Eu não invisto tudo, mas lucro tudo

Sempre que tentamos fazer uma coisa com N dimensões caber em um universo com N-1 dimensões, algo se perde no meio do caminho.

Compartilhe:
Eu não invisto tudo, mas lucro tudo

Picasso não estava mais em início de carreira, mas também não era ainda uma unanimidade. Habitava o longo intervalo, às vezes infinito, entre esses dois mundos.

Um crítico de arte veio então provocá-lo. É o que eles fazem.

Não sei exatamente como foi esse diálogo, mas não importa tanto, como ficará claro a seguir.

Tento acreditar que foi mais ou menos assim:

Crítico: Meu caro, se você deseja ser reconhecido um dia como um verdadeiro artista de ponta – e eu tenho certeza que deseja isso -, precisa urgentemente voltar a retratar as coisas da forma que elas realmente são.

Picasso: Do que você está falando? Não tenho certeza alguma sobre como as coisas REALMENTE são.

Crítico: Não seja tolo. Veja, por exemplo, esta foto da minha linda esposa; é assim que ela é, inquestionavelmente; na foto, não há margem para interpretações.

Picasso: Com todo o respeito, sua esposa me parece retangular, plana, excessivamente bidimensional para ter se casado com alguém tão tridimensional quanto você.

Gosto de me lembrar dessa conversa, se é que ela REALMENTE existiu.

Lembro-me dela quando ouço algum financista coxinha argumentando que ações são empresas e empresas são, portanto, ações.

Ou que títulos soberanos são países, e países são títulos soberanos.

Ou que fundos imobiliários são imóveis, e imóveis são fundos imobiliários.

Empresas, países e imóveis são todos tridimensionais.

Ações, títulos de dívida e FIIs, por sua vez, têm no máximo duas dimensões: a do valor intrínseco e a do valor extrínseco. Ou se está dentro deles, ou se está fora.

Cabe um pouco de álgebra linear aqui, se é que eu me recordo das aulas.

Sempre que tentamos fazer uma coisa com N dimensões caber em um universo com N-1 dimensões, algo se perde no meio do caminho.

Desculpe, eu não sei onde foi parar esse pedaço que se perde, talvez seja possível resgatá-lo de alguma forma.

Desconfio que é esse resgate que os investidores chamam tecnicamente de “dividendos” ou “ganho de capital”.

A cada vez que investimos, é como se reclamássemos: “quero de volta aquilo que perdi prontamente ao comprar uma ação achando que estava comprando uma empresa”.

Aquilo é o lucro.

Quando você lucra numa aplicação, você não está ganhando nada a mais. Está apenas recompondo dimensões, mesmo que não tenha certeza alguma sobre de onde aquele lucro REALMENTE veio.

Quando você perde dinheiro numa aplicação, você casa com uma foto, faz amor com uma foto, tem filhos com uma foto que cabe no seu bolso, rasgado.

Todos começamos a investir perdendo alguma coisa, e alguns de nós têm a sorte de reencontrá-la.