Übermensch: Chamem o Super-Homem

Cem ganhos consecutivos de 1 real vão lhe causar muito mais satisfação pessoal do que um único ganho de 100 reais - embora, financeiramente, claro, seja rigorosamente a mesma coisa.

Übermensch: Chamem o Super-Homem

“As pessoas fazem previsões montando boas histórias em suas cabeças. As pessoas conseguem prever muito pouco e já montam explicações para tudo. As pessoas vivem sob muita incerteza, gostando disso ou não. As pessoas acham que podem narrar o futuro se elas trabalharem suficientemente duro. As pessoas aceitam qualquer explicação, contanto que ela se encaixe no história crível.”

Isso é quase um poema de Amos Tversky. Infelizmente, não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente. Por sorte – e pelo pequeno crescimento que a Empiricus conseguiu -, porém, pude encontrar seu grande parceiro de trabalho, Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia. Nós o trouxemos para falar a nossos clientes sobre os vieses que os investidores tradicionalmente incorrem ao tomar suas decisões. Cientes dos erros típicos, eles poderiam corrigir a rota e melhorar suas aplicações.

Eu particularmente amei aquele dia. Além de uma palestra impecável, pudemos conversar longamente antes do evento. Curioso notar a humildade de um prêmio Nobel e a surpresa dele em ver como pessoas conhecem com certa profundidade seu trabalho.

Mas o mais legal pra mim foi quando o Rodolfo lhe perguntou sobre a famosa parábola do peru de Natal, de Bertrand Russel e apropriada por Nassim Taleb, repetida aqui umas setecentas mil vezes. Só para não perder o costume (a gente insiste para ver se a ideia passa por osmose): um peru é alimentado sem nenhuma volatilidade por 360 dias do ano. A confiança naquela família, bem como seu peso e qualquer outro indicador de saúde do bicho, vai crescendo em linha reta. Até que, subitamente, quando parecíamos estar numa relação de amor recíproco, no ápice do carinho e amor, o peru vira o próprio jantar e é servido suculento para a família.

Taleb sempre recorre à narrativa para explicar como confundimos ausência de volatilidade com falta de riscos. Os prejuízos maiores (morte súbita) vêm justamente de eventos inesperados. “How not to be a turkey?”(como não ser o peru de natal?) é um dos motes de vida de Nassim.

Rodolfo perguntou a Kahneman o que ele achava do peru. A resposta:

“Olha, se você for ver, este peru teve uma vida muito boa. Eu adoraria ter vivido como ele.”

Pode soar contraintuitivo, mas encontra respaldo científico. Do que Kahneman estava falando exatamente? O peru não acaba morto no final?

Bom, morrer todos nós vamos. O fim da história já é conhecido, e é muito diferente do que o Fukuyama escreveu. Importa mesmo a travessia.

Kahneman fazia uma referência tácita à tendência do cérebro humano a fazer, com peso desproporcional, pequenas doses de satisfação, sem volatilidade e com previsibilidade. Sentimos o gosto doce daquelas bolinhas da homeopatia e ficamos viciados na ração diária. Cem ganhos consecutivos de 1 real vão lhe causar muito mais satisfação pessoal do que um único ganho de 100 reais – embora, financeiramente, claro, seja rigorosamente a mesma coisa.

Ao mesmo tempo, fugimos de prejuízos, mesmo que pequenos e que impliquem um grande lucro no futuro, como o diabo foge da cruz, naquilo que ficou documentado por aversão a perda. Um prejuízo nos causa muito mais dor do que um lucro da mesma magnitude nos gera felicidade. Então, vamos tentar de qualquer jeito evitar pequenas perdas, mesmo que elas sejam apenas um meio para um futuro lucro formidável e maior do que a soma aritmética dos prejuízos anteriores – claramente, não se trata de uma postura financeiramente inteligente, mas custa muito psicológica e emocionalmente incorrer em vários resultados negativos no meio do processo.

Quando eu estive com Nassim Taleb fazendo seu curso em Nova York, contei o acontecido. Ele sempre se disse amigo de Kahneman e eu, ingenuamente, achei que gostaria da provocação. Esqueci da sua tradicional humildade e paciência. Recebi de volta, asperamente:

“He didn’t get the point.” (Ele não entendeu o ponto) – seguido de um avermelhado nas bochechas e uma respiração ofegante que me obrigaram a agradecer gentilmente e voltar para o meu cantinho calado.

Quem realmente não entendeu o ponto? Qual dos dois está certo?

Sinceramente, acho que os dois.

Taleb defende a famosa estratégia de “buy the tails” (compre as caudas). Pragmaticamente, compre calls e puts bem fora do dinheiro. Como ninguém acredita nos eventos improváveis e eles são menos raros do que nossa cabecinha linear gosta de supor, apostar neles é uma estratégia barata. Obviamente, porém, eventos considerados raros não acontecem todo dia. Então, apostar neles vai demorar para dar resultado. Você perde, perde, perde e…. perde. Até que um dia ganha uma fortuna, que vai muito mais do que compensar os prejuízos acumulados. O próprio Taleb ficou rico assim. Seu dia do “f@#*% you money” foi a fatídica segunda-feira negra, quando ele estava comprado em puts fora do dinheiro de S&P 500 e viu seu patrimônio multiplicar por várias vezes.

Financeiramente, Taleb está perfeito. Você pode ficar rico assim. O problema deste negócio – e aqui a crítica de Kahneman se torna totalmente pertinente – é que adotar essa estratégia de “perder, perder, perder, para um dia, sabe-se lá quando, ganhar”, embora vá deixá-lo rico ao final do processo, pode lhe custar o fígado, os cabelos (bem-vindo!) e talvez algo mais. Sem pitar, ninguém segura este rojão, diria o Chico Buarque. O custo psicológico disso é gigantesco.

A estratégia financeira racional e vencedora desafia a própria natureza humana. Esse é o problema da parada toda.

Para promover a harmonia entre Taleb e Kahneman, só recorrendo a Nietzsche em Assim falou Zaratustra: a meta não deve ser a humanidade, mas sim o Super Homem. Neste Brasil de meu Deus, só mesmo apelando ao Übermensch.

Eu, que não sou besta de tirar onda de herói, vacinado e caubói, preciso me contentar com a morosidade da manhã desta quinta-feira. Mercados todos quase no zero a zero enquanto aguardam sinalizações do Banco Central Europeu e safra de resultados corporativos.

Mario Draghi fala às 9h30 e mercado teme eventual sinalização de fim dos estímulos monetários. Moedas mostram bastante sensibilidade ao fato. Banco do Japão, na madrugada, não trouxe novidades e agora atenções recaem sobre Super Mario.

Além da política monetária europeia, temos nos EUA pedidos de auxílio desemprego, leading indicators e atividade na região da Filadelfia. Na esfera corporativa, saem resultados de Microsoft, Visa e Ebay.

Por aqui, mercado de juros futuros se anima e volta a apresentar queda nas taxas após IPCA-15 abaixo do esperado – mais sobre isso abaixo, na nota da Marília, focando os desdobramentos nos investimentos em renda fixa.

Temporada de resultados caminha mais um pouco com números da Localiza à noite. Carrefour faz estreia na Bolsa e Weg realiza call de resultados.

Ibovespa Futuro está perto do zero a zero, dólar também.

Encerro com um breve agradecimento aos leitores da Empiricus. Neste Dia do Amigo, preciso dizer muito obrigado a todos – inclusive pela ajuda em ter me levado até o Kahneman e ao Taleb. Como pequena retribuição, temos um presente somente para você.

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