Setembro de 2018

A Selic está baixa, e agora?

Caro leitor,

Deixe-me ser direto: as coisas pioraram no último mês. Isso vale tanto para o Brasil quanto para os mercados emergentes no geral.

Algo precisa estar claro: estamos diante de um novo mundo, que exige do investidor a compreensão desta nova realidade, que contém mais incertezas que certezas. Pode ser triste ler isso, mas é a mais pura realidade.

A verdade é que fatores internos e externos exigem do investidor um novo olhar sobre seu portfólio de investimentos.

A inflação norte-americana passou a assustar de maneira mais contundente, com alta do petróleo e força dos indicadores de atividade. Com isso, o rendimento dos Treasuries (papéis da dívida do governo dos EUA) subiu com vigor, retirando atratividade dos mercados periféricos. O dólar disparou contra as principais moedas internacionais, sendo o real uma das divisas mais afetadas – tradicionalmente temos uma elevada sensibilidade às condições externas.

A desvalorização cambial inclusive forçou o Banco Central a interromper o ciclo de cortes na Selic, mesmo depois de ele mesmo sinalizar mais uma redução nos dias que antecederam à decisão. O mercado foi pego de surpresa com o comunicado de que “o Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 6,50%”.

Como fatores estritamente domésticos, a atividade vem sistematicamente surpreendendo para baixo, forçando revisões nas estimativas para o avanço do PIB em 2018 – o consenso migra de 3% para 2% de crescimento esperado neste ano. Como potencial explicação para a fraqueza da economia, apontam-se a antecipação do consumo por conta do saque do FGTS no ano passado, um mercado de trabalho formal ainda desaquecido, bancos públicos segurando o crédito (talvez por conta de pressões sobre o balanço) e indefinição em torno das eleições, com o candidato favorito do mercado sem conseguir ganhar espaço – mais do que isso, Geraldo Alckmin (PSDB) vem perdendo intenções de voto nas pesquisas.

E ainda sofremos com os discursos “sem pé nem cabeça” de um Ciro Gomes da vida sobre as possíveis medidas econômicas a serem adotadas em um eventual governo, tais quais, a revogação da PEC do teto dos gastos e a limitação do pagamento dos juros da dívida pública. Você já parou para pensar para onde vão seus títulos do Tesouro Direto se ele realmente implantar o que pensa? Para não falar das diatribes de Jair Bolsonaro, como, para citar um exemplo, o uso de lança-chamas contra invasores de propriedades. Certamente, o mercado olha e não gosta.

Sem visibilidade sobre o futuro da política econômica e, mais especificamente, sobre a capacidade de implementação das reformas fiscais, todos cobram mais prêmio para estar investidos em ativos brasileiros.

Como resultado, observamos nas últimas semanas uma forte alta do dólar contra o real e dos juros de mercado.

A parte boa é que o diagnóstico não significa a inexistência de boas oportunidades. Ao contrário. Elas existem e algumas estão bastante evidentes na curva de juros brasileira. O foco desta publicação é justamente apresentar algumas oportunidades. Mais especificamente, vou propor a compra de dois títulos do Tesouro.

Para facilitar o entendimento, uma curva de juros nada mais é do que a linha que une os juros esperados pelo mercado para cada vencimento, que se reflete nos preços dos títulos para cada prazo. Para ter uma ideia, veja, colocamos num mesmo gráfico, a curva em fevereiro de 2018 e a curva de maio, após os eventos recentes.

Note como, de fevereiro para maio, a curva de juros “abriu” – os juros esperados para cada ponto (vértice) da curva são maiores em maio do que eram em fevereiro. A leitura que se faz desta imagem é que, em maio, os agentes esperam juros maiores para o futuro.

Da forma que os preços (PUs) dos títulos de pré-fixados (LTNs) e indexados à inflação (NTN-Bs) são calculados, quanto maiores os juros, menor seu preço. Assim, quando a curva de juros se abre, os títulos se desvalorizam. O inverso é o verdadeiro, também. Quando os juros caem (a curva fecha) e os preços dos títulos sobem.

Diante do analisado, o mais óbvio neste momento parece ser se posicionar em títulos da renda fixa, principalmente na parte intermediária da curva de juros.

De forma muito simples e direta, não faz sentido termos juros de 6,5% ao ano agora contra 11% em dois anos e meio. Temos hoje uma combinação de inflação ainda muito baixa e atividade combalida, de tal sorte que o aperto monetário embutido hoje na curva escapa do razoável. Há muito prêmio a ser capturado, com pouco risco.

Cumpre também dizer que a disparada recente do câmbio tornou os ativos brasileiros mais baratos ao olhar do estrangeiro, e isso pode atrair fluxo comprador para cá tão logo passe a recente turbulência sobre emergentes. A partir de agosto, o calendário eleitoral passa a dominar a agenda, mas ainda não é a hora.

A decisão racional em termos de alocação de ativos, portanto, parece ser de reduzir o posicionamento em dólar e comprar um pouco mais de renda fixa, ali pelo meio da curva.

Mas vamos investir quanto nessa posição? Pouco.

É uma posição que poderá chacoalhar muito ao longo do caminho e não queremos que você perca seu sono no meio da jornada por obra da volatilidade do mercado. Lembre-se, se a posição chacoalha, você pode se ver encurralado se precisar de capital justamente quando o mercado está contra você e, acredite, Murphy é implacável, você vai precisar de grana justamente quando não for um bom momento para vender – só coloque aqui aquele dinheiro que você, com certeza não precisará em uma emergência.

Direto ao Ponto

Sugerimos que dois terços do seu portfólio estejam alocados em renda fixa. Destes dois terços, 90% (60% do total) deve ficar alocado em LFTs. Os outros 10% (7% do total) devem ser alocados em NTN-Bs (Tesouro IPCA+) 2024.

Como Comprar

A compra de títulos públicos é bem simples, fácil e rápida. Basta abrir cadastro em uma corretora para ter acesso ao Tesouro Direto e emitir ordem de compra de acordo com as instruções de seu corretor.

O que pode dar errado?

Para as LFTs, enxergamos pouco, ou nenhum risco – de fato, é considerado o investimento livre de risco no Brasil.

No caso da NTN-B, há uma alta sensibilidade às variações das taxas de juros e, caso o mercado vá contra sua posição (juros subam mais), haverá uma significativa queda no preço dos papéis. Desde que você tenha capacidade e disposição para manter os títulos em carteira até seu vencimento, e siga a alocação proposta anteriormente, esse risco está devidamente mitigado.

As taxas de juros podem variar por inúmeros fatores, como a confiança dos agentes econômicos, a situação da economia mundial e local, as propostas e metas econômicas da Fazenda e do Banco Central e expectativas inflacionárias correntes e futuras.

Para ambos os papéis, há a confiança na solvência do Tesouro Nacional: é muito remota a chance do governo brasileiro dar calote em sua dívida interna e é mais provável que haja uma “correção” da dívida via hiperinflação. Desde que os índices de inflação se mantenham independentes e sem viés, estamos absolutamente confortáveis com esse risco.

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