Como não correr risco nenhum

Há momentos de mercado que justificam simplesmente não correr risco nenhum nos investimentos. Porque correr risco é muito legal quando você ganha. Quando perde, é a pior sensação do planeta.

Compartilhe:
Como não correr risco nenhum

Imagine que você tem um patrimônio de R$500 mil e que no dia 1° de janeiro de 2017 você investiu tudo na Bolsa.

Olhando para o seu portfólio hoje, você teria acumulado nada mais, nada menos que R$718 mil, uma valorização de 43,6%.

Uau! Em pouco mais de um ano você conseguiu aumentar seu patrimônio em quase 50%. Legal, não? Você deve estar muito feliz.

Agora imagine que um ano depois estoura uma crise nos EUA, seguida de uma forte queda das Bolsas mundiais e fuga de capitais de ativos de risco, como em 2008.

A Bolsa brasileira cai 40%, e você passa a ter R$430 mil de patrimônio.

Como será que você estaria se sentindo?

O que passaria na sua cabeça, depois de ver R$718 mil se transformarem em apenas R$430 mil?

Quantas vezes você repetiria para você mesmo o seguinte: “Devia ter vendido tudo, devia ter vendido tudo”?

Correr riscos é muito legal… quando você ganha. Quando perde, é a pior sensação do planeta.

Mas sabe o que é pior? Você só irá descobrir se foi bom ou ruim depois.

Na vida é assim também. Não dá para saber se as mudanças que você decide fazer acabarão sendo boas ou ruins. Escolher uma carreira na época do vestibular, casar, separar, mudar de emprego, empreender, largar tudo para viajar o mundo…

Todas essas são decisões nas quais precisamos nos jogar antes, e só saberemos se isso nos fez mais ou menos felizes depois, quando muitas vezes já é tarde demais para voltar atrás.

Seus investimentos também são assim. Ninguém sabe como será o futuro.

Ninguém sabe se teremos uma crise daqui a um mês ou daqui a dez anos. Ninguém sabe se o ano que vem será o maior bull market de todos os tempos.

Fazemos nossas estimativas baseados no cenário econômico, que tende a repetir certos padrões. Recuperações econômicas têm uma certa “cara” e podem ser inferidas.

Mas nada impede de um efeito aleatório atrapalhar a tendência, e virar o cenário de cabeça para baixo.

O que eu quero dizer é que temos que montar uma carteira de investimentos sabendo que o imponderável pode acontecer.

E essa carteira tem uma composição completamente diferente da carteira do tipo “se tudo que eu prever der certo”.

Faz sentido eu alocar 100% do meu patrimônio em Bolsa se eu acho que o Ibovespa vai subir no ano que vem?

Se eu estiver certa, sim. Mas não sei se vou estar.

Então, nesse caso, não faz sentido nenhum. Afinal, se acontecer o imponderável e a Bolsa cair 40%, eu terei destruído parte do meu patrimônio.

Então, compreendendo a aleatoriedade do mercado, como devo montar a minha carteira?

Resposta: você deve montá-la de acordo com o seu percentual de convicção no cenário atual e que está por vir, sabendo que nunca terá 100% de certeza.

Por exemplo, tenho muita convicção na recuperação econômica brasileira, e acho que os preços e o valuation da Bolsa estão baixos o suficiente para aguentar bastante desaforo político. Mas sei também que uma crise nos EUA ou a eleição de um presidente populista no Brasil acabariam com a valorização dos ativos locais.

O meu cenário-base aponta para eu sair completamente de renda fixa e colocar tudo em Bolsa. Mas as minhas ponderações de risco me deixariam ainda assim com 40% ou no máximo 50% do meu patrimônio em Bolsa.

No resto, correria menos risco, ou risco nenhum.

Como se corre risco nenhum? Com um título público atrelado à Selic. Nele, você tem certeza que receberá a taxa ao final do período.

Se eu colocasse os 40% em Bolsa e o Ibovespa subisse os 43,64% de 2017 até agora, eu ficaria com:

R$500 mil x 40% x 1,4364 = R$287.260

Mais o pedaço em renda fixa:

R$500 mil x 60% x (1 + Selic*) = R$320.250

*Para uma Selic de 6,75% ao ano

Totalizando R$607.510, em vez dos R$718 mil do cenário inicial que imaginamos.

Por outro lado, se a Bolsa caísse 40% logo depois, como aventei, você teria:

R$287.260 x (1 – 40%) = R$172.356

Mais o pedaço em renda fixa:

R$320.250 x (1+ Selic) = R$341.866,87

Totalizando R$514.222,87, em vez de R$430 mil.

O que você prefere? Oscilar seu patrimônio de R$500 mil para uma faixa entre R$514 mil e R$607 mil ou entre R$718 e R$440 mil?

Quanto mais você aceitar correr risco, menos deve fazer uso da renda fixa pós-fixada (Tesouro Selic 2023).

Por outro lado, quanto menos você topar se expor ao risco, mais esse título deve estar presente no seu portfólio.

Ou seja, a renda fixa pós-fixada é o CONTROLE DE RISCO do seu portfólio.

Ela é o instrumento que fará seu resultado oscilar mais ou menos. Não se esqueça disso quando for montar a sua carteira!

Há momentos de mercado, ou níveis de aversão ao risco do investidor, que justificam simplesmente não correr risco nenhum.

Espero que você se lembre sempre disso durante sua vida de investidor.