Seus investimentos e sua alma

As ações não ligam para o que você pensa. Você pode amá-las, mas elas não estão nem aí pra você.

Seus investimentos e sua alma

Daniel Kahneman é um grande pessimista. Ele molda cada uma de suas atitudes de modo a evitar o arrependimento. Em jantares de família, subitamente ele se vê obcecado por eventos catastróficos de baixíssima probabilidade. É simplesmente maior do que ele. Impõe-se uma prisão obsessiva com coisas negativas como se, antecipando os eventos na sua cabeça antes de que venham a se materializar efetivamente, possa sofrer menos lá na frente, caso a tragédia, mesmo que altamente improvável, venha a se materializar.

Amos Tversky, grande parceiro intelectual de Danny, era o contrário. Sempre achou que o pessimista sofria duas vezes. Quando pensava na hipótese ruim e esperava por ela; e quando realmente a coisa braba acontecia.

A amizade entre os dois, que viria a mudar, de fato, o mundo e render um prêmio Nobel a Kahneman, está narrada em detalhes no brilhante livro Undoing Project, do igualmente brilhante Michael Lewis. Se você ainda não leu e está com seus olhos sobre essas linhas, está ai um sinal inequívoco da subversão mundial de valores.

A amizade entre os dois é uma típica representação de não linearidade. O trabalho de um e de outro, isoladamente, era ótimo, mas atingia a excepcionalidade somente quando juntavam-se. Não era uma associação meramente aditiva. Havia ali convexidade. Cair de uma altura de 1 metro por 50 vezes não é a mesma coisa do que cair uma única vez de uma altitude de 50 metros.

Quem está certo nessa? O pessimista ou o otimista?

E lá tem jeito certo de ser e estar no mundo?

O aparente antagonismo entre os dois talvez seja a fonte do tamanho sucesso. Precisamos de ambivalência. O grande segredo, e isso obviamente vale para gestão de ativos, está em ponderar forças contrárias.

Não ser excessivamente teimoso e não mudar de opinião quando é estritamente necessário, desfazendo-se da posição; nem, ao mesmo, mão fraca demais, a ponto de vender ao primeiro susto.

Não ser agressivo demais e quebrar no primeiro bear market. Nem conservador no limite e perder oportunidades convidativas de multiplicação de capital.

Não negar as forças do novo, com a enormidade de possibilidades que ele oferece. Sem, ao mesmo tempo, desrespeitar as tradições e as conquistas que nos trouxeram. É fácil acusar os taxistas de luditas em suas posições contrárias ao Uber. Mas e quando acontece com a gente mesmo? Os jornalistas adoram se posicionar contra as forças conservadoras, mas são os primeiros a se insurgir contra as novas mídias e a levantar barreiras contra a falência inexorável da imprensa convencional. Quando o próprio emprego está em risco, ninguém liga mais pra ideologia. Na simplesmente incrível e alucinante peça Vermelho, Mark Rothko tira sarro dos surrealistas e dos cubistas por negar a onda avassaladora do expressionismo abstrato. Posteriormente, é o próprio Rothko quem nega estar perdendo espaço para Andy Warhol e a despretensiosa Pop Arte.

É preciso dar espaço à técnica estrita, aos modelos e às contas, ao mesmo tempo em que se reconhecem as limitações desse instrumental. É permitir-se moderadamente à influência da intuição, entendida aqui não como o simples “cheiro”, sem embasamento – falo aqui de uma série de conhecimentos táticos e técnicas incapazes de serem formalizadas, mas que passam como processos mentais igualmente poderosos naqueles que efetivamente têm o domínio prático de uma determinada atividade. Nas palavras do Pedro Cerize, “um monte de conhecimento que fica acumulado lá no fundo, sem que a gente perceba.”

O caminho exige uma convivência simultânea e ponderada entre as forças dionisíacas e apolíneas. Não é pra ser uma coisa ou outra isoladamente. Nem a rigidez e a falta de criatividade de Apollo, nem a porra-louquice de Dionísio. É o início, o fim e o meio, ao mesmo tempo.

