Você já paquerou a Fortuna em Bolsa?

Prepare-se para investir com bons retornos

Você já paquerou a Fortuna em Bolsa?

Na Segunda Guerra Mundial, os londrinos tinham total convicção de que as bombas disparadas pelos nazistas eram guiadas para um alvo pré-estabelecido. Isso porque algumas partes da cidade eram atingidas repetidamente, enquanto outras permaneciam intactas.

As pessoas acham uma tremenda coincidência quando dois alunos na mesma sala fazem aniversário no mesmo dia.

Se você fizer um painel com seis quadrados de igual tamanho e pedir para um macaco disparar seis dardos na direção dessa lousa, qual dispersão espera obter? Um dardo em cada quadrado?

Um evento precisa necessariamente refletir as propriedades de incerteza pelo qual é gerado. Ou seja, se um procedimento é realmente aleatório seu resultado deveria parecer aleatório.

Ao estudar o comportamento do bombardeio em Londres na Segunda Guerra, estatísticos posteriormente demonstraram que aquela distribuição era rigorosamente a esperada a partir de projéteis disparados aleatoriamente.

As chances de não se ter numa mesma classe duas crianças que fazem aniversário no mesmo dia é que são baixas.

E se você jogar dardos aleatoriamente num papel, haverá uma probabilidade desprezível de que eles sejam distribuídos uniformemente.

Nosso estereótipo de aleatoriedade falha em reconhecer a possibilidade, meramente randômica, de ocorrência de clusters e aparentes padrões que ocorrem em sequências absolutamente feitas ao acaso.

Em O Homem que copiava, a pequena quadrilha de farsantes joga na loteria a sequência 1 2 3 4 5 6, com a certeza de que não será vencedora. Afinal, isso é um padrão, uma sequência crescente, enquanto o sorteio é randômico.

Acontece, porém, que a sequência acaba sendo a efetivamente sorteada. Afinal, sua probabilidade de ocorrência é rigorosamente idêntica a qualquer outra. Iludidos pelo acaso, lamentaria Nassim Taleb.

Há uma tendência irresistível a procurarmos padrões no caos. Reconhecer a influência da aleatoriedade é admitir nossa insignificância cósmica. Se não existe padrão e o acaso acaba determinando o futuro, temos pouco a fazer e estamos sujeitos ao erro. Somos falíveis.

É duro reconhecer, mas é a mais absoluta verdade. Só acha que a bola não entra por acaso aquele sujeito que nunca encostou o pé numa bola na vida. O lateral quer cruzar aquela bola em arco pra dentro da área com a parte interna do pé, fazendo curva pra dentro e fugindo do goleiro para pegar o centroavante de frente, pronto para enfiar a testa no centro da Gorduchinha…..mas pega um pouco errado na Criança; troca a chapa pela parte mais próxima ao bico. A bola sai mais fechada do que todos imaginavam e acaba, sem querer, encobrindo o goleiro que já se preparava para cruzar a linha da pequena área a interceptar o cruzamento. Um golaço, feito absolutamente por acaso, resultado de um erro técnico de execução. Um cruzamento equivocado que virou um gol de placa.

Eu adoraria dizer que se você trabalhar duro, insistir, perseverar, estudar mais do que os outros vai necessariamente chegar a resultados superiores, como se pudéssemos eliminar a incerteza e a aleatoriedade do processo. Nosso cérebro não gosta da dúvida, do caos, da imprevisibilidade, do inesperado, do ininteligível. Mas não é porque você não entende ou não consegue explicar algo que aquilo não existe.

Queremos enxergar padrões onde só há acaso. A identificação de um padrão é a prova da nossa competência intelectual. “Essa é a regra e, portanto, eu posso saber como se comporta.” O reconhecimento do caos e das forças do acaso é a admissão dos nossos limites, da incapacidade de saber o que vai acontecer. A deusa Fortuna não se atrai pela beleza de Narciso.

Quando a volatilidade era muito baixa e tudo parecia apontar para um padrão de calmaria, havia um Twitter no meio do caminho. Desde que Donald Trump alertou para “fogo e fúria” contra a Coreia do Norte, a aversão a risco disparou. Sexta-feira marca a quarta queda seguida para os mercados em âmbito global.

Índice VIX atinge maior nível desde eleição de Trump, beirando 17 pontos nesta manhã. Há uma semana, alertamos para a vol excessivamente baixa, sugerindo a compra desse negócio. Deve-se reconhecer, porém, que não esperava alta desse tamanho em tão pouco tempo. De novo, se trata apenas da manifestação material das forças do acaso. Não há padrão e foi apenas e tão somente sorte. Agora, também não posso esquecer daquela velha heurística: VIX você compra perto de 10 e vende perto de 20.

Há algo curioso sobre o desempenho dos portfólios de investimento e das cotas. Eles mostram um número, frio e incontestável. Não há ali uma superação entre “desses 13 por cento de alta neste ano, 5 se devem à competência, 8 decorrem da sorte.” Claro, quando cai foi um evento aleatório imprevisível, quando sobe é a competência do gestor. Você sabe como é…

Mas justamente por sempre haver eventos aleatórios imprevisíveis é que você precisa manter constantemente proteções em sua carteira. Entre as mais tradicionais, eu recomendo aos assinantes da Carteira Empiricus uma posição em ouro. Confesso ficar feliz por isso, porque quase ninguém no Brasil (eu arriscaria dizer que ninguém mesmo) mantém essa sugestão ou essa posição.

Lá fora, porém, a coisa é diferente. Ontem, foi a vez do monstro sagrado Ray Dalio recomendar o metal precioso como proteção indispensável neste momento de recrudescimento das tensões geopolíticas internacionais. O ouro sobe pela quarta sessão consecutiva hoje. Eu também tenho cá certas questões narcísicas e admito ter lido as palavras de Dalio com um sorriso no canto da boca ontem à noite.

Em meio à busca por segurança, rendimento dos Treasuries e dos títulos europeus considerados menos arriscados volta a cair. Petróleo tem segunda queda na sequência com ceticismo sobre cortes da Opep, em dia de relatório Baker Hughes. Minério de ferro caiu no porto de Dailan.

Na agenda internacional, destaque para inflação ao consumidor norte-americano.

Por aqui, aguardamos revisão da meta fiscal e digerimos resultados de Petrobras, com receita acima do esperado, mas lucros aquém das projeções por conta de uma série de não recorrentes. Também na esfera corporativa, Vale observou 72,2% de suas ações preferenciais sendo convertidas em ordinárias, num grande sucesso.

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Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,5 por cento, na esteira do comportamento das bolsas no exterior. Dólar e juros futuros tentam definir tendência, por ora, sem sucesso.

Depois do grande rali das últimas semanas, a pausa para respirar dos ativos de risco parece até natural, com a questão em torno da Coreia do Norte apenas servindo como catálise. Seria qualquer outra. Nossa mente procura causas para explicar uma história crível qualquer. Não importa se é verdade, basta se encaixar bem numa narrativa bonitinha. Com mercados mais instáveis no curto prazo, vamos atrás de oportunidades de pair trade, em que não dependemos das condições sistêmicas, para lucrar com distorções de preços relativos. Max tem ótimas ideias para você hoje.

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