Por que o ranking da revista não vai ajudar você

Usar volatilidade como medida de risco é um erro que se repete consistentemente em rankings de fundos de investimentos.

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Por que o ranking da revista não vai ajudar você

Pergunte a qualquer pessoa que entende minimamente de fundos quais são os melhores gestores do mercado. Posso assegurar que nessa lista vão aparecer Luis Stuhlberger, Rogério Xavier, Marcio Appel, Bruno Levacov, Bruno Rudge… Mas Verde, SPX, Adam, Atmos e Dynamo passam longe da lista “os melhores gestores de fundos do mercado” que acaba de ser publicada por uma revista de grande circulação.

Para quem se deu ao trabalho de entrar no site para ver a metodologia do ranking, esses gestores não aparecem porque, para tanto, é preciso que o respectivo fundo esteja aberto para captação. Sabe como eu me sinto? Lendo uma matéria sobre os melhores bares de São Paulo com uma pequena observação no rodapé, de que foram excluídos os que lotam.

Nada contra o ranking quantitativo, que obedeceu a critérios metodológicos. O problema é a forma como ele é apresentado – como “os melhores gestores de fundos do mercado”, um “guia” e uma orientação sobre “onde investir em 2018”. Ele é tão somente um ranking quantitativo de curto prazo.

Saiba mais sobre fundos: Três fundos para você investir seu 13º salário

Quer um exemplo prático? O SPX Nimitz é reconhecidamente um dos melhores multimercados do país em relação risco/retorno desde que foi criado. O fundo está fechado e é mais disputado do que balada boa. A gestora lançou ontem um plano de previdência (veja abaixo no Cota Cheia) – se você seguir o ranking para decidir “onde investir em 2018”, vai perder essa.

Aliás, você poderia até considerar uma péssima ideia entrar na SPX, já que a única ocorrência da casa na lista da revista é em um tal de SPX Nimitz Estruturado, avaliado com somente três estrelas. O fundo não está acessível em lugar algum, tem apenas 33 cotistas e passa uma mensagem completamente errada sobre a casa.

Se o Adam Macro, o Kapitalo Kappa ou o Garde D’Artagnan reabrir em 2018, sugiro que você não fique de braços cruzados, ainda que eles não façam parte da lista de estrelados.

O maior problema, entretanto, não é esse, mas sim usar volatilidade como medida de risco – um erro que se repete consistentemente em rankings de fundos.

Os produtos recheados de crédito ganham mais estrelas porque rendem sem sacudir, sendo que isso acontece não porque são melhores, mas simplesmente porque nosso mercado secundário é muito ruim e a precificação, mais lenta.

Então vejamos: temos seis gestoras de multimercados com cinco estrelas no tal guia. Quatro se beneficiaram do risco mascarado por baixa volatilidade, com fundos que levam inclusive crédito privado no nome – Ouro Preto, Quatá, Solis e Tag.

Os outros dois também não deveriam estar dentre os melhores multimercados. Um é o Oceana Long Biased, que investe somente em ações. Talvez seja o maior acerto da reportagem, mas no lugar errado. O fundo só leva “multimercados” no nome porque tem como referencial IPCA + 6% ao ano. E, se fosse um fundo de Bolsa com referencial em renda fixa, somente poderia ser oferecido a investidores qualificados.

Pelas suas características, entretanto, se o objetivo é ajudar o investidor na seleção, o fundo da Oceana deveria aparecer no ranking de ações, ainda que não ajudasse muito: a lista de fundos acessíveis chegou atrasada – o fundo fechou as portas em 24 de outubro.

Ficamos então com apenas um multimercado de verdade: BB Mult Macro. O que não entendo é como a revista pode exibir uma estrela para o fundo na coluna “Retorno em 36 meses” e cinco estrelas na coluna “Guia 2017”. Como um fundo pode ser tão ruim nos últimos três anos, mas mesmo assim ganhar nota máxima este ano?

