Queria eu me preocupar com os meus velhos problemas

"Rodolfo, tava vendo o Bolsonaro brigar com os supermercados, pelo jeito a inflação está voltando, né? Hora de vender ações?"
Queria eu me preocupar com os meus velhos problemas

"Rodolfo, tava vendo o Bolsonaro brigar com os supermercados, pelo jeito a inflação está voltando, né? Hora de vender ações?"

Estávamos há um bom tempo sem ouvir falar de inflação.

E com razão.

A imagem abaixo resume os últimos dez anos de IPCA, acumulados em janelas de doze meses.


Parece haver uma mudança dramática no gráfico desde 2016 - aquilo que os estatísticos costumam chamar de uma "quebra estrutural" na série de dados.

Alguma imensa força gravitacional se manifestou no Brasil - e também no mundo - de modo a puxar a inflação para baixo, para um novo patamar.

Eu desconfio que essa quebra estrutural veio para ficar. Talvez seja o caso. Não há como decretar definitivamente a mudança, pois nunca passamos por isso antes. Mas, desta vez, parece que é mesmo amor para a vida inteira.

Isso quer dizer que inflação, no Brasil, não é mais um problema?

Não.

Quer dizer que é um outro tipo de problema, conjuntural.

A moeda nacional continua frágil em relação às moedas fortes globais, subindo quando o mundo vai bem e derretendo quando o mundo vai mal.

Já que importamos uma gama de produtos e serviços essenciais, continuamos tendo pressões inflacionárias associadas ao câmbio.

Por exemplo: nessa semana que passou, recebemos a notícia de uma prévia de IGP-M salgada, bebendo do dólar caro.

Isso, junto com a sarneyzação de Bolsonaro, levou os investidores brasileiros a se preocuparem uma vez mais com o renascimento da inflação.

É hora de vender prefixados, se você ainda tem. Na verdade, já passou da hora.

Mas não é hora de vender ações.

Suponha que você é dono de uma empresa, e fica sabendo pelos jornais de um repique inflacionário. 

Qual sua reação? Você fecha a empresa? Vende a empresa?

Você se adapta. Corta alguns custos, conversa com fornecedores, muda o mix de produtos, tenta repassar uma parte.

Ao contrário dos prefixados, que não têm para onde correr, empresas (e seus empresários) são seres bastante versáteis.

Todas as melhores empresas listadas hoje na Bolsa brasileira sobreviveram a vários anos de hiperinflação. Elas podem ter medo de fintechs, healthtechs ou edtechs, mas não têm medo de inflação.