Vai haver rali de fim de ano?

Sim. Pode haver rali de fim de ano.

Vai haver rali de fim de ano?

Se o jogo no salão de festas fosse há algumas semanas, era capaz de o Cássio bater o tiro de meta no domingo e encobrir o Renan Ribeiro. Quando a fase é boa, sei lá, parece haver uma sincronicidade que faz as coisas darem certo. Já quando a nhaca se instala, nossa, não tem Cristo que faça a bola entrar.

O mercado é meio assim às vezes. Estamos diante de um desses momentos. Não importam muito as notícias. A maneira com que se reage a elas oferece muito mais informação. A fase atual é de certa complacência com riscos e uma força compradora que entra diante das mais incipientes sugestões de fraqueza do preço dos ativos. Bolsa tenta cair e não consegue.

Até quando vai durar, impossível saber. O problema é ainda maior porque o mercado financeiro é uma espécie de mulher de fases. As alterações de humor se dão de forma súbita, repentina e intensa. Quando muda o ciclo, nunca saberemos. Confiar na tabelinha já rendeu muita surpresas por ai – e, olha, dou meu testemunho pessoal. Como vai ser à frente, não sei. Só sei que foi e tem sido assim.

Na próxima semana, terminamos o penúltimo trimestre de 2017. Então, começarão as perguntas: “pode ter rali de fim de ano, mesmo depois da alta de quase 30% do Ibovespa?”

“Be faster, smarter or cheat (seja mais rápido, mais esperto ou trapaceie)”, sintetiza brilhantemente a personagem do ainda mais brilhante Jeremy Irons em Margin Call. Como não trapaceio e acho bem improvável que consiga ser mais esperto do que a média do mercado (eu admito que você seja uma pessoa extremamente inteligente; acredito nisso, mas não subestime o quanto há de gente inteligente por ai também), antecipo aqui a minha resposta:

Sim. Pode haver rali de fim de ano.

“Ah, então você não está preocupado com uma realização de lucros? Não pode haver uma grande correção?”

Pode também. Aliás, preocupação é o meu nome do meio, que eu tento disfarçar desde aquele escândalo com as pedras preciosas (eu não tenho nada a ver com o sujeito, fique claro). Tudo pode; só com mulher de bigode que nem o capeta pode.

“Mas vai haver rali ou correção até o final do ano?”

Dai eu já não sei. Vou contar um segredo, só entre nós: ninguém sabe. Há aqueles que fingem que sabem, os que acham que sabem e os que falam a verdade.

Nos próximos dias, veremos uns 100 analistas opinando sobre a questão. Magicamente, 50 deles estarão certos. As outras 50 bolas de cristal vieram com defeito de fabricação.

Todos conhecem o Cisne Negro – agora virou meio cool falar disso. Um percentual relevante se refere à Antifragilidade, mas poucos efetivamente se debruçaram sobre Iludidos pelo Acaso, que é uma preciosidade.

Temos elementos importantes sugerindo a continuidade da fase boa. O cenário externo nos oferece uma combinação raríssima de bom ritmo de crescimento, preços de commodities mais estáveis e em patamares razoavelmente elevados, baixa inflação e grande liquidez internacional, em que pesem sinalizações de algum enxugamento na margem.

Por aqui, a atividade mostra sinais sucessivos de que a recuperação é mais disseminada e significativa, a inflação segue surpreendendo para baixo e os juros podem vir abaixo de 7% ao ano e por lá ficarem por mais tempo do que se previa.

Com a esquerda muito enfraquecida, Lula cada vez mais comprometido e pouco abalo da nova denúncia contra o presidente Michel Temer, podemos voltar a tocar a pauta de reformas, notadamente a Previdência.

Se isso tudo vier, então não haverá apenas um rali de final de ano. Mais do que Velozes e Furiosos, assistiremos a um lançamento de um foguete em direção aos 85 mil pontos. Aliás, há hoje uma boa notícia da Bloomberg em que grandes gestores globais, entre eles Pimco e BlackRock, projetam continuidade do momento positivo de mercados emergentes. Estaríamos somente no começo.

O problema é que há sempre o risco de isso se tornar um Apollo 13. Aqui, estamos diante de um “early cycle”, reversão da tendência negativa e início de uma trajetória positiva/construtiva. Nas economias centrais, estamos no “late cycle”, com as bolsas renovando máximas há meses e em alta há muitos anos. Talvez a tecnologia tenha, associada às mudanças demográficas, realmente mudado as coisas estruturalmente e possamos conviver por muito tempo com crescimento, inflação e muita liquidez. Não descarto a hipótese. Mas é apenas uma hipótese…

Com muita liquidez, por muito tempo e sob baixa volatilidade, podemos ter formado bolhas aqui e ali. Eu realmente me preocupo com uma eventual explosão lá fora. Pode vir por meio dos desequilíbrios estruturais na China. Talvez venha de algum evento geopolítico – lá vai o norte-coreano gordinho com cara de tarado nos ameaçar com a Bomba H. Ou possivelmente o enxugamento do balanço do Fed, combinado ao incremento dos juros nos EUA, na Inglaterra e no Canadá, e ao tapering do BCE, possa complicar o cenário do crédito privado, criando um efeito em cadeia desagradável, até que peguemos algum banco pelo meio do caminho e….boom! Nova crise sistêmica.

