Setembro de 2018

Você quer viver de renda?

A primeira coisa que eu preciso dizer é: meu pai largou seu emprego (fixo) de diretor de banco para trabalhar de casa. Queria viver de renda, a partir do resultado dos seus trades e de suas estratégias com dividendos em Bolsa. Quebrou pouco tempo depois. Perdeu tudo o que tinha e mais um pouco. Deixou de herança um Corsa e um bocado de dívida.

Com o patrimônio, como se servisse generosamente de companhia, foi embora a harmonia familiar. Se o dinheiro não entra pela porta, o amor voa pela janela. Ficamos por muito tempo lambendo as feridas, algumas delas ainda abertas. Ele se foi antes que pudéssemos recuperar a situação anterior. Recaíram sobre mim a responsabilidade de devolver à mamãe uma condição financeira melhor e a culpa por não ter conseguido dar ao papai um fim de vida mais digno.

As linhas a seguir, portanto, e qualquer outra que eu venha a escrever sobre o tema, não compactuam, nem de longe, com a ideia de “viver de renda”. A proposta subsequente visa tão somente incrementar seus rendimentos mensais a partir da implementação de investimentos focados em dividendos ou pagamentos de cupom.

Apresento a seguir uma carteira focada em geração de rendimentos adicionais para o investimento.

Não se trata de um portfólio focado em ganho de capital, ou seja, de apreciação do principal. Hoje me volto ao pinga-pinga mensal ou mesmo semestral.

De maneira muito simples e até tradicional, vou separar a coisa em três classes de ativos, imaginando como o portfólio pode ser segmentado em termos de alocação do capital. Posteriormente, apresento a seleção de ativos propriamente dita, em cada uma das fatias do portfólio.

Para cada indicação, sem distinção, estou assumindo que você não precisará do dinheiro no curto prazo. Ou seja, sua reserva de emergência, tipicamente associada a seis meses de seus gastos, deve estar fora disso. Ela é outra coisa e precisa ser preservada e da qual não abro mão: reserva de emergência sempre em um fundo DI bem barato (taxa de adm inferior a 0,5% ao ano) ou no Tesouro Selic, a famosa LFT.

Considerando apenas a parcela do seu patrimônio que você gostaria de aplicar em estratégias de renda, minha proposta seria dividi-la em três partes menores:

(i) Renda fixa, com 50% de toda a estratégia com renda;

(ii) Ações de dividendos, com 30% dessa carteira; e

(iii) Fundos imobiliários, com 20%.

Feita essa divisão, exponho o que pode ser uma alocação em cada um dos nichos.

1. Renda Fixa: 50% da estratégia

Do total destinado à sua carteira de renda, metade (50%) pode ser direcionada à renda fixa.

Tipicamente, alocadores de recursos sugeririam também algum posicionamento em crédito privado com pagamentos de cupom interessantes.

Entendo e respeito aqueles que gostam de LCIs, LCAs, CDBs de bancos médios e debêntures incentivadas. Pessoalmente, porém, não gosto de crédito, em especial no Brasil. Entendo que a estratégia implica assunção de um risco não devidamente remunerado pelo retorno adicional a ser capturado. Aposte centavos para ganhar dólares, nunca o contrário.

A princípio, o crédito privado parece muito atrativo. Paga um pouquinho a mais que o soberano (títulos públicos) e, como são muitas vezes marcados na curva, não oferecem volatilidade. O investidor lê a falta de volatilidade como ausência de riscos e acaba magnetizado por aquela suposta atratividade. Subitamente, porém, pode ocorrer aquela surpresinha lá na frente.

Você se expõe a um risco de default (vulgo calote), com perda potencial de 100% do capital investido, para ganhar algumas migalhas sobre o CDI. Respeito os simpatizantes do crédito no Brasil, mas eu, Felipe, não acho que valha a pena.

Prefiro obedecer fielmente ao chamado Barbell Strategy, em que separamos o portfólio em dois grandes polos: de um lado, pouquíssimo risco, com muito capital; de outro, pouco capital, com muitíssimo risco. Nada no meio.

Por isso, a estratégia em renda fixa se concentra em papel soberano.

Uma alternativa de que gosto bastante é o Tesouro Prefixado com juros semestrais 2021.

Os títulos prefixados com juros semestrais (antigas NTN-Fs), conforme obviamente sugere o nome, pagam juros a cada seis meses, representando uma antecipação da rentabilidade contratada.

O consenso ainda não admite a retomada do ciclo de cortes depois de uma pausa. Ao contrário, a curva sugere que o próximo movimento é de alta lá na frente. Mas grandes investidores com muita expertise em trading de curva de juros já estão se posicionando para capturar eventuais novos cortes no juro básico.

