A cama de Procusto do Suitability

Talvez você não lembre, mas certamente já se deitou em uma cama de Procusto.
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Talvez você não lembre, mas certamente já se deitou em uma cama de Procusto.

Sabe como é, bebeu demais na despedida de solteiro, pegou um drink batizado na balada tailandesa e acordou tatuado… quem nunca?

Mas não precisa ir até a Tailândia. A cama de Procusto está logo aqui, na Faria Lima.

Bancos e corretoras fazem o famoso suitability no primeiro contato com um cliente.

Nesse processo, você certamente já se encaixou alguma vez em uma gaveta de conservador, moderado ou arrojado.

E já respondeu à clássica pergunta sobre o que fazer se seus investimentos derreterem durante um pânico do mercado (vender tudo, segurar ou comprar mais?).

Em tese, essas informações pasteurizadas poderiam ser usadas para preparar sugestões sob encomenda para o SEU perfil.

Mas, sem surpresas, o perfil atendido não é o seu.

O perfil realmente atendido é o do banco ou da corretora.

Como eu sei disso?

Temos hoje quase 360 mil pessoas assinando as diferentes séries da Empiricus. Isso nos proporciona um farto espaço amostral de mensagens recebidas todo santo dia; em especial, dúvidas sobre investimentos.

Quando uma dada instituição financeira decide lançar ou empurrar um produto, nós tomamos ciência instantaneamente através dos nossos leitores, que repassam a oferta, questionando se devem entrar ou não.

Assim notamos a predominância do ataque em massa. Todo mundo recebendo mais uma proposta maravilhosa de CRI, independente das particularidades de cada investidor.

Será que, de repente, milhares de pessoas tão intrínsecas carecem desesperadamente de um mesmo CRI?

Outro agravante decorre da tradução direta dos algoritmos de varejo do tipo "frequentemente comprados juntos" ou "clientes que visualizaram este item também visualizaram..." para o mundo dos investimentos.

Ora, boa parte da maximização de retornos e da minimização de riscos ocorre à medida que combinamos diferentes classes de ativos.

Então, se minha carteira está empanturrada de papéis de renda fixa, a pior coisa que o algoritmo vai me fazer é recomendar outros papéis de renda fixa, anulando meu poder de diversificação.

Mas não é como os bancos/corretoras pensam. Eles partem da premissa "hahaha, olha lá o tiozinho viciado em LCI, vamos meter fácil um CRI nele!".

E assim o sujeito vai empilhando um monte de aplicações que rendem pequenos prêmios sobre o CDI, sem se dar conta de que a Selic foi pra 4,5%.

Ironicamente, quanto mais a Selic cai, mais aparece demanda para esse pequeno prêmio sobre o CDI.