Como resolver um problema de US$ 4 trilhões?

Para esta edição, gostaria de abordar o que é considerado por muitos o tema de maior importância para os mercados em nível global: a alta dos juros nos EUA.

Como resolver um problema de US$ 4 trilhões?

Caro leitor,

Começo essa Resenha com um agradecimento a todos que enviaram sugestões de temas.

Para não fazer distinção entre um e outro, deixei para agradecer por aqui. Tenham certeza que li rigorosamente todas as ideias enviadas.

Para esta edição, gostaria de abordar o que é considerado por muitos o tema de maior importância para os mercados em nível global: a alta dos juros nos EUA.

Por que tanto barulho sobre isso?

1) Pois o juro zero é um dos maiores símbolos da maior era de injeção de liquidez nos mercados que se tem notícia.

2) Pois na próxima quarta-feira (16/12) o Federal Reserve se reune para decidir o futuro da taxa. E as apostas de que ele elevará o juro desta vez nunca estiveram tão altas.

3) Pois os títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries) são considerados a taxa livre de risco em termos absolutos.

É mais ou menos assim:

Os EUA são a maior economia do mundo, que dá lastro ao… dólar (!), a moeda mais líquida do mundo…

… ou seja, os EUA são os donos da máquina de imprimir dólares…

… isso posto, o risco de calote dos títulos americanos é o menor do mundo. Rating AAA.

Se o Tesouro americano ruir, todos os demais investimentos tendem a ir junto para o buraco. Afinal, se a opção de investimento de menor risco rende X%, as demais opções, mais arriscadas, tendem render X% + um prêmio pelo risco.

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Do contrário, nem teriam porque existir (mais risco com o retorno igual ou menor???). Grosso modo, todos os outros investimentos estão em algum grau relacionados à rentabilidade dessas notas.

Mas, cá entre nós, todos sabemos que na prática não existe tal coisa como risco zero.

No caso, basta olhar para o balanço do Federal Reserve nos últimos anos para entender o tamanho do problema:

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Para suavizar os impactos da crise de 2008, o Banco Central americano injetou vários trilhões de dólares na economia, inundando os mercados com liquidez.

Os ativos de risco agradeceram, mas o Fed gerou um problema. O retrato do seu balanço é enfático. De um padrão normalizado da ordem de US$ 900 bilhões em ativos, hoje o seu balanço agrega mais de US$ 4,5 trilhões em assets.

Chegou a hora de pagar essa conta.

Eu (e boa parte do mercado) sou capaz de apostar que o Fed subirá o juro na próxima quarta-feira.

Mas qual o impacto real disso? Quanto está no preço? Será que um aumento de 0,25 pontos-base no juro americano faz mesmo tanta bagunça nos mercados? E o dólar?

Conversei com nosso colega Jim Rickards, autor da série Strategic Intelligence, sobre isso.

Conselheiro da CIA para ameaças ao sistema financeiro e consultor do governo americano na crise de 2008, ele tem uma visão bem própria das particularidades que rondam essa decisão…

Desde que a taxa chegou ao atual patamar, em 2008, o Fed passou a implementar uma série de estímulos (na forma de pacotes denominados Quantitative Easing), incentivando a população a fazer empréstimos para, assim, reconstruir o patrimônio dos bancos afetados pela última grande crise financeira.

Se o Fed aumentar a taxa, portanto, o primeiro impacto é o encarecimento dos juros para os que estão endividados. Com efeito, a partir da constatação de Jim de que a economia dos EUA ainda não alcançou um crescimento autossustentável, não podemos descartar que no médio prazo o país enfrente uma recessão – daí sim com consequências mais drásticas para todo o planeta, tendo em vista que estamos falando da maior economia da Terra.

Mas atente para o seguinte dilema: o Fed já manifestou por diversas vezes que deseja mais inflação – algo em torno de 2%, bem distante dos 0,2% atuais.

Ou seja, o Fed deve aumentar os juros, mas também continua dizendo que quer mais inflação.

Juros mais altos, porém, sugerem impacto deflacionário, o que por sua vez torna mais curto o caminho da maior economia do mundo rumo à recessão.

Como o aumento da taxa pode funcionar?

Pelo menos na avaliação do Jim Rickards a coisa é bem clara: não pode.

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