Precisamos abandonar o maniqueísmo entre o bem e o mal, o pessimista e o otimista, se vai quebrar ou multiplicar por 10x, se vai dar certo ou errado, se vai cortar 1 ponto ou 75 pontos na Selic, se o Fed vai ou não subir o juro, se Trump vai mesmo perder o apoio do setor privado norte-americano. Nós simplesmente não sabemos. E, desculpe, com todo respeito, mas ninguém sabe.

É um jeito próprio de se pensar. Ninguém tem opinião se vai dar certo ou errado. Pode ser qualquer coisa. Apenas se compara a matriz de payoff em cada caso. Pode ser brocha, pode ser garanhão, pode ser trepada, pode ser masturbação, pode ser cama, pode ser chão – só não sei, porque eu e você não pode não. Eu adoro o Arnaldo Antunes.

As ações não ligam para o que você pensa. Você pode amá-las, mas elas não estão nem aí pra você.

Mas como fazer, pragmaticamente em termos de investimento, para reunir uma convivência harmônica entre otimismo e pessimismo com os cenários possíveis para nosso dinheiro?

Para o caso particular atual, como ponderar o prognóstico de retomada da economia brasileira (juros caindo, lucros corporativos subindo, aprovação problemática mas paulatina das reformas) com a preocupação em torno de uma bolha lá fora.

A proposta, de novo, recai sobre a não linearidade. Muito risco e muito seguro é melhor do que pouco risco. A força inexorável de um bull market, marcado pelos avanços trôpegos do Brasil e por um ambiente de liquidez altamente favorável, combinada a proteções contra os riscos, conhecidos e desconhecidos.

No fundo, é a aplicação pragmática do Austrian Investing I do Mark Spitznagel, tão contrario às intervenções governamentais principalmente pela via da política monetária e da injeção de liquidez.

Spitznagel é um grande liberal. Assim como ele, eu também tenho uma queda especial por Dionisio. Hoje é sexta-feira, dia de maldade.

Encerro com dois trechos de A Alma Imoral:

“Quantas pessoas poderíamos ter tirado ‘para dançar’ na vida e não o fizemos por ofertar sacrifícios ao nada? Sacrifício ao deus da timidez, ao deus da vergonha, ao deus do medo de ser rechaçado e assim por diante.”

E mais:

“Existe em nós uma tendência de querer agradar a nós, aos outros e à moral de nossa cultura. Com isso vamos gradativamente nos perdendo de nós mesmos. Aquele que engana a si mesmo é mais perverso do que o que engana os outros.”

Mercados tentam recuperar os ânimos na manhã de sexta-feira, depois da tensão na véspera. Num ambiente de alta liquidez, investidores vão à caça à primeira oportunidade. Alta do minério de ferro na China anima mineradoras, enquanto pondera-se perda de apoio a Trump após declarações polêmicas nos últimos dias, consideradas por parte do empresariado como a favor de extremistas.

Atentado em Barcelona na tarde da véspera chegou a preocupar, mas temores maiores já foram dissipados.

Agenda doméstica traz prévias de IPC-Fipe um pouco acima do esperado e IGP-M em linha com projeções. Nos EUA, temos sentimento do consumidor pela Universidade de Michigan e relatório Baker Hughes sobre o setor de petróleo.

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Em dia de maior tranquilidade, Ibovespa Futuro abre em alta de 0,4 por cento, dólar cai 0,3 por cento contra o real e juros futuros cedem.

Dois recados finais:

1. Se você ainda não viu a excelente série sobre criptomoedas feita pelo ótimo Fernando Ulrich, fica o convite. O tempo está se esgotando.
2. A Marília, que simplesmente voa nas recomendações de Renda Fixa, defende a necessidade de uma mudança radical em suas posições. Neste momento, há uma oportunidade fantástica a ser aproveitada, mas exige rapidez

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