porrada – aliás, já está sendo.

Mercados iniciam a terça-feira demonstrando otimismo. Pegam carona no exterior mais favorável em dia de commodities em alta e no clima favorável gerado pela decisão de tentar privatizar a Eletrobras.

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Agenda é relativamente fraca. Por aqui, temos sondagem da indústria pela FGV e pela CNI. Destaque para a cena política, com votação da MP 777 na Comissão Mista. Nos EUA, há atividade do Fed de Richmond, enquanto Alemanha oferece índice ZEW de expectativas e condições econômicas.

Em dia de maior disposição a risco, Ibovespa Futuro abre em alta de 1,21 por cento, dólar cai 0,5 por cento contra o real e juros futuros cedem.

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