Por aqui, por mais que haja sinais de maior abrangência da recuperação, precisamos ponderar que o resultado recente da atividade veio muito puxado pelo consumo, potencialmente empurrado pelos saques do FGTS, que obviamente não é um efeito recorrente. Também temos por ai os Funaro, Geddel, Palocci e vai saber mais quem. A trajetória fiscal ainda é caótica e exige urgentemente reformas profundas, sendo que não há garantia de que a votação da Previdência é mesmo iminente. O imponderável das delações já nos mostrou em 18 de maio como surpresas acontecem. A inflação vem mesmo muito abaixo das expectativas, mas seria muito por conta do choque positivo dos alimentos? Como será seu comportamento em 2018? Sinceramente, de novo, não dá pra saber. E temos, evidentemente, eleições em 2018 – embora eu pessoalmente não tenha grande preocupação com o fato, pois o pêndulo me parece muito inclinado a um candidato reformista (embora as pesquisas insistam em dizer o contrário), é sempre um fator adicional de preocupação na República das Bananas e do Vale-tudo eleitoral. em tempo: onde estaria o Pessimildo a esta altura?

Acima de tudo isso, claro, estão os riscos que sequer conseguimos relacionar. Normalmente, são os piores, para os quais estamos completamente despreparados. Os tais unknown unkowns de Donald Rumsfeld. Esses são os verdadeiros cisnes negros de Nassim Taleb.

Breve digressão: A construção “tal fator risco pode ser o cisne negro de 2018” é uma contradição em termos. Um cisne negro, por definição, é um evento imprevisível. Se você pode relacioná-lo entre seus fatores de risco potencial, ele passa a ser um cisne cinza.

Tudo considerado, reitero a visão de que as condições estão postas para a continuidade por anos de um grande bull market em mercados emergentes, com o Brasil sendo um dos maiores beneficiados da festa. Se isso vai se dar até o final do ano e não haverá surpresas no meio do caminho, não dá pra saber. Grandes correções fazem parte de longos ciclos de multiplicação do capital. Tropeços fazem parte da vida, seja no mercado financeiro, na trajetória profissional ou no esporte, mesmo nas fases boas – você perde para o Vitória em casa mas ainda lidera por 10 pontos de vantagem.

É por isso que me mantenho comprado, com ou sem rali de final de ano. Tentar antecipar momentos de entrada e saída do mercado implica o risco de perder a festa. Você vende suas posições esperando uma correção, o negócio sobe mais 20% na sua cabeça e você não pega nunca mais.

Embora continue bastante otimista com os ativos de risco brasileiros para os próximos anos, sempre me lembro do tio Miguel, a quem agradeço fortemente por ter me ensinado logo cedo como Velho Barreiro é melhor do que 51. Sujeito cético e desconfiado, ele insistia: “em rio que tem piranha, jacaré nada de costas.” Ninguém precisa ser gênio para perceber o que há de piranha por aí. Os fatores de risco estão à nossa frente e, por isso, estamos sempre nos beliscando quando as próprias convicções. A diversificação, o balanceamento do portfólio e a compra recorrente e sucessiva de seguros sempre que houver possibilidade nos acompanham mesmo no final de semana. Este é o caminho e justamente para atender esta demanda nós montamos o Portfólio Empiricus. Vai que acontece um daqueles cisnes negros em pleno domingo, às 16h?

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Sexta-feira traz agenda bastante fraca. Internamente, temos apenas confiança do consumidor, enquanto lá fora destaque fica para discursos de diretores do Fed após uma reunião mais hawk (um pouco mais dura) do Banco Central dos EUA e PMI Markit.

Recrudescimento da tensão geopolítica eleva um pouco aversão a risco. Coreia do Norte afirmou que ação contra EUA pode envolver teste com bomba de hidrogênio no Pacífico. Metais e minério de ferro reagiram mal à notícia, ensejando dia ruim para ações de mineradoras, já depois de uma quinta-feira amarga.

Fora do mercado de commodities, as reações são negativas mas bem mais comedidas. Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,3%, juros futuros têm ligeira alta após caírem bem ontem e dólar está próximo à estabilidade contra o real.

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