Agosto de 2018
Sumário

Para onde vão seus investimentos?

Para onde vão seus investimentos?

Há pouco mais de um mês, o pessimismo era completo. Todos tinham certeza de um segundo turno entre Ciro e Bolsonaro, bem como estaria encerrado o interregno benigno no exterior para os mercados emergentes. O dólar iria a 5,30 reais, o Ibovespa caminharia para perto de 53 mil pontos. Aí vamos nós: 10 mil pontos em dólares para o nosso principal índice de ações. Bem-vindos de volta à Era Dilma.

Onde estamos agora, algumas poucas semanas depois? O Ibovespa beira os 80 mil pontos, o dólar está abaixo de 3,75 reais. Todos – sem exceção – estão surpresos com a rapidez e a extensão da recuperação dos ativos brasileiros, num momento de muita incerteza lá fora, principalmente com a guerra comercial, e a completa indefinição da eleição brasileira.

É sempre assim! Comete-se de forma recorrente o mesmo erro, de se acreditar que as trajetórias dos ativos são lineares, previsíveis e comedidas. “Vou esperar um crescimento de Alckmin nas pesquisas e, então, se isso se confirmar, eu aumento das posições em ações.”

Não dá tempo, entendeu? De repente, você acorda com uma notícia estampada no jornal e o índice sobe 10 por cento na sua cabeça antes mesmo de você decidir comprar Bolsa.

As pesquisas eleitorais agora – e vamos ter uma porção delas nas próximas semanas – não oferecem qualquer materialidade para o resultado efetivo do pleito presidencial. Como podemos observar nas eleições de Teresópolis ou do Tocantins, tudo vai se resolver em cima da hora. A volatilidade do eleitor lembra aquela das opções de Petrobras.

Há uma infinidade de indecisos e “não tenho candidato”. A essa altura em 2002, Ciro Gomes ainda liderava as intenções de voto. Como você deve se lembrar, muita coisa mudou depois, menos o temperamento do sujeito.

O problema é que as pesquisas eleitorais, embora não signifiquem muita coisa agora, fazem preço. O mais curioso é que todo participante do mercado reconhece a incapacidade de as pesquisas agora serem, de fato, um bom previsor para o resultado de outubro. Mas ninguém quer saber. Numa espécie de falácia da composição, os agentes de mercado, individualmente, não acreditam nas pesquisas. Mas o mercado como um todo não quer saber.

Assim, em mais uma demonstração clássica de sua bipolaridade, os agentes econômicos saíram do pessimismo extremo no começo do junho para um otimismo exacerbado agora.

Por mais que mantenha um prognóstico favorável para os ativos brasileiros a médio e longo prazo, ainda acreditando na tese do bull market estrutural iniciado em janeiro de 2016 (fique claro: com pronunciadas correções e muita volatilidade no meio do caminho), preciso reconhecer a existência de muitos obstáculos e riscos no horizonte.

Em termos práticos, dado o comportamento recente dos mercados, parece bastante razoável perseguir um hedge às posições de risco comprando um teco de dólares aos níveis atuais.

Note que as mais recentes revisões para a atividade econômica têm sugerido um crescimento da ordem de 5 por cento – isso é bastante coisa para uma economia do tamanho da norte-americana, cujos juros devem continuar subindo, enquanto a Europa se compromete com uma política monetária ainda frouxa. Se for mesmo o caso, não parece sustentável a trajetória de queda do dólar frente às principais moedas no exterior. Aqui, como reforço, seria natural que a volatilidade eleitoral voltasse a fortalecer o apelo da moeda forte.

Gostaria de pontuar um aspecto da situação dos mercados brasileiros que os diferencia do que vivemos em 2014 e 2015. O primeiro se liga à melhora da qualidade do debate. Se voltarmos quatro anos no tempo, não encontraremos o mesmo nível de discussão sobre a situação fiscal no Brasil. Hoje, o tema “contas públicas” está nas mesas de bar junto com o nome dos ministros do STF. Mesmo os candidatos de esquerda sabem das dificuldades do Orçamento.

Vamos, então, aos cenários um a um. Antes, porém, é preciso enfatizar tratar-se de uma perspectiva, de um cenário potencial. É impossível prever com exatidão as reações que o mercado terá diante de uma disputa nas urnas. O mercado não é, afinal, racional. Dito isso, vamos lá:

 

Ciro GomesCiro ainda exigiria um ajuste negativo nos preços mas, sinceramente, de uma forma ou de outra, mesmo que atabalhoado, ele tem demonstrado preocupações fiscais de maneira recorrente, além de ter governado Fortaleza e o Ceará sem déficit. Talvez possamos criticar qual o tipo de ajuste seria feito, provavelmente com destruição do setor financeiro e da Petrobras, mas é bem diferente do “modo negação” da era Dilma. Ainda assim, vale dizer que a confiança em um governo mais reformista de Ciro já foi maior.

