Você precisa amar perder dinheiro

Os cisnes negros me parecem animais de bando. Esses danados andam em grupo.

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Você precisa amar perder dinheiro

“Você precisa amar perder dinheiro e odiar ganhar dinheiro para ser bem sucedido. O que eu ensino para os jovens traders e pratico para mim mesmo é contra a natureza humana. Um bom trader precisa superar essa humanidade.’”

Isso é Everett Klipp, the Babe Ruth of CBOT, trader icônico da Chicago Board of Trade e mentor de Mark Spitznagel. A provocação inicial ficou conhecida como Klipp’s Paradox após compor a essência do treinamento de uma série de jovens traders recém-chegados à Bolsa de Chicago.

Há uma forma muito simples de não perder dinheiro: não faça nada. Será a vitória nominal. Você será o Floyd Mayweather da invencibilidade financeira. Um cartel único sem derrotas. “Eu nunca perdi um real em meus investimentos.” Provavelmente, nunca ganhou também.

Aquele que não sai da cama poderá vangloriar-se de não ter cometido nenhum na vida. Só há um gestor imaculado: aquele que não começou. “Só perde pênalti quem bate”, foi assim que o papai me consolou após aquela trágica desclassificação da Copa Dan’Up – não conseguiu conter meu choro, mas formou caráter.

Pode parecer contraintuitivo, mas acho fundamental que o investidor aceite pequenas perdas. Vejo uma tríade de benefícios dessa aceitação – talvez haja mais, mas eu enxergo três e já me parece mais do que suficiente para provar o ponto.

  1. Se você não aceita perder, jamais admitirá um prejuízo. Esquecendo-se de que a menor perda é a melhor, vai manter-se apegado excessivamente a uma ação previamente comprada por um preço maior. Ainda pior, possivelmente vai se engajar numa estratégia de preço mérdio. Então, o que poderia ser um pequeno prejuízo pode se transformar num rombo enorme. As Finanças Comportamentais já documentaram adequadamente o chamado endowment effect, a tendência a acharmos mais valioso aquilo que já possuímos, bem como a aversão a perda. Resistimos bravamente, como se o mercado financeiro fosse ambiente para os heróis, a reconhecer o prejuízo e parecemos querer demonstra uma espécie de lealdade àquela ação perdedora. Você não precisa pintar o rosto de azul e branco, bancar o William Wallace. Você só precisa ganhar dinheiro. Teddy Odean estudou 163 mil contas em corretoras de pessoas físicas e identificou como seguramos excessivamente ações que estão caindo, enquanto temos uma tendência a realizar lucros muito rápido. Aceite o pequeno prejuízo rápido, recupere numa outra. George Soros fala abertamente: “minha maior vantagem não é errar menos do que os outros; eu erro como qualquer um, apenas reconheço rápido e mudo a estratégia, sem qualquer apego.”
  2. Somente aqueles que topam pequenos prejuízos podem engajar-se em estratégias de retornos assimétricos positivos. Ou seja, se você vê uma perda potencial pequena e um lucro potencial grande, para probabilidades parecidas, topa jogar aquele jogo. Para isso, porém, precisa estar ciente de que pode ter a pequena perda. Se o processo for repetido ao longo do tempo, você vai necessariamente sair vencedor no longo prazo. É a mera aplicação da aritmética e do respeito à média ponderada. A condição óbvia para isso, claro, é não morrer no meio do caminho e poder repetir o jogo várias vezes até que as propriedades da lei dos grandes números se manifestem. Então, basta você calibrar o tamanho da aposta – nunca, e também nunca, incorra no risco de perder uma quantia que pode levá-lo à falência. O processo de acumulação de patrimônio sofre de histerese e, se você passar dum determinado ponto, não tem volta. Para definir o tamanho da aposta, considere o Kelly Criterion (Google it!) – eu mesmo posso falar disso depois se vocês quiserem (me mande emails pedindo se for da sua vontade; essa interlocução é muito construtiva).
  3. Somente quem realmente entende do processo (e de Bolsa) pode perder 90 por cento em Coteminas para depois ganhar 3.000 por cento em Magazine Luiza – aliás, comento hoje sobre MGLU3 no Palavra do Estrategista, cuja assinatura recomendo fortemente, uma espécie de must read do mercado financeiro brasileiro (são 100 mil leitores!).
    Essa capacidade de aceitar pequenas perdas é o que vai lhe permitir comprar seguros, montar posicionamentos para capturar situações consideradas a priori como altamente improváveis e “apostar na cauda”. Na estratégia de tail hedging que defendo tão apaixonadamente, gastamos um pouco de dinheiro, que quase certamente vamos perder, incorremos numa perda pequena hoje atrás de uma enorme vantagem futura. Para apostar no improvável, você precisa estar disposto a perder, perder e perder – até que um único ganho vai muito mais do que lhe compensar esses pequenos prejuízos. Além disso, é justamente a compra de seguros contra catástrofe que nos permite uma simultânea grande exposição a ativos de risco (pois esses seguros vão nos proteger do caso negativo, amenizando bastante as perdas nesse eventual cenário.)

O último ponto é o que nos traz até aqui hoje. Na verdade, só escrevi todas as linhas acima por conta dele.

Talvez você tenha percebido por si só ou mesmo lido em matérias por ai: a volatilidade dos mercados está excepcionalmente baixa. O índice VIX, uma espécie de referência para esse negócio, marca agora 9,69 pontos. Isso é incrivelmente baixo para os padrões históricos. Não é necessariamente um problema. Não quero fazer da coisa um grande alarde, como se fosse prenúncio do apocalipse. Mas uma regra de bolso dos traders de VIX é: compre perto de 10, venda perto de 20.

Ainda que você não queira se engajar nessa heurística, no que eu respeito, há um corolário óbvio da baixa volatilidade: por ser ela uma determinante direta do preço das opções, que são o seguro catástrofe clássico, essas estão muito baratas agora.

De maneira mais direta: com a recente alta dos ativos de risco brasileiros e a baixíssima volatilidade, pode ser boa hora de se comprar seguros. Eles estão baratos e há muitos riscos soltos por ai. Eu mesmo estou preparado para fazer isso na Carteira Empiricus. Às 11h, mandarei um alerta de compra de seguros para os assinantes. Por favor, fiquem atentos. Caso você ainda não assine, fica a sugestão.

Os cisnes negros me parecem animais de bando. Esses danados andam em grupo.

Mercados estendem bom comportamento dos últimos dias na manhã desta quarta-feira. Variações são modestas em dia de agenda relativamente fraca, em que cenário corporativo é destaque.

Como indicadores econômicos, temos novas referências de deflação. Prévia do IGP-M recuou 0,71 por cento, enquanto IPC-Fipe cedeu 0,15 por cento, surpreendendo consenso, que esperava ligeira alta. Dados de arrecadação completam o dia.

Na esfera corporativa, Weg deu início à safra de balanços e Carrefour viu suas ações apreçadas no IPO no piso da estimativas – recomendamos não participar da oferta, que, de fato, parece não ter empolgado. Aguardamos ansiosos Biotoscana.

Lá foram, saem estoques de petróleo e números de moradias. Atenção para os resultados de Morgan Stanley (agora cedo), Amex e Alcoa (ambos à noite).

Ibovespa Futuro abre em leve alta de 0,1 por cento, embora demonstre instabilidade. Juros futuros voltam a cair com novos indicadores de deflação. Dólar está estável sobre o real.

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