Eu errei? A Virada ou o Calote?

Prepare-se para investir com bons retornos

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O cidadão que chega ao escritório da Empiricus, no epicentro financeiro de São Paulo, e o atravessa por completo após quatro fileiras de analistas, quase consegue ver minha calva cabeça escondida atrás de três monitores de 27 polegadas da Apple – o Rodolfo adora a Apple -, dois deles constantemente plugados no terminal Bloomberg.

Daí, possivelmente, interprete: “que coisa moderna e cosmopolita.”

Completo engano.

Não que eu negue esse meu lado nerd financista, 24×7 ligado nos mais parcos sinais emitidos pelo mundo capazes de afetar os mercados de capitais por aqui. Esse é o meu trabalho e não há como escapar de certas modernidades na época do high frequency trading.

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Mas minha alma, minhas questões mais íntimas, aquilo que efetivamente atina o sujeito, é caipira. Estou mais para Mazzaropi do que para Oliver Stone.

Embora nascido na Avenida Paulista, sou um sujeito da roça. Herança de minha mãe, nascida e criada no interioRRR – assim mesmo, caprichando no R – de Minas Gerais, na minúscula cidade de Senhora do Porto. É perto de Itabira, terra de Carlos Drummond.

Lá, cumpade meu Quelemém diz assim: “Aqui é aroeira. Pica-pau entorta o bico.”

Convivo ambivalentemente com essas duas figuras dentro de mim. Meu Animus é um gestor de ativos de risco – meu pai era um trader/investidor de ações. Minha Anima é bucólica.

Citando Clarice Lispector, “sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de quando e como você me ver passar.”

Do que estou falando exatamente?

Em setembro de 2015, lancei a tese batizada de Virada de Mão, em que a Empiricus, após vários anos pessimista com Bolsa, passava a identificar alternativas muito interessantes de compra de ações. O documento ainda está por aí, na internet, e você, caso tenha interesse, pode facilmente encontrá-lo através da busca por “Oportunidades de uma Vida”.

Para o sujeito que havia escrito O Fim do Brasil, aquilo foi visto como uma traição. E como a Empiricus cresceu um pouquinho e está na vitrine, desperta a ira de alguns.

Logo a torcida brasileira se uniu para que estivéssemos errado. Uma turma mais da pesada (e sem muito o que fazer) parecia torcer para que a Bolsa caísse para poder esfregar na nossa cara a suposta irresponsabilidade daquelas recomendações de ações.

“Ah, agora vamos pegar estes marqueteiros!”

Eu obviamente não ligo. Na epígrafe do livro O Fim do Brasil, eu já citava Taleb: “se meus detratores me conhecessem melhor, me odiariam ainda mais.”

À época do lançamento da tal Virada de Mão, o Ibovespa girava em torno de 45 mil pontos. Agora, com o índice na casa de 41 mil pontos, emerge o questionamento inevitável: teria a Empiricus errado sua tese de setembro de 2015?

E a coisa agora ficou pior para nossa consultoria. Aqueles mesmos loucos que haviam recomendado exposição em Bolsa hoje sugerem que a trajetória da dívida pública é insustentável, no que poderia resultar até mesmo em Calote soberano.

“Ora, quanta incoerência e irresponsabilidade. Essa empresa vai à lona com esse tipo de traição a seus leitores.”

Deixe que a frieza dos dados fale por si. Torcidas e ideologias informam pouco nessas horas.

Permita-me versar brevemente sobre o calote – caso você não tenha ainda visto a argumentação, confira o documento completo no link abaixo:

 

veja aqui o documento

 

A constatação da Empiricus é meramente aritmética. Ou o Brasil promove profundas reformas estruturais – o que parece pouco provável agora -, ou o PIB cresce em ritmo chinês – alguma chance? – ou o País não terá condições de honrar com seus compromissos financeiros em poucos anos, a não ser que entre num processo hiperinflacionário.

