Elogio do amor pelos dividendos

Empresas que distribuem religiosamente seus proventos emitem ao mercado um sinal de confiança.

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Elogio do amor pelos dividendos

Começo a newsletter de hoje com a mensagem que recebi do leitor Carlos B, que assina nossa série de Vacas Leiteiras.

Carlos resume brilhantemente o valor moral que está por trás dos dividendos que recebemos rotineiramente: “agora tenho mais confiança”.

Empresas que distribuem religiosamente seus proventos emitem ao mercado um sinal de CONFIANÇA.

Já que introduzimos o tema, vamos falar mais de valores morais.

Não é fugir do escopo: o mesmo Adam Smith que escreveu A Riqueza das Nações publicou também A Teoria dos Sentimentos Morais.

Pois bem, falaremos então de amor – um sentimento moral.

Toda história de amor começa com um encontro eminentemente aleatório.

O amor é, sob esse aspecto, um jogo ditado pelo acaso.

Aí entra um problema grave.

Os seres humanos que se amam (e às vezes se odeiam) não conseguem aceitar facilmente esses jogos ditados pelo acaso, a despeito de eles serem absolutamente comuns na natureza.

Pois admitir o acaso, para a humanidade, é abdicar de poder próprio.

Como posso ter conhecido o amor da minha vida graças a um simples capricho da aleatoriedade?

Então, de alguma forma, a construção do amor precisa evoluir de uma origem puramente randômica para um processo que possa ser tido como perene.

Como eu disse, esse é um problema grave, que atropela as capacidades científicas.

Afinal, como uma causa 100% aleatória pode se transformar num efeito determinístico?

Como algo imprevisível pode se tornar “nascemos um para o outro?”.

Quando uma pessoa diz “eu te amo” para outra pessoa (com sinceridade, não apenas pra transar), ela está tentando fazer essa conversão entre o que é estocástico e o que é determinístico.

Uma vez sedimentada a conversão, toda a história de amor passa a soar perfeitamente encaixada, previsível, desde sua primeira origem.

Inclusive a própria aleatoriedade – estávamos na mesma praça, na mesma hora – passa a depor contra si mesma, em prol de uma coincidência fortuita, planejada pelos deuses que nos colocaram na praça.

E aquilo que se iniciou como um jogo de chance agora não é outra coisa senão o destino.

Toda declaração de amor marca a transição de um estado de aleatoriedade para outro, predestinado.

E o mesmo pode ser dito de uma declaração de dividendos.

João diz a Maria: “eu te amo”.

Petrobras diz a Carlos: “eu te dividendo”.

Talvez, lá atrás, você tenha comprado PETR4 por pura chance.

Porém, a partir do momento em que Petrobras deposita dividendos em sua conta – assim como o fez em 25 de maio – vocês dois embarcam em um relacionamento que tem tudo para persistir, com claras vantagens para ambos os lados.