Novembro de 2018
Sumário

Duas ações para comprar agora

Duas ações para comprar agora

Aos recém-chegados em Bolsa, vale o lembrete: o governo Lula 1 representou um dos maiores bull markets da história do mercado de capitais brasileiro. Cara, era o Lula, entendeu? Esse mesmo que está aí preso. Você acha que o Lula era reformista? Liberal convertido?

Lula foi encontrado – assim mesmo, na voz passiva – pela herança das reformas estruturantes e liberais do governo FHC, tanto em nível micro como macro, por um cenário internacional de grande calmaria, canonicamente chamado na literatura de Grande Moderação (baixa volatilidade de juros, PIB e inflação) e pela entrada da China como grande comprador de matérias-primas, que se traduziu em grande valorização das matérias-primas e ganhos de 40% nos termos de troca brasileiros. Foi isso que permitiu um crescimento econômico mais vigoroso, expansão do salário mínimo acima da média e melhora do índice de Gini.

No dia depois da eleição, fomos encontrados por Jair Bolsonaro.

O novo mandato já começou. Se querem minha visão sobre o comportamento de curto prazo dos mercados como desdobramento do resultado das eleições, aqui as antecipo: alta vigorosa dos ativos de risco brasileiros – impacto brutal sobre juro longo e estatais, incluindo aqui as estaduais.

Senado veio bem alinhado a Bolsonaro e provavelmente vamos retomar a discussão sobre a reforma da Previdência ainda neste ano – curiosamente, Bolsonaro herdará as reformas estruturantes feitas no governo Temer, da mesma forma que Lula herdou de FHC. Isso, combinado a preços de commodities interessantes, faz toda a diferença.

Agora, há um papo inteligentinho querendo dizer que os mercados exageram no otimismo com Bolsonaro, que não há a menor chance de negociação das reformas com ele e que Paulo Guedes vai logo abandonar o barco. Essa conversa pseudodescolada é, na verdade, bastante clichê. Além de Paulo Guedes, há no entorno de Bolsonaro 40 economistas, alguns com formação sólida em Chicago, realmente comprometidos e engajados com o processo.

A aprovação de reformas depende de vários fatores, incluindo questões exógenas, como o ambiente externo, a sorte, o weltanschauung, o zeitgeist do momento. O que há de concreto agora é que eliminamos por completo o risco de um cenário de cauda muito negativo, os preços dos ativos estão atrativos e vamos voltar a discutir reformas no curtíssimo prazo.

Além da questão estrita das eleições e da percepção de risco a isso circunscrita, há elementos de cunho microeconômico servindo de propulsores para as ações. Passadas as eleições, devemos ter uma natural recuperação cíclica da economia, com muita capacidade ociosa, o que permite expansão sem inflação. As empresas, por sua vez, fizeram sua lição de casa durante a crise e cortaram custos/despesas, de tal sorte que vão se apropriar destacadamente da alavancagem operacional — qualquer pequeno crescimento de receita será transformado em grande alta dos lucros.

Vale um olhar atento à geração de caixa das companhias, frente ao seu valor de mercado. O chamado “free cash flow yield” supera 15% para empresas como Petrobras, Vale e Klabin, enquanto a taxa interna de retorno (TIR) marca mais de 10% para Eneva e Alupar, por exemplo. Cedo ou tarde, se um negócio vai bem, a ação acaba seguindo. Depois das eleições, tudo vai parecer bastante óbvio.

O que vai acontecer depois que o Ibovespa bater 100 mil pontos? Não sabemos.

Neste momento, há um dinheiro na mesa para pegar. Você pode pegá-lo ou continuar se perguntando se aquele dinheiro deveria estar mesmo ali ou se vai continuar ali num segundo momento. Enquanto o mundo se debruça para entender se Bolsonaro é ou não liberal, os mercados vão subindo.

O capital não tem ideologia. Aliás, você acha mesmo que o próprio Bolsonaro está preocupado com isso? Precisamos parar de perseguir o que é certo, qual a essência da verdade e da realidade nos mercados. A nós, basta ganhar dinheiro.

Não é um concurso de educação moral e cívica. Elegemos um presidente e queremos saber como isso afeta o preço dos ativos. Pela enésima vez, X não é F(X). Entender a realidade é muito mais difícil do que compreender como ela afeta o seu portfólio.

Se você ainda não entendeu a essência da coisa: já começou, formalmente, o Segundo Mandato Temer, tese sobre a imposição inexorável da agenda liberal e reformista, cuja materialização tinha entre seus pilares a migração do pêndulo da esquerda para a direita – se houve um erro na antevisão, foi de ter achado que o pêndulo pararia na centro-direita; a força motriz era tão forte que o negócio passou atropelando tudo e foi mais ainda à direita. A ideia do bull market estrutural está aí.

