Por que Stuhlberger sempre será Stuhlberger

Stuhlberger é genial no raciocínio. Genialidade nem sempre se converte em retorno. Então onde está o segredo?

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Por que Stuhlberger sempre será Stuhlberger

Todo mundo sabe que a gente perdeu dinheiro na China. Nossa preocupação – sobre o que vai acontecer com um país cuja economia está extremamente alavancada em todos os níveis para continuar crescendo – continua igual. Mas a gente não pode, como gestores do fundo, perder todos os clientes antes que isso aconteça. Temos que nos render a esses fatos.

A rendição pública de Luis Stuhlberger na tarde de ontem, frente a uma plateia lotada de clientes, poderia ser vista como uma derrota. Afinal o gestor do fundo desistia ali da posição comprada em dólar contra moeda chinesa, carregada desde 2015, não sem uma dose de sofrimento. Não é como vejo.

De fato, foi a convicção de que em algum momento o governo chinês teria que desvalorizar sua moeda que rendeu ao Verde apenas 53% do CDI em 2017, enquanto grande parte dos demais gestores de multimercados entregavam o triplo, embalados no otimismo com o Brasil.

O investimento de estrangeiros em títulos públicos chineses tinha caído de 23 bilhões de renminbis para uma média de 12 bilhões diante do aperto no controle de capitais. “E a gente nunca imaginou que isso fosse voltar a subir”. Subiu. Para 50 bilhões.

Na queda de braço, os chineses ganharam. “Se o país faz controle de capital e não deixa o dinheiro sair, a consequência é que o dinheiro também não entra. Descobrimos que isso vale para o mundo inteiro, mas não para a China”, assumiu Stuhlberger, retirando o time de campo.

Ele poderia insistir na posição, colocar a culpa em uma mudança de conjuntura qualquer, ou desmontar discretamente – é o que costumo ver por aí –, mas escolheu assumir publicamente o erro e o desmonte de posição.

“Stuhlberger perdeu a mão. Será que não é hora de sacar?” – recebi essa pergunta algumas vezes ao longo de 2017, vinda de clientes e também de alocadores. “Sim, melhor sair”, respondia. “E transferir as cotas para o meu CPF”. Quando o Verde fechou oficialmente as portas, há cerca de 15 anos, eu ainda era uma estudante que economizava no lanche para garantir o fim de semana.

De fora, acompanho cada passo. Nas nossas conversas publicadas, do ano de Jó ao alçapão no fundo do poço, posso dizer: não tem novidade aí. Stuhlberger é genial no raciocínio – converso com centenas de gestores, brasileiros e estrangeiros, posso garantir que é especial –, mas também erra. Nisso ele é igual.

Genialidade nem sempre se converte em retorno. Então onde está o segredo?

“Nós, que gostamos de opções…” – talvez o começo dessa frase tenha passado desapercebido de boa parte da plateia. Para mim, era uma síntese do que talvez seja um de seus maiores diferenciais: convexidade.

O maior traço da genialidade de Stuhlberger possivelmente não esteja em ter boas ideias (isso ele tem também), mas em manter-se convicto de que sua visão particular do mundo pode estar errada.

Quando você compra opções, não o faz porque acha que algo vai acontecer, mas simplesmente porque pode acontecer, e render excepcionalmente bem – esses foram os grandes trades da história do Verde. Pode recuperar aí. Só Stuhlberger consegue, na prática, implementar tão bem essa mudança de paradigma mental. “E se algo muito ruim acontecer? E se for exatamente o contrário?”

Ainda não se convenceu? Vou dar a você pelo menos três motivos para agarrar suas cotas do Verde com ainda mais força:

1. Stuhlberger somente perdeu para o CDI em três de 21 anos de história do fundo: 2008, 2014 e 2017. O Verde acumula 14.612% de retorno desde que foi criado, humilhando o CDI com seus 1.905%. Sempre haverá um nostálgico a dizer que a história recente é diferente e já não se fazem stuhlbergers como antigamente. Discordo. Quem tem um horizonte minimamente razoável de investimentos e está no fundo há três anos ganha no acumulado 145% do CDI.

2. No ano em que errou sua maior convicção, o gestor da Verde entregou 5,25% para os clientes. Assim conseguiu preservar capital – o retorno ficou acima da inflação medida pelo IPCA, de 2,95%. Voltamos ao gosto pela proteção. Queria eu errar assim.

3. O Verde não seria excepcional se Stuhlberger estivesse sempre de acordo com o mercado, nas mesmas posições. China era uma aposta praticamente solitária e muito criticada. Como diversificar o portfólio em fundos se todos os gestores pensarem igual? Deu errado? Ele assumiu o erro e não teimou na posição – isso é só para os grandes.

Retorno excepcional no longo prazo, preservação de capital ao errar o cenário e capacidade de assumir o erro: não é suficiente? Fique à vontade para montar uma posição vendida. Apenas a título de informação, em 2009 e 2015, anos seguintes àqueles em que perdeu para o CDI, o gestor ganhou respectivamente 50,37% e 28,67%, ante 9,90% e 13,23% do referencial.

Em janeiro de 2019 voltamos a conversar sobre esse assunto.

Juro, câmbio, Bolsa

Dito no que Stuhlberger não acredita mais, vou matar sua curiosidade rapidamente de no que ele acredita hoje. O gestor vive em um conflito entre um curto prazo bom para Brasil, com a ajudinha de um cenário externo benigno, um médio prazo recheado de risco eleitoral e um longo prazo com muitos problemas a serem resolvidos – quadro fiscal ruim, com necessidade de reformas adicionais.

Por ora, o Verde está posicionado positivamente em Brasil. A maior convicção é em juros, por meio de uma arbitragem nos vencimentos intermediários da curva. Entendeu nada? Em bom português, ele acha exagerada a diferença dos juros que o mercado espera para janeiro de 2019, por volta de 6,8%, e para 2021, mais perto de 10%.

Em Bolsa, Stuhlberger vê um cenário favorável para estar posicionado no Ibovespa de forma geral, mas disse também encontrar potencial na geração de alfa, ou seja, de retorno acima da média por meio da seleção de ações.

Em câmbio, o gestor está comprado em dólar. Dos três mercados, esse é disparado aquele em que mais se buscará proteção contra eleição, disse.

Uma aceleração da alta dos juros pelo banco central americano não preocupa o gestor. Dentre as explicações está a tecnologia. Enquanto robôs roubam o meu, o seu, o nosso emprego, não há pressão de salários e a inflação não pressiona por uma virada rápida de política monetária.