Tristes Trópicos

Em 1955, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss publicou o seu clássico “Tristes Trópicos”, em que descreve melancolicamente sua viagem pelo “mundo perdido” das tribos tupi-cavaíba, […]

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Tristes Trópicos

Em 1955, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss publicou o seu clássico “Tristes Trópicos”, em que descreve melancolicamente sua viagem pelo “mundo perdido” das tribos tupi-cavaíba, cadiueu, bororo e nambiquara, realizada duas décadas antes.

Durante esta semana, quando o país se viu refém do motim dos caminhoneiros e das transportadoras, não consegui tirar da mente o título da obra. Confesso que dei uma desanimada com o futuro que nos espera.

Veja, não vou nem entrar numa análise mais profunda do movimento e das repercussões políticas e econômicas associadas a ele. O brilhante editorial do “Estadão” do dia 25 de maio resume com precisão a chantagem aplicada.

Já ficou claro que a tal greve se trata na verdade de um locaute, quando empresas paralisam suas atividades para buscar vantagens comerciais. Junte a isso um governo fraco, desprovido de apoio popular, e temos o país sequestrado.

A tristeza, porém, vem da reação das pessoas. Tanto diante da greve, como do ciclo recente de aumento dos combustíveis.

Explico.

O Brasil chegou muito próximo do ocaso econômico, resultante de anos de uma política econômica pautada pelo populismo de esquerda (“O Fim do Brasil”). Afundamos na maior recessão da nossa história, que empurrou milhões de brasileiros e brasileiras para o desemprego e o desespero subjacente. Fomos cobaias e experimentamos os efeitos maléficos do intervencionismo econômico. Sentimos na pele, enfim, que medidas paliativas custam e a conta sempre vem.

Diante disso, havia uma percepção de que o país amadurecia nos seus conceitos econômicos. Privatização, por exemplo, deixou de ser palavrão e passou a ser abertamente defendida por candidatos. O teto dos gastos foi aprovado e apoiado por muitos. A própria reforma da Previdência, polêmica até nas democracias mais avançadas, foi debatida e apoiada por parcela significativa dos brasileiros.

Tudo parecia avançar, mas daí veio o teste. A prova de que os brasileiros esclarecidos, aqueles que supostamente apoiam as reformas necessárias para modernizar o país, estariam realmente prontos para ter uma relação adulta e independente diante da realidade econômica.

E falhamos.

A política de preços adotada pela Petrobras, comandada pelo excepcional Pedro Parente (a empresa resistiu à sequência trágica de Gabrielli, Graça Foster e Bendine), é a única que pode ser usada; ou seja, os preços internos se ajustam com a variação do preço do petróleo, para cima e para baixo. Simples assim.

Ou seja, o preço de uma commodity se ajusta com o mercado. Se o petróleo subir, aqueles que o utilizam pagam por isso. Se cair, se beneficiam.

Então, os mesmos concidadãos que se indignaram com as atrocidades dos governos petistas (“Estamos virando uma Venezuela!”, bradavam) não toleram abastecer seus carros com uma gasolina a 4 reais o litro e se entusiasmam com a prostração do governo diante da chantagem. Apoiam a greve dos caminhoneiros, travestindo sua aprovação com uma indignação contra a gestão Temer. No fundo, porém, pedem arrego à Viúva, aplaudindo a redução dos preços. Dane-se o precedente fiscal perigoso, dane-se a economia de mercado. O que vale é preço controlado para poder encher o tanque com tranquilidade.

Agravando minha tristeza, as filas de carros me trouxeram um flashback dos anos 80, quando corríamos para os postos assim que o “Jornal Nacional” anunciava aquele “aumentinho básico” de 30 por cento.

Parece que não evoluímos, não aprendemos.

Mas, apesar de tudo, vida que segue. Nesta semana, os assinantes das séries Palavra do Estrategista e Carteira Empiricus receberam uma publicação especial sobre a Petrobras. Excelente.