Método POP para calcular o preço-alvo de uma ação

Disclosure necessário: esta é uma newsletter ao gosto dos leitores mais técnicos, embora perfeitamente digerida também pelos acionistas de primeira viagem. Ela fala sobre o […]

Método POP para calcular o preço-alvo de uma ação

Disclosure necessário: esta é uma newsletter ao gosto dos leitores mais técnicos, embora perfeitamente digerida também pelos acionistas de primeira viagem.

Ela fala sobre o Fluxo de Caixa Descontado, que é o método mais popular – diariamente usado pelos financistas da Faria Lima – para calcular o “preço-alvo” de uma ação.

Na frase “a ação que hoje negocia a R$ X na verdade vale R$ Y“, X é o preço de mercado e Y é o preço-alvo. Em tese, se X = 50 e Y = 100, você poderia obter um retorno de +100% com essa ação, dobrando seu capital investido.

Por si só, essa frase em destaque pressupõe uma certa (ou errada) arrogância vinda de quem a pronuncia, tomando por premissa que o preço de mercado não é o preço “de verdade”.

Quem usa a frase está insinuando, implicitamente: eu sei algo que o mercado (uma multidão de compradores e vendedores) não sabe.

Ok, vamos lá então.

A forma tradicional de calcular o preço-alvo de uma ação exige estimar os fluxos de caixa de uma empresa durante um período futuro significativo; digamos, pelos próximos dez anos.

Em seguida, o financista escolhe uma taxa de desconto que incorpora os riscos e custos de oportunidade desses fluxos de caixa futuros.

Como não bastam dez anos (pois a empresa tem vida hipoteticamente eterna), adiciona-se ao cálculo um valor terminal amparado na taxa de desconto e em uma taxa de crescimento perpétuo.

A rigor, o fluxo de caixa projetado para o décimo primeiro ano é multiplicado por um fator que equivale a 1 dividido pela diferença entre o custo de capital e a taxa de crescimento perpétuo.

Ex: se o custo de capital é de 10% e o crescimento perpétuo é imaginado como 5%, o fator equivale a 1/(0,10 – 0,05) = 1/(0,05) = 20x.

Por fim, todos os fluxos de caixa, e também o valor terminal, devem ser trazidos a valor presente conforme a taxa de desconto.

Não vou perder tempo criticando as variadas lacunas metodológicas. Hoje quero apenas destacar uma única fragilidade do Fluxo de Caixa Descontado, que é já suficiente para cuspirmos nesse modelo pelo resto da vida.

O resultado final da conta (o tal do preço-alvo) varia absurdamente mediante mudanças mínimas nos parâmetros inicialmente utilizados, conferindo ao modelo um comportamento quase caótico.

Se trabalhamos com um crescimento perpétuo de 4% e com um custo de capital de 8%, o valor terminal terá um fator multiplicativo de 25x = 1(0,08 – 0,04).

Agora, vamos supor que erramos a estimativa dessas variáveis em apenas um ponto percentual, para cima ou para baixo.

Com crescimento perpétuo de 3% (-1 pp) e custo de capital de 9% (+1pp), obtemos um fator multiplicativo de 16x = 1/(0,09 – 0,03).

Já com crescimento perpétuo de 5% (+1pp) e custo de capital de 7% (-1pp), obtemos outro fator multiplicativo de 50x = 1/(0,07 – 0,05).

O valor terminal, isoladamente, responde pela maior parte do resultado final.

E errando apenas 1 ponto percentual, para cima ou para baixo, esse valor terminal pode ser multiplicado por 16x ou por 50x.

Kkkkkkkkk.

Trata-se de um intervalo no qual o máximo equivale a mais de três vezes o mínimo!

Dá para confiar? Você confiaria seu dinheiro em um modelo desse tipo?

Nem fodendo.

Fluxos de Caixa Descontados são uma grande besteira, um exercício arrogante de futurologia disfarçado de exatidão matemática.

Felizmente, há outras formas bem mais simples e confiáveis de identificar aquelas que podem ser As 3 Melhores Ações da Bolsa.