Touché! É hora de reforçar sua exposição a Bolsa e aqui vão duas ações com as quais começar:

Rumo (RAIL3)

Gostaria de introduzir o ativo falando do projeto de expansão de Sorriso, que amplia a penetração da Rumo no Estado de Mato Grosso até a região Norte — até o momento, a conexão da Malha Norte, que leva a produção do MT até o Porto de Santos, vai somente até Rondonópolis.

O projeto, cujo capex monta a R$ 5,5 bilhões, envolve 600 km de ampliação da malha ferroviária, permitindo aos clientes da companhia significativa diminuição dos custos de frete.

Na situação atual, boa parte dos volumes embarcados em Rondonópolis chega de outras regiões do Mato Grosso, exigindo desses clientes o uso também do modal rodoviário. Com a expansão até Sorriso, parte desse processo poderá ser eliminada, dando aos clientes da Rumo a opção de um frete cerca de 25% mais barato.

Segundo minhas contas, a expansão até Sorriso pode elevar os volumes de grão da Malha Norte em 12 milhões de toneladas em 2023, o que representaria um incremento de Ebitda anual próximo a R$ 2 bilhões, com uma TIR altíssima de cerca de 30%.

Em termos práticos, significa que as ações da Rumo agora encontram um novo alvo. Sugerimos a compra do papel.

Além dos riscos inerentes ao mercado de renda variável (risco sistêmico), a Rumo depende de uma soma vultosa de investimentos em ativo fixo, com maturação de muito longo prazo. Além da necessidade de financiamento, muitas vezes com capital de terceiro, o risco de execução dos projetos é grande, com chances de atrasos e estouro de orçamento.

Também destacamos a forte dependência do agronegócio, sobretudo do tamanho da safra que, por sua vez, é impactada pelas condições climáticas – é impossível garantir a demanda para utilização da malha da companhia.

Banco do Brasil (BBAS3)

Recentemente, nossa equipe esteve com o pessoal de Relação com Investidores do Banco do Brasil (BBAS3) e ficou bastante satisfeita com o que foi passado.

Do ponto de vista operacional, o banco segue evoluindo. Os principais vetores de crescimento continuam sendo o aumento da carteira de crédito em linhas mais rentáveis, como pessoa física e agronegócio. No último resultado, elas cresceram +4,1% e +0,2%, respectivamente, na comparação anual. Uma boa melhora frente aos trimestres anteriores.

Em relação à pessoa física, o banco tem realizado diversas iniciativas tecnológicas que têm surtido efeito e atraído mais esse público. O resultado pôde ser notado na LOB (Livre Opção Bancária), indicador que mede o fluxo de portabilidade dos clientes e que tem sido positivo nos últimos meses. Ou seja, há mais clientes migrando para o BB do que saindo.

O atual mote da companhia é ganho de eficiência e rigor nas despesas, que já vêm sendo colhidos ao longo dos últimos trimestres.

O índice de eficiência, que mostra a relação entre as despesas operacionais e as receitas com serviços e seguros, também tem mostrado melhora desde 2014. Quanto mais baixo é esse indicador, menor é a parcela da receita que está sendo consumida pelas despesas, o que evidencia a maior disciplina do banco.

O destaque da conversa foi a distribuição de dividendos, que deverá ser mais robusta no segundo semestre de 2018, a fim de atingir 40% de payout no ano.

Considerando que o dividend yield anual do banco está no patamar de 4% e que o payout no primeiro semestre do ano foi de 30%, pegamos a calculadora para estimar quanto a elevação do payout aumentará a remuneração via proventos.

Ao estimar um lucro líquido para o segundo semestre estável em relação ao primeiro – e em linha com o guidance –, a distribuição de proventos no semestre deverá alcançar R$ 1 por ação, elevando o dividend yield anual para o patamar de 5%.

Negociando a 0,8x preço/valor patrimonial, o Banco do Brasil (BBAS3) se encontra bem descontado em relação aos seus pares: Itaú (2,2x), Santander (1,6x) e Bradesco (1,7x). A grama do banco ainda está alta, mas o desconto nos parece excessivo.

Com a manutenção das mudanças operacionais adotadas recentemente e a eleição de um candidato reformista, o Banco do Brasil poderá ser elevado a um novo patamar.

Sugerimos a compra da ação.

Por mais que gostemos do papel, não podemos descartar o risco sistêmico (risco de mercado) e o fato de que o Banco do Brasil é uma companhia estatal exposta às decisões do governo federal e às indicações e negociatas em Brasília. Não há garantias de que as decisões de Bolsonaro serão alinhadas com os interesses de mercado.

O banco está, como os demais players do setor, exposto aos mercados de crédito e de juros e à macroeconomia de uma forma geral. É impossível garantir como essas variáveis vão se comportar e de que forma as ações irão reagir em um ambiente adverso.

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