 

Bolsonaro: O mais interessante dessa história toda, pensando no nível de mercados e investimentos, é que, aos preços atuais, Bolsonaro parece mais do que precificado. Supostamente, ele virou a casaca para o time dos liberais ao 45 do segundo tempo, mas ainda é uma incógnita do ponto de vista da prática do mandato. A grande questão, então, fica em torno de se vamos assistir ou não à sua  “conversão liberal”, como classificou um grande banqueiro, que tive a sorte de ter como interlocutor. Se isso acontecer e ele colocar as reformas para rodar, temos upside.

 

Marina Silva: Não sabemos se as convicções de Marina Silva são aquelas do histórico no PT ou as de Giannetti e Lara Resende – bom, de uma entrevista ao “Valor”, o mais triste é que não sei sequer quais são as convicções de Giannetti e Lara Resende. Minha limitação intelectual me impede de entender expressões do tipo “ajuste fundamental das contas públicas sem uma perspectiva excessivamente fiscalista”, “o ajuste muito gradual precisa ser ainda mais gradual”, “precisamos controlar o orçamento, mas não podemos engessá-lo por 20 anos”, “temos de fazer com urgência a reforma da Previdência, mas não esta reforma que está aí”. Ainda assim, Marina também está mais ou menos no preço, sob o escudo dos dois assessores econômicos.

 

Geraldo Alckmin: O tucano está começando a entrar no preço, à medida que consegue apoio de outros partidos, mas ainda guarda um potencial de upside. E quanto seria um cenário positivo, de Alckmin eleito e exterior voltando a ficar favorável? 120 mil pontos para o Ibovespa (note que esse era o número que muita gente projetava como cenário-base há poucos meses).

 

Boulos: Supondo que Boulos fosse eleito, talvez pudéssemos pensar nos 10 mil pontos de Ibovespa em dólares que vimos na era Dilma, se não pior. Eu não acredito nesse cenário.

 

Lula: Há muito tempo falo que o meu cenário-base sugere Lula solto e inelegível. Para ser bem honesto, o que precisamos é separar ideologia de pragmatismo. Mesmo um presidente de esquerda como Lula fez um primeiro governo totalmente pró-mercado, simplesmente porque as condições materiais o empurraram para isso. A economia acaba ditando a política. A agenda se impõe sozinha. O campo escala, nas palavras do Tite.

Ainda que não seja na velocidade com que gostaríamos, o Brasil avançou. Antes acelerávamos na direção do precipício, agora estamos tentando conter o suicídio coletivo. No início, diria que uma queda dos preços das ações é muito provável, mas não vejo mudanças estruturais nos fundamentos de Brasil que justificassem a busca pelo fosso do Ibovespa ou mesmo uma quebra do bull market.

Enquanto estão todos por aí alertando para as dificuldades das eleições e para a complexidade dos mercados emergentes em meio à subida de juros nos EUA, eu acho que você deveria ter um pouco de coragem e comprar algumas ações.

Talvez você esteja chateado com a Bolsa, meio bravo com o desempenho do mercado acionário no último trimestre. Ok, eu respeito isso. Mas viver é rasgar-se e remendar-se. Acho que raiva e rancor não deveriam entrar na conta. O viés de representatividade (a tendência a recuperar da memória os fatos mais recentes e salientes, transportando-os para o futuro sem validação científica) também não. Retorno passado, seja ele bom ou ruim, não explica retorno futuro. Quer dizer: para as ações, até deveria explicar, mas no outro sentido.

Se elas caíram muito, ficaram baratas e devem subir mais. Uma queda agora guardaria correlação com uma alta no futuro, preservadas as demais condições de temperatura e pressão.

E mesmo que esse fosse um alvo para o caso de um quadro muito negativo à frente, considerando também os efeitos do câmbio, a assimetria entre perdas e ganhos potenciais seria convidativa. O jogo só acaba quando termina. E, com um pouco de sorte e um bom resultado das eleições, quem sabe a discussão da reforma da Previdência não volta à tona naquela janela temporal entre outubro e dezembro. Seria bom para todo mundo. Ganhar com gol no final é ainda mais emocionante.

No fundo, é sua chance de comprar ações de qualidade por um preço mais acessível. Na Bolsa, há certos papéis que ficamos observando por muito tempo com grande vontade de comprar. As respectivas empresas são tão boas que, normalmente, sua valoração no mercado é muito alta, de tal sorte que, para ficar sócio daquele negócio, você terá de pagar muito caro. Em outras palavras, em empresas muito boas e percebidas como tal, em muitos períodos, o preço de tela acaba sendo proibitivo. Suas ações costumam ser caras demais.

Agora, com a venda pesada vista desde maio, temos uma daquelas chances de comprar empresas que sempre quisemos, mas nem sempre podemos, justamente porque antes os preços estavam caros. Minha favorita nessa categoria agora é a Equatorial Energia (EQTL3). E é dela que quero falar hoje. A empresa é uma holding do setor elétrico que tem sua história intimamente ligada à recuperação financeira e operacional de distribuidoras elétricas.

Ao comprar Equatorial hoje, você está levando todo o negócio de distribuição a um preço justo e ainda leva o segmento de transmissão, ainda em implementação, “de graça”. Quando há chance de comprar algo muito bom por um preço interessante, precisamos aproveitá-la. São raras as vezes em que maior retorno não significa necessariamente maior risco. Estamos diante de uma delas.

Felipe Miranda

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