A estratégia de Darwin para Viver de Renda

Enquanto tentava entender – ou, talvez, aceitar – a sobrevivência dos mais aptos, deparei-me com outro documento muito mais interessante. Em 1838, Charles Darwin estava […]

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A estratégia de Darwin para Viver de Renda

Enquanto tentava entender – ou, talvez, aceitar – a sobrevivência dos mais aptos, deparei-me com outro documento muito mais interessante.

Em 1838, Charles Darwin estava enfrentando um grande dilema pessoal: casar-se com Emma Wedgewood ou continuar solteiro?

Para dirimir a questão, ele decidiu anotar em um papel os prós e contras, aplicando assim uma análise de custo-benefício.

“Marry or not marry? – this is the question”.

Entre os contras do casamento, muito mais numerosos que os prós, Darwin destacou:
– Menos liberdade para fazer as coisas que mais gosto;
– Obrigação de visitar parentes;
– Não poderei mais ler em paz durante os fins de tarde.

Ainda assim, pouco depois de concluir seu (des)balanço entre ativos e passivos, Darwin fez uma visita surpresa a Emma, e ambos acabariam se casando um ano depois.

Tiveram dez filhos juntos.

Por mais que os argumentos racionais atraíssem o cientista, ele bem sabia que poucas decisões na vida são efetivamente tomadas com base em análises de custo-benefício.
A maioria de nossas escolhas é feita, pura e simplesmente, por identidade.

Queremos as coisas que combinam com nós mesmos – que compartilham de uma mesma alma, também nossa.

Lembrei-me disso pois, na última aula presencial do PRP®, eu estava batendo um papo com a Deirdre McCloskey – professora de Chicago cotada para o Nobel de Economia.

Até 1993, Deirdre se chamava Donald McCloskey.

As pessoas geralmente acham que eu troquei de sexo porque gosto de usar roupas coloridas. Minha “decisão” (não foi bem uma decisão…) nunca foi utilitarista, nem perto disso. Minha troca de sexo foi motivada por identidade, e não por uma planilha de excel.

Não estou sugerindo aqui que você mude de sexo, até porque dificilmente teria ressonância estatística. Conforme a própria Deirdre me contou, em média, apenas três em cada 10 mil pessoas desejam realmente trocar de sexo.

Mas estou sugerindo que você comece a escolher investimentos também por critérios de identidade, em vez de usar argumentos de custo-benefício 100% das vezes.

Você gosta da ideia de receber uma grana extra, pingando a cada mês ou trimestre? Então invista em estratégias para Viver com Renda. Simples assim.

Aquela ação de dividendos piscou para você?

Aquele fundo imobiliário é a sua cara?

Eu sei, talvez você tenha vergonha de dizer que comprou uma ação apenas porque ela combina com você.

Vai chegar aquele seu colega do MBA para perguntar: mas por quê? Por quê? Por quê? Qual é o múltiplo? Qual é a barreira à entrada? Quanto de dividend yield? Quero todos os seus motivos perfeitamente racionais para ter feito esse investimento!

Diga-me: quando um amigo lhe diz que gosta de campari sem gelo, você fica azucrinando a vida do cara? Mas por quê? Por quê? Por quê?

Questiona até ele responder que há, provavelmente, uma boa interação entre as papilas gustativas dele e o amargor do bitter à temperatura ambiente?

Nada disso. O cara toma o campari que ele ama, você toma sua amarula geladinha, e está todo mundo feliz.

Todos felizes, e nem peço tanto assim.
Quero apenas que a cortesia do tratamento interpessoal sem porquês seja estendida ao stock picking.

Deixemos de ser hipócritas, fingindo que todas as escolhas financeiras dependem de razões objetivas.

Não precisamos de liberdade para fazer as coisas de que mais gostamos. Precisamos apenas de vontade.