Sem proteção, depois de nove meses você vê o resultado

Amanhã será celebrado o aniversário de 30 anos da chamada Segunda-feira Negra, quando o principal índice de ações dos EUA caiu 23% num único dia. Relembro o acontecimento para que possamos aprender com ele.

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Sem proteção, depois de nove meses você vê o resultado

Quando o filósofo pós-socrático Dinho, vocalista da banda Mamonas Assassinas, foi perguntado sobre a dificuldade de se lançar um segundo disco tão bom quanto o primeiro, para o qual sua banda havia trabalhado uma vida inteira, respondeu mais ou menos assim. “Como a gente já sabia que essa crítica viria, decidimos lançar o segundo disco primeiro; e lançaremos o primeiro em segundo. Ficou resolvido.”

Amanhã será celebrado o aniversário de 30 anos da chamada Segunda-feira Negra, quando o principal índice de ações dos EUA caiu 23% num único dia. Provavelmente, haverá uma série de notícias nos jornais logo cedo tratando do fenômeno. Como não teria graça falar depois de todo mundo sobre a mesma coisa, escreverei hoje a newsletter de amanhã, e amanhã farei a de hoje.

Deixo os relatos para os historiadores. E os catalisadores para aqueles que se debruçam em encontrar padrões, relações de causa e efeito e conexões lineares. Relembro o acontecimento para que possamos aprender com ele. Jamais esquecer a tragédia, para que ela não se repita no futuro.

Primeira coisa importante: eventos como aquele não são outliers. Eles fazem parte do padrão de comportamento regular do sistema. Os mercados financeiros se movem em saltos súbitos, abruptos e imprevisíveis.

Dai decorre um corolário lógico: é melhor você montar proteções ex-ante (comprar seguros quando tudo está bem e, portanto, a demanda por proteção é baixa e seu preço depreciado) do que desmontar ou diminuir posições depois da caca (com o palavrão fica melhor) já feita.

Segunda questão relevante: ao elucubrar sobre cenários catastróficos à frente, seja para seu portfólio, para comprar um barco, para construir uma casa, nunca imagine que o pior que pode acontecer é equivalente ao maior desastre já registrado no passado. A maior queda da Bolsa norte-americana era obviamente inferior à apurada na Segunda-feira Negra. O maior maremoto no Japão tinha sido menos impactante do que aquele do desastre de Fukushima.

O pior resultado no futuro não tem nenhuma obrigação de circunscrever-se ao tamanho do maior desastre do passado. É uma questão óbvia. De uma coisa podemos ter certeza: se a Bolsa norte-americana já caiu 23% num único dia, sua maior queda potencial não é de apenas 23%. Certamente, é maior do que isso. Se você vê um homem de 2,30 metros, tudo que você pode dizer é que o maior homem do mundo tem, pelo menos, 2,30 metros.

Ainda assim, as pessoas insistem em trabalhar com modelos que projetem a repetição daquilo que já aconteceu. Isso é um clássico no mercado financeiro. Tudo está montado sobre essa ideia. E por que as coisas continuam sendo feitas dessa forma, se a mera aplicação da lógica, quase como a dedução de um teorema, mostra a inadequação do método?

Simplesmente porque as pessoas não pagam pelas próprias falas. A solução para o problema está em não estimular o risco moral e punir diretamente as pessoas que causaram prejuízos a terceiros, em qualquer esfera. É por isso que o novo livro de Nassim Taleb, certamente entre os maiores ganhadores na fatídica Segunda-feira Negra (ele implementa o que ele fala!), se chama Skin in the game. Ouviremos mais sobre isso no nosso evento de 7 de novembro, diretamente da boca dele. Confirme já sua inscrição.

Um jornalista escreve uma matéria calamitosa sobre uma determinada empresa. A tal empresa é defenestrada publicamente. Nega os fatos e pede uma retratação, que vem no dia seguinte num parágrafo na página D-17. O que acontece com o jornalista? Absolutamente nada! Ele continua escrevendo com a mesma diligência de sempre.

Um economista erra fragorosamente suas previsões de crescimento e inflação. Chega no final do ano e o que ele faz? Emprega o mesmo modelo, que produziu erros vergonhosos, para projetar as variáveis macro à frente. Repetir o mesmo procedimento e esperar um resultado diferente é uma das definições de loucura.

Um gestor vê suas cotas derreteram 10% diante do vazamento do áudio do Joesley. Ele é cobrado por aqui e responde: “ah, mas essa não dava pra prever, né?” Ele não entendeu nada. Justamente porque não dava para prever é que ele jamais poderia ter assumido aquele grau de alavancagem, aquela concentração e não carregar nenhuma proteção em seu fundo.

Unskilled and unaware of it, caso clássico do chamado efeito Kruger-Dunning. As dificuldades em reconhecer a própria incompetência leva a julgamentos muito inflados sobre si mesmo, e conduz obviamente a erros, sob a ideia de uma falsa onipotência.

Se o sujeito reconhece que aquele evento não dava para prever, assim como vários outros que acontecem ao longo do tempo e causam variações expressivas para a carteira, ele não deveria ficar tentando antecipar o próximo evento capaz de mexer fortemente com suas cotas. Ele precisaria mudar o foco e assumir-se inapto, preparando-se para o desconhecido.

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O discurso precisa alinhar-se à prática. Em tempo: estou adicionando algumas proteções à Carteira Empiricus.  Seguimos otimistas, mas morremos de medo de nós mesmos. Sabemos da nossa própria incompetência.

Mercados brasileiros iniciam a quarta-feira recuperando-se de alguma morosidade nos últimos dias. A trégua política pavimenta a via para uma maior disposição a risco. Acordo para salvar Aécio Neves pode ter a contrapartida de apoio do PSDB a Michel Temer – ao menos, essa é a esperança. Volta a se falar numa reforma da Previdência mais enxuta, com idade mínima e regra de transição. Nada de concreto, mas só a hipótese já ajuda.

Lá fora, clima está mais calmo também, depois de temor com um novo presidente do Fed mais durão. Temporada de resultados trimestrais ganha força e, no geral, mostra números positivos no exterior.

Na agenda local, IBC-BR ficou um pouco abaixo do esperado (mais sobre isso abaixo), assim como IGP-10. Vencimento de opções sobre Ibovespa Futuro pode trazer um pouco mais de volatilidade aos negócios. Nos EUA, temos dados do setor imobiliário, estoques de petróleo e livro bege do Fed.

Ibovespa Futuro registra alta de 0,65%, dólar cai ligeiramente contra o real e juros futuros cedem.

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