O estrelado BB Macro Estilo rende 69,58% do CDI nos últimos cinco anos. Só para ajudar você a fazer uma comparação, o Verde, de volatilidade comparável, rendeu 131,71% do CDI no mesmo período. O Ibiuna Hedge, fora da lista, apesar de aberto, ganhou 107,58% no mesmo período.

Nas ações, o maior acerto, na minha opinião, foi a Alaska, mas não pelo retorno de curto prazo bonitinho, e sim porque tem à frente Luiz Alves, um dos maiores investidores individuais da Bolsa brasileira, com histórico invejável em seu fundo exclusivo, o Poland.

Ainda na Bolsa, vejo um indexado do Itaú com cinco estrelas – nossa, como ele foi bom em imitar a carteira do índice –, alguns fundos de custo absurdo (3% de administração mais 20% de performance é meio caro, né, pessoal?), produtos de small caps, que respiraram enfim depois de apanhar muito, e alguns que têm menos patrimônio sob gestão do que o Felipe Miranda sozinho – bom lembrar que investir pouco dinheiro em Bolsa é bem mais fácil do que muito.

No DI e curto prazo, ganhou quem tinha mais crédito na carteira. Os fundos baratos de títulos públicos passaram longe. Dica para o ano que vem, gestor: quer aparecer no ranking, leve até o limite a participação em crédito. O retorno aumenta e a volatilidade não: bingo!

Rankings quantitativos são um guia ruim para seus investimentos. Você pode ordenar fundos pelo retorno de curto prazo, assim como pode fazer um ranking dos seus amigos pelo tanto de dinheiro que eles ganharam em 2017, fique à vontade. Vai dar trabalho, vai ser divertido, mas daí a usar a lista para escolher o melhor amigo para 2018 é mais complicado.

Leia mais: Os Melhores investimentos 2018 – Guia Completo

 

Estreou ontem com a seguradora do Itaú o fundo de previdência da SPX, conforme antecipamos aqui: Itaú Prev SPX Lancer FIC Multimercado. A gestora deve lançar no ano que vem também com outra seguradora, provavelmente a Icatu, chegando assim a outras prateleiras de varejo.

O fundo vai replicar as estratégias historicamente vencedoras dos multimercados da casa dentro dos limites permitidos pela regulação de previdência. E será também um pouco menos volátil do que o SPX Nimitz, com meta entre 3 por cento e 3,5 por cento de volatilidade.

Encontre mais detalhes no próximo relatório (adianto que, se for investir pelo Itaú, fique atento à taxa de carregamento).

 

Sorte do Bradesco e do Banco do Brasil que o estudo excluiu já na metodologia os fundos automáticos ou que têm programa de prêmios. Não entendi bem por quê – acho que eles deveriam ter sido expostos na lista, com a nota mínima que merecem, já que têm um número expressivo de cotistas e patrimônio. Seria um belo serviço para o investidor em 2018.

Eu conto para você. Qual é o fundo que tem programa de prêmios em que você não deve estar no ano que vem? Hiperfundo Bradesco. Com taxa de administração de 3,9 por cento ao ano, o Hiperfundo rende neste ano 5,71 por cento. A poupança, 6,43 por cento – sem imposto. Esse fundo tem 310.525 cotistas e 3,11 bilhões de reais de patrimônio.

E um fundo automático – daqueles em que cai o dinheiro parado em conta – para não investir em 2018? BB Automático Renda Fixa Curto Prazo. Tem 3,7 por cento de taxa e rendeu 5,88 por cento, também perdendo de lavada para a poupança. É onde está o dinheiro de 146.484 pessoas, que somam 14,99 bilhões de reais! Isso sim merecia capa de revista.

 

O que fazer?

Quer saber o melhor fundo para investir para 2018 a partir de critérios quantitativos e qualitativos? Então veja aqui.

Quer se exibir praquele parente chato na ceia de Natal? A Beatriz Cutait acaba de lançar um livro que vai fazer você reinar nas conversas sobre investimentos. Posso garantir: ninguém é tão didático quanto a Bia.