Ainda que não seja certa a caminhada da Selic para 6% ao ano — e de fato não é —, a aposta no juro curto oferece uma matriz de payoff assimétrica e convidativa. Muito a ganhar, pouco a perder.

Caso não encontre título nesse vencimento no Tesouro Direto e/ou na sua corretora, procure replicar da maneira mais fidedigna possível a alocação sugerida.

Tributação

Os cupons distribuídos por títulos públicos são tributados conforme a tabela regressiva de renda fixa: nos primeiros seis meses (180 dias), os juros estão sujeitos a um Imposto de Renda de 22,5%; de 181 a 360 dias, o IR cai para 20%; de 361 a 720 dias, para 17,5%; e, após 702 dias, para 15%.

2. Ações de dividendos: 30% da estratégia

A alocação em ações pode ser dividida em papéis de qualidade, com histórico comprovado de boa pagadora de dividendos, de maneira a construir um portfólio diversificado. Uma de minhas preferidas e com a qual você pode começar a montar sua carteira é:

BB Seguridade (BBSE3)

Trata-se da maior corretora de seguros da América Latina. Criada no fim de 2012 a partir da divisão de seguros do Banco do Brasil, abriu seu capital na Bolsa em 29 de abril do ano seguinte e hoje, quase cinco anos depois, possui diferenciais competitivos relevantes que a tornam uma excelente pagadora de dividendos.

BBSE mantém um yield recorrente de aproximadamente 6,5%, o que é um ótimo retorno, considerando a opcionalidade de ganho na valorização das próprias ações. No setor de seguros, a barreira de entrada está concentrada na distribuição, aspecto que faz de BBSE a companhia com a maior rentabilidade no setor.

Sua parceria de exclusividade com o Banco do Brasil lhe proporciona uma base de ativos muito leve (“asset light”) que, em nossa visão, é a maior qualidade do negócio.

O destaque da distribuição dos produtos via BB permite à empresa manter a enorme qualidade no pagamento dos proventos, principalmente por dois motivos: (i) corretagem, que representa 40% dos lucros da companhia e possui baixíssimo custo; e (ii) float, que é quanto a empresa consegue gerar de rentabilidade – ROE (return on equity) superior a 50%.

Tributação

No caso de ações, os proventos costumam ser pagos em forma de juros sobre capital próprio, que estão sujeitos a um Imposto de Renda de 15% na fonte, ou em forma dos tradicionais dividendos, com maior apelo por serem isentos de imposto.

3. Fundos imobiliários: 20% da estratégia

Os fundos imobiliários podem responder por 20% da sua carteira de renda. Aqui, sugiro um dos meus favoritos com essa abordagem:

O VISC11 é um fundo recém-chegado à Bolsa, que estreou em 1º de novembro de 2017. Atualmente, é o melhor dentre os de shopping center, não só pela exposição ao setor (nosso preferido), mas também pela qualidade dos ativos, time de gestão, bom track record em M&A (fusões e aquisições), portfólio pulverizado e alinhamento de interesses entre gestores e cotistas.

O papel passou por uma oferta recente, a R$ 107 por cota, assim, entendemos que, no momento não faz sentido pagar muito acima disso. Vamos estabelecer um teto de R$ 110. Acima disso, podemos deixar um pouco de dinheiro na mesa no curto prazo. Mas isso não muda a nossa visão de que no médio prazo esse fundo trará boas-novas aos investidores via renda e ganho de capital.

Tributação

Uma das vantagens dessa modalidade de ativo é a isenção de Imposto de Renda sobre dividendos pagos para investidores pessoa física, desde que o FII atenda determinadas condições:

  • As cotas do fundo imobiliário em questão devem ser negociadas na Bolsa de Valores ou no mercado de balcão organizado;
  • O fundo deve ter, no mínimo, 50 cotistas;
  • O cotista em questão deve deter menos de 10% do total de cotas do FII ou receber rendimento inferior a 10% dos rendimentos auferidos pelo fundo. O investidor que detiver mais do que 10% será isento até esse limite, e a tributação incidirá apenas sobre os rendimentos inerentes às cotas que estiverem acima do referido percentual.

Não tem tempo para ler agora?

Envie o conteúdo Você quer viver de renda? para seu e-mail e leia mais tarde.

*Importante: O endereço de e-mail informado deve ser válido para que você possa receber o artigo em sua caixa de e-mail, bem como nossos conteúdos gratuitos sobre investimentos.