Chegou a hora de eu encher a sua pança

“Hoje é Natal, dia de festança. Com chocolate Pan, vou encher a minha pança”. Éramos pequenos e famintos por chocolate. Hoje, somos apenas famintos. Eu […]

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Chegou a hora de eu encher a sua pança

“Hoje é Natal,
dia de festança.
Com chocolate Pan,
vou encher a minha pança”.

Éramos pequenos e famintos por chocolate. Hoje, somos apenas famintos.

Eu e meu irmão passávamos o dia inteiro de Natal cantando esse jingle do chocolate Pan, numa época em que os publicitários gastavam tempo pensando em jingles capazes de grudar na cabeça.

Não sei se era mensurável como marketing de performance. Não me lembro de efetivamente comermos chocolate Pan no Natal; comíamos outros chocolates. Mas gostávamos muito do jingle, ao ponto de a mãe nos obrigar a parar de cantar. Era verdade que ouvido nenhum aguentava mais.

A publicidade tem dessas coisas, seus efeitos nem sempre são diretos. O fato de os efeitos não serem diretos não implica que inexistem efeitos. Ausência de evidência não é evidência de ausência.

Daí me vem à mente uma pergunta clássica no mercado: por que a B3 não investe em propaganda para atrair pessoa física?

Algumas respostas típicas são:

+ Acredite, eles já tentaram, mas nunca funcionou.

+ A Bolsa é praticamente uma autarquia, tem que ser sacra e  imparcial, não pode sair por aí distribuindo panfleto.

+ Pessoa física não importa tanto, eles querem mesmo é focar no institucional e no estrangeiro.

+ É mais barato simplesmente esperar pelo próximo bull market.

Não afasto alguma dose de razão nas respostas acima, mas gostaria de adicionar uma quinta hipótese.

Talvez a B3 não precise investir tanto assim em marketing de varejo, pois já tem um monte de outros players fazendo isso por ela.

Os mais nerds diriam que a Bolsa “captura externalidades”.

Quando a Empiricus invade o YouTube, convidando todos os internautas a tentar dobrar de renda, inicia-se ali um processo em cadeia.

Aquela pessoa alijada do mercado, que não sabia investir, e vivia reclamando que o salário não basta, começa a enxergar uma terceira linha em seu futuro financeiro.

É a mesma pessoa que vai abrir conta na XP ou no BTG Digital.

É a mesma pessoa que vai começar a operar na B3, gerando renda nova para ela mesma, funding para o mercado, corretagem, emolumentos, impostos… enfim, fazendo a roda girar num potencial ganha-ganha.

Financistas e reguladores do século dezenove adoram falar mal da gente, que somos criativos demais, libidinosos demais, e não nos adequamos às regras de alta etiqueta da Faria Lima.

Mas todo mundo está enchendo a pança enquanto canta este jingle.