A tese da Moratória começou como um ultraje da Empiricus ao establishment. E agora – vejam só – já é quase visão de consenso. Como as coisas são curiosas, não é mesmo?

Conforme escreveu a jornalista Malu Gaspar da revista Piauí, “quem acompanha o debate econômico no Brasil começou a perceber uma inflexão no discurso dos analistas mais críticos ao governo de Dilma Rousseff. Desastre fiscal, dívida explosiva, destruição de valor e até um alçapão que nos espera debaixo do fundo do poço passaram a compor o repertório da crise. A expressão ainda oculta nesse caldeirão de jargões econômicos é… moratória.”

Nessa mesma matéria, meu ídolo Marcos Lisboa diz assim: “A continuar nesse ritmo, vai chegar uma hora em que o governo vai ter de deixar de pagar alguma coisa – o funcionalismo, os juros, os fornecedores ou os depósitos judiciais. Ou, então, emitir moeda para pagar a dívida e aumentar a inflação”.

Dado que as reformas estruturais estão descartadas, o PIB não deve crescer e o calote seria uma grande tragédia (embora eu não o desconsidere), um processo hiperinflacionário me parece o mais provável à frente.

É aí que entra a necessidade de se entender a efetiva atratividade das ações nesse cenário. Esse ponto é fundamental, pois ele casa, com precisão cirúrgica, a ideia do Calote com a Virada de Mão, eliminando qualquer suposta incoerência.

Destarte, eu preciso lhe perguntar: num cenário de eventual calote dos títulos públicos, onde você preferiria estar: na renda fixa ou nas ações?

Num ambiente de grande reset da renda fixa, essa seria afetada na veia, diretamente. Enquanto isso, sobrariam as empresas. E, como as ações são representações da menor fração do capital de empresas, você estaria em vantagem.

As pessoas continuariam indo fazer compras no Pão de Açúcar, consumindo gás da Comgás, comprando sandálias da Grendene e bebendo Skol ou Brahma da AmBev – nem que fosse apenas para afogar as mágoas do Calote.

E no caso da hiperinflação? Ora, ao investidor interessam retornos reais, ou seja, descontados a inflação. Na renda fixa – e eu não estou aqui falando dos títulos protegidos da inflação (esses ainda me parecem excelentes alternativas; em especial os curtos) -, os rendimentos seriam totalmente corroídos pela inflação, levando a perdas para o investidor.

As ações, por serem pedaços de empresas, são ativos reais e, portanto, em alguma instância, protegidos da inflação – racional semelhante vale para os fundos imobiliários.

Conforme muito bem resumiram Lywal Salles Filho e Fernando Lovisotto, da Vinci, em artigo no Valor de título A preservação de capital em cenários de incerteza: “na renda variável, por exemplo, ainda que a alocação deva ser menor se formos mais conservadores, a parcela aplicada em empresas que pagam bons dividendos tende a proteger-nos da inflação, uma vez que essas empresas são geralmente maduras, têm negócios mais previsíveis e, ainda, uma boa chance de ter receitas corrigidas acima da inflação.”

Em síntese, ações das companhias com o chamado pricing power, o poder de remarcar preços, são bons hedges contra a inflação. Quem você acha que conseguiria proteger-se melhor da escalada de preços: o cidadão comum ou a AmBev?

Isso desqualifica por completo qualquer tentativa de associação à incoerência entre as teses de Virada de Mão e o Calote. Não é que elas simplesmente podem coexistir sem desarmonia. É mais que isso: elas são totalmente complementares e associadas.

Mas, dada a performance do Ibovespa nos últimos meses, eu preciso responder ainda se não erramos ao recomendar ações em setembro de 2015.

Então vamos lá!

Quando escrevemos sobre as Oportunidades de uma Vida há cerca de cinco meses, obviamente não esperávamos boa performance de TODAS as ações em Bolsa.

