Você investiria no Google ou no Facebook?

Qual é o som de uma única mão invisível batendo palmas? Você que tirava sarro das aulas de Filosofia e teve o azar de estudar […]

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Você investiria no Google ou no Facebook?

Qual é o som de uma única mão invisível batendo palmas?

Você que tirava sarro das aulas de Filosofia e teve o azar de estudar Economia na faculdade deve ter se deparado, em algum momento, com o conceito de “monopólio natural”.

Ele é usado para caracterizar situações nas quais os custos fixos de determinada atividade são tão altos que inviabilizam a competição entre duas ou mais empresas, limitando o mercado a um único ofertante.

O exemplo mais clássico talvez seja o de saneamento, já que não faria sentido termos estruturas paralelas de hidráulica e tratamento de água nos centros urbanos.

Num argumento análogo, embora não inteiramente válido, alguns investidores entendem que a B3 é também um monopólio natural, pois não compensaria termos estruturas paralelas de pós-trading no mercado brasileiro.

Como regra geral, os monopólios naturais ou pertencem ao governo ou são regulados por entes públicos, de modo a coibir eventuais abusos do ofertante.

Eis o conceito de monopólio natural que aprendemos nos livros-texto do século XX, mas que não mais basta para explicar o estado atual das coisas.

Um monopólio da Sabesp ou da B3 que parecia natural soa um tanto quanto artificial quando comparado com os monopólios naturalíssimos desenvolvidos pelos modelos digitais do Google e Facebook (entre outros).

Para entender esse ponto, vamos dar um passo atrás, falando primeiro sobre os temores e ambições associados à inteligência artificial.

Todo esse lance de algoritmos e códigos tornou-se tão arraigado em nosso cotidiano que às vezes ficamos com a impressão de que a programação digital está controlando o mundo.

É como se o Google tivesse criado um modelo de taxonomia do conhecimento humano, permitindo então que façamos buscas inteligentes dentro desse modelo.

É como se o Waze (que também é do Google) tivesse criado um modelo de trânsito, permitindo então que desfrutemos dos trajetos otimizados por esse modelo.

É como se o Facebook tivesse criado um modelo de interações sociais, permitindo então nossa comunicação de acordo com os likes e dislikes desse modelo.

Essas são todas impressões que derivam de um sentimento geral – e até saudavelmente paranóico – de que, nos prédios do Google e do Facebook ao redor do mundo, existem exércitos de nerds programadores dominando um número cada vez maior de facetas da nossa natureza antes 100% humana.

Podemos temer e respeitar o Google e o Facebook por inúmeros motivos, mas não por isso. Essas empresas não criaram modelos de coisa nenhuma, e seus programadores não controlam nada.

A ferramenta de buscas do Google não é um modelo de taxonomia do conhecimento humano; ela é o próprio conhecimento humano.

Se uma quantidade suficiente de motoristas aderir a um app de trânsito em tempo real, esse ecossistema passa a ser o próprio trânsito, otimizado em si mesmo e por si mesmo.

E se bilhões de pessoas abrirem conta no Facebook (ou no Twitter), teremos ali as interações sociais corriqueiras, que não devem ser confundidas com um universo paralelo ou com um simulacro de redes sociais.

Acredite, ninguém está controlando nada; nem mesmo o Sundar Pichai ou o Mark Zuckerberg.

Os monopólios do Google e do Facebook são naturalíssimos porque têm identidade com a própria natureza das coisas.

Esse é o limite extremo daquilo que chamamos de um jogo de “winner takes all” – a um vencedor único, todas as batatas – uma vez que não existem dimensões extras (além das quânticas) para criarmos estruturas paralelas de realidade. A natureza não pode ser menor ou maior do que a própria natureza.

 

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Quisemos controlar a natureza com nossos algoritmos, mas a natureza cooptou esses algoritmos para atuar em serviço dela mesma. Google e Facebook pegaram carona aí, obviamente também por méritos próprios.

Uma questão polêmica, agora, é se Sundar e Zuckerberg merecem receber bônus e dividendos extraordinários por capturarem essa enorme externalidade, eminentemente natural. Desconfio que sim, merecem.

Estatizar ou regular não é mais uma solução efetiva para essa nova normal, por mais que o Senado americano tente obrigá-los a depoimentos constrangedores.

Ao comprarmos ações do Google ou do Facebook, estamos investindo diretamente nos ecossistemas que compõem a própria ontologia e o desenvolvimento humano.

Quais são os limites a esse desenvolvimento? Em um contexto de barreiras à entrada potencialmente infinitas, como definir um valuation razoável para comprar ou vender?
Preço e valor não podem mais destoar em um espaço de dimensionalidade máxima. O preço do trânsito que efetivamente ocorre em todas as rodovias do universo é, por definição, o valor desse mesmo trânsito.

Você e eu, como investidores, continuaremos passíveis de perder ou ganhar dinheiro com as ações do Google e do Facebook. Mas isso nada tem a ver com o fato de elas estarem caras ou baratas.

Se você chama uma coisa de cara ou barata, por definição, ela é cara ou barata em relação a outra coisa. Mas não há outra natureza, não existem dois trânsitos, dois corpos de conhecimento humano.

Nesta rede social que se formou, nós somos a mão invisível que bate palmas sozinha.

Se uma árvore cai em uma floresta e ninguém está ali para ouvi-la cair, talvez essa árvore não produza som algum, sei lá eu. Mas se a floresta inteira cai, não existe mais paradoxo.

É melhor nos acostumarmos rapidamente a investir nas coisas pelo que elas são, e não por acharmos que elas estão caras ou baratas.

A humanidade como um todo é Money Maker. E nós, enquanto indivíduos, somos Money Riders.