A casa dos investidores ditosos

Enquanto habitava uma caverna nas montanhas do Nepal, um ermitão ouviu notícias de que o Dalai Lama em breve passaria por aquela zona remota. Segundo […]

A casa dos investidores ditosos

Enquanto habitava uma caverna nas montanhas do Nepal, um ermitão ouviu notícias de que o Dalai Lama em breve passaria por aquela zona remota.

Segundo a tradição do budismo tibetano, o Dalai Lama é a figura espiritual máxima, a mais pura expressão de sabedoria. Qualquer chance de estar próximo dele, de conhecê-lo pessoalmente, é irresistível aqueles que o reverenciam.

Esse ermitão tornara-se mestre em muitas das meditações clássicas desenvolvidas para aquietar a mente e acalmar lampejos de ansiedade.

Moradores da região tinham o costume de levar comida para ele, de forma a nutrir um mínimo metabolismo basal.

No entanto, à exceção dessas breves interações com a população local, o ermitão preservou-se em solidão por quatro anos consecutivos, imerso em profundos estados de meditação.

A rotina viria a ser quebrada tão somente por este motivo especial: a tentativa, bem-sucedida, de agendar um encontro pessoal com o Dalai Lama.

Na hora e local combinados, o ermitão pediu logo um conselho: após quatro anos de completo confinamento, como aprofundar ainda mais sua densidade meditativa dali em diante?

 

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Prontamente, o Dalai Lama respondeu: “ora, meu caro, experimente ter uma vida de verdade”.

Muitas pessoas entendem que a supressão do ego e dos pensamentos é o propósito último da meditação.

Para o Dalai Lama, essa é uma interpretação gravemente equivocada.

O ego representa, ao mesmo tempo, nosso maior obstáculo e nossa principal esperança.

Esta não é uma newsletter sobre religião ou autoajuda.

No âmbito financeiro que nos interessa, o ego identifica-se com a tomada de risco.

A meditação permanece incompleta enquanto ignora o ego, assim como falta algo importante a um portfólio de ativos que pretensamente abdica do risco.

Ou, sendo mais direto, não existe paz sem risco.

Suponha o caso de uma carteira 100% alocada em títulos pós-fixados, abrindo mão, superficialmente, de qualquer caráter especulativo (toda não aposta é também uma aposta).

Ao longo de 20 anos, o detentor dessa carteira medita profundamente, mantendo-se em um quase estado de hibernação.

A crise asiática está longe demais. A bolha das pontocom não lhe aflige. O derretimento do subprime passa despercebido. A nova matriz econômica se perde dentre tantas outras tristes notas de rodapé.

No início, juros elevadíssimos permitem que o investidor ermitão rentabilize seu portfólio mesmo optando pela total passividade. Com a passagem do tempo, entretanto, a Selic vai caindo, caindo, ela mesma entrando em estado de meditação.

Ao término dos 20 anos, o investidor ermitão acorda e decide consultar o Dalai Lama: quais metas financeiras deverá perseguir dali em diante?

Dalai Lama responde: “ora, meu caro, com este saldo que você juntou, restam duas alternativas: ou você gasta tudo e experimenta uma vida de verdade pelos próximos 3 anos ou continua meditando na caverna por mais 20 anos’’.

Se você suprime todo e qualquer tipo de risco explícito agora, você carrega um enorme risco implícito para sua aposentadoria.

Se você toma todo e qualquer tipo de risco explícito agora, você não chega vivo à aposentadoria.

O risco representa, ao mesmo tempo, nosso maior obstáculo e nossa principal esperança.

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