O texto era cristalino ao dizer que: “identifico quatro – e apenas quatro – oportunidades efetivas de multiplicação de capital, sob perfil de risco adequado. É justamente nessas quatro que vamos concentrar a maior parte de nossa alocação em Bolsa.”

Para relembrar melhor trechos daquela tese, pedíamos também 18 meses para materializar nossos racionais de investimento – esse é o tempo que considero mínimo para avaliação de aplicações em Bolsa; qualquer coisa inferior a isso é ficção ou aleatoriedade.

Mas pedir paciência na terra campeã mundial de juros talvez seja querer de mais.

Como andam as tais quatro sugestões até agora? Passemos uma por uma.

No dia 3 de setembro de 2015, recomendamos as ações de Itaúsa (ITSA4). À época, seu preço era de R$ 6,94 (cotação ajustada por proventos). Hoje, elas valem R$ 6,50. Ou seja, nesse intervalo, as perdas acumuladas são de -6,3%.

Uma semana depois, relacionamos os papéis de Kroton (KROT3) como uma oportunidade a ser aproveitada. Naquele momento, as ações estavam a R$ 8,57 – hoje valem R$ 9,53. Ganho, portanto, de +11,2% nesse período.

Já no dia 17 de setembro, sugerimos as ações de Natura (NATU3), então a R$ 20,79. Agora, estão avaliadas em R$ 26,28. Retorno formidável de +26,4%.

Para encerrar a lista de quatro oportunidades, incluímos as ações de Cetip (CTIP3), a R$ 31,79. Pouco tempo depois, encerramos a recomendação de Cetip, a R$ 38,00, com ganhos também importantes de +19,5%. Isso porque entendíamos que a oferta realizada pela BM&F Bovespa retirava potencial de valorização de longo prazo dos papéis.

Em seu lugar, introduzimos as ações de Guararapes (GUAR4), a R$ 44,01. A ideia era de que se tratava do nome mais barato em consumo e varejo no Brasil, com esforços de controle de custos e despesas gerando resultados ao longo de 2016. Estimamos potencial de valorização da ordem de +80%. Por ora, as ações valem R$ 44,70, subindo +1,6% desde nossa recomendação.

Ou seja, o ganho médio por recomendação foi de 13,1%, em apenas cinco meses. Esse foi o retorno de quem seguiu cada uma das sugestões, com pesos idênticos entre as ações. Isso é muito superior a qualquer outra aplicação convencional nesse horizonte de tempo. Evidentemente, o sujeito pode ter ganhado mais ou menos do que isso, caso tenha feito ponderações diferentes entre os papéis supracitados – mas isso já não nos pertence.

Preciso ser um pouco mais rigoroso comigo mesmo. Embora eu tenha salientado enfaticamente a necessidade de concentrar a maior parte dos investimentos nas ações mencionadas, deixei claro também que achava o Ibovespa barato em torno de 45 mil pontos, valendo a montagem de posição àqueles com horizonte de médio e longo prazo.

Daí derivava a interpretação de que BOVA11 (fundo que basicamente replica a carteira teórica do Ibovespa) também deveria incorporar a lista de recomendações. Perfeito. Concordo com isso e não me furto à inclusão.

Em 2 de setembro de 2015, dia do lançamento original da tese da Virada de Mão, o índice marcava 46.463 pontos. Desde então, cai -10,6%.

Ainda assim, mesmo com a listagem de BOVA11 entre a lista de preferências, o ganho médio acumulado é de 8,36%, em cinco meses. Isso é muito mais do que as aplicações de renda fixa tradicionais.

Não estou dizendo que nós já acertamos – mesmo por que ainda vejo muito potencial de valorização para cada uma das recomendações.

O problema (e a solução) da renda variável é que ela varia. Pode ser que amanhã todos esses ganhos sejam corroídos e as recomendações se provem um desastre. Ou pode ser o contrário…

Não há heróis neste nosso mercado. O acertador de hoje é o grande vilão de amanhã. E vice-versa.

Não há heróis, mas aroeiras há.

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