Você é maior do que o mais alto Dividend Yield

A culpa nunca é de um indicador, mas sim de nossa tentação de superestimar os poderes da lógica.

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Você é maior do que o mais alto Dividend Yield

Não que eu seja maduro hoje, e muito menos experiente.

Quanto mais pessoas leem o que eu escrevo, mais me questiono sobre minha capacidade de dizer algo realmente útil sobre finanças.

Piso firme no chão e rememoro os tempos em que minhas decisões de investimento eram absolutamente amadoras.

Tempos de paz ignorante.

Tinha quase esquecido do dia em que aprendi sobre o indicador de DY – o Dividend Yield, razão entre os dividendos recebidos e preço pago pela ação.

De repente, todos os desafios rentistas de stock picking pareciam estar resolvidos, para sempre.

Você compra ações com DY alto e vende as que têm DY baixo, maximizando assim sua renda.

Pronto! É a pura lógica aplicada às Vacas Leiteiras.

Não demorou muito para eu perder dinheiro seguindo esse algoritmo aparentemente irrefutável.

Na verdade, os prejuízos em si nem foram tão determinantes assim. O grande problema veio quando eu comecei a desconfiar da fórmula.

Vira e mexe, eu me deparava com uma empresa de Dividend Yield gigantesco, de dois dígitos ao ano, mas que estava à beira do abismo.

E outras que mostravam Dividend Yields pequenos dois anos atrás agora estavam distribuindo toneladas de proventos.

Foi quando saquei que o DY, especificamente, era o menor dos culpados.

A culpa nunca é de um indicador, mas sim de nossa tentação de superestimar os poderes da lógica.

A lógica formal nunca será capaz de oferecer descrições completas do mundo em que vivemos.

Pense no seguinte algoritmo: “Se o semáforo à sua frente estiver verde, acelere o carro e atravesse o cruzamento”.

Parece perfeitamente válido, não é mesmo?

No entanto, há muitas situações que o tornam inútil, e até perigoso – quando as luzes dos semáforos estão piscando ou quando há um carro quebrado bem no meio do cruzamento.

Ao mesmo tempo em que olhamos para o verde do semáforo, observamos outras centenas de elementos da cena.

E então tomamos uma decisão de acelerar (ou não) comparando a cena atual com várias cenas similares do passado, nas quais obtivemos sucesso ao atravessar o cruzamento.

Veja que, ao contrário da lógica pura, a similaridade não oferece quaisquer garantias de verdade. Podemos comparar com uma larga amostra e, ainda assim, cometer erros de trânsito.

Mesmo assim, é o que fazemos como seres humanos, e é o melhor que podemos fazer.

A lógica resolveria tudo num mundo em que o futuro é sempre igual ao passado, sem margens para erros.

Já com a similaridade, admitimos alguma margem de erro em troca de nos adaptarmos a situações inovadoras, mas ainda assim comparáveis. Se um pato gigante de borracha estiver no meio do cruzamento, também seremos capazes de tomar a decisão de não acelerar.

Ao tomarmos decisões estritamente baseadas em indicadores de yield (ou de valuation, já que ambos são a mesma coisa), estamos tratando o mercado como um mundo puramente lógico, e abrindo mão da ferramenta mais eficiente que temos: a similaridade.

Pare de comparar dividend yields e comece a comparar carros quebrados com patos gigantes de borracha.