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Trouxemos Daniel Kahneman ao Brasil na última terça-feira.

Caro leitor,

Trouxemos Daniel Kahneman ao Brasil na última terça-feira.

Eu poderia começar essa resenha de infinitas formas, mas começo com essa frase pois cada letra tem uma dose cavalar de orgulho.

Tivemos um prêmio Nobel, durante mais de uma hora, dedicado à nossa plateia.

Muitos de nós já tínhamos lido seus livros. Já sabíamos, portanto, que somos irracionais na maioria de nossas decisões.

Já sabíamos também que temos um sistema 1 (“fast thinking”), que é nosso modo primitivo de pensar; e um sistema 2 (“slow thinking”), que planeja e analisa. E que temos que treinar “a ativação” do sistema 2 para não fazer besteira atrás de besteira.

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Mas, mesmo assim, foi bom ouvir. E aprender ainda mais – ao vivo. Kahneman fala como um professor, com sua leve rouquidão da idade e com pausas e ênfases perfeitamente colocadas. Não dificulta o discurso, mas também não subestima sua inteligência.

Tive a sensação de que não gostaria de estar em nenhum outro lugar do mundo, senão ali, ouvindo Kahneman falar sobre economia comportamental.

Pode parecer exagerado, mas Kahneman é uma das (se não a) maiores autoridades do planeta em comportamento humano aplicado à economia. Ele sabe falar o que tem ressonância nas pessoas.

Ao mencionar os principais erros dos investidores, ele cutucou a plateia, composta justamente por investidores. E tudo aquilo que ele dizia fazia todo sentido.
Vou dar alguns exemplos:

Quando mais ideias os investidores têm, mais dinheiro eles perdem.

Quando temos uma ideia para nossos investimentos, acreditamos nessa ideia mais do que deveríamos.

“As pessoas acreditam em sua ideia e agem movidos por ela, mesmo quando a ideia não é boa”.

Na verdade, o que Kahneman diz é que buscamos razões para fundamentar a ideias que já temos. No entanto, tanto a ideia como as razões são ruins, baseadas em aspectos emocionais.

Tendemos a pensar que a ideia foi tomada pelo nosso sistema 2, mas, na verdade, foram resultado de pura testosterona, um conselho ruim ou uma motivação emocional.

Profissionais do mercado financeiro são melhores do que investidores “individuais”. Mas são piores do que pensam que são.

O exemplo dado por Kahneman, nesse caso, não poderia ser mais claro: os profissionais acreditam que é muito difícil, senão impossível, saber o que vai acontecer com o mercado. No entanto, acreditam que ELES mesmos vão acertar o que vai acontecer com o mercado.

Os dois exemplos acima estão ligados ao excesso de confiança, causa de muitas perdas de investidores.

Kahneman explicou um pouco melhor a razão desse comportamento, e vou contar de forma resumida:

A confiança é, basicamente, uma indicação da coerência e da qualidade da história que contamos a nós mesmos. Se a história é boa e consistente, acreditamos. Se a historia não é boa, é complicada e tem contradições internas, então a nossa confiança é baixa.

Mas este é o ponto: é muito fácil, para nossa mente, criar historias boas a partir do nada.

”Frequentemente, quando estamos muito confiantes, na verdade temos pouca razão em sentir essa confiança”, nos disse Kahneman.


ito isso, a conclusão de Kahneman foi perfeita. Ele nos disse que é maravilhoso para a sociedade que existam pessoas muito confiantes. São pessoas que empreendem. E isso é ótimo para a economia. Otimismo e confiança são o motor do capitalismo. As pessoas que fazem a diferença no mundo são otimistas e exageradamente confiantes, não é mesmo?

“Mas eu, pessoalmente, não quero que meu consultor financeiro seja excessivamente otimista ou excessivamente confiante”, nos disse Kahneman. Ele não quer otimismo ou autoconfiança nas decisões que envolvem o seu dinheiro.

Nos últimos três dias, a todo momento penso em trechos da palestra do Kahneman. O evento é assunto até hoje aqui na Empiricus – e acredito que será para sempre. Não apenas pelo orgulho que sentimos de termos trazido um Nobel para o Brasil. Mas, principalmente, por termos sentido que estamos alinhados com ele.

Sabemos que esse alinhamento não é ocasional. E não é uma novidade. Kahneman dá nome a uma de nossas salas de reunião. Kahneman é a letra “K” do método TBK , do Felipe Miranda. Mas ficamos extremamente felizes, pois foi como se tivéssemos recebido um “selo Kahneman” de que nossos clientes estão em boas mãos.

A Empiricus não é excessivamente confiante.

Quantas vezes você já ouviu o Felipe dizer que não sabe o que vai acontecer? E que pensa nas melhores estratégias de investimento considerando justamente que não sabe o que vai acontecer?
A Empiricus analisa os riscos.

Kahneman nos explicou, de forma brilhante e cômica, por que as pessoas tomam riscos:

“Existe uma teoria que explica isso e essa teoria é muito simples: as pessoas tomam riscos porque não sabem que estão tomando”.

Na verdade, as pessoas não sabem as probabilidades de sucesso, ele disse. Temos uma ideia errada sobre os riscos, o que nos encoraja a tomá-los. Ou seja, tomamos risco achando que as chances de sucesso são maiores do que realmente são.

Eu consigo listar mentalmente, neste momento, três ou quatro situações em que tomei riscos em minha vida, digamos, de forma inconsequente.

Mas isso não pode acontecer com o cliente que lê a Empiricus.

Definitivamente, o nosso trabalho é avaliar, diariamente, onde nossos clientes vão pisar. E alertá-los sobre as melhores oportunidades que enxergamos – como é o caso desta aqui -, sempre alertando sobre os riscos.

Foi o que sempre fizemos. É o que faremos amanhã. E depois. Isso é parte de nosso compromisso com você.

Para concluir esta resenha especial do nosso evento “Game Changers”, quero deixar a vocês mais 5 momentos do evento:

1) Profissionais tomam decisões melhores porque têm uma visão mais ampla do mercado

Basicamente, Kahneman diz que o profissional não vê a perda como um desastre, nem o ganho não é uma maravilha. Como tem uma visão mais geral, com um maior distanciamento, tende a ter um resultado muito melhor ao longo do tempo.

Por outro lado, investidores não profissionais costumam pensar em cada uma de suas ações individualmente. Eles sabem qual ação é uma “winners” e qual é uma “loser”. Mas isso não deveria fazer diferença, diz Kahenman.

Se precisam vender uma ação, as pessoas tendem a vender as “winners”. No entanto, as ganhadoras são as melhores e não deveriam ser vendidas.

Complementando:

2) Investidores operam mais do que deveriam. E na maioria das vezes perdem dinheiro. Compram e vendem na hora errada.

Estudos mostram que, em geral, se um investidor tem uma carteira de ações e vende uma parte das ações, aquelas que foram vendidas performam melhor do que as remanescentes.

Isso acontece justamente porque tendemos a vender ações que já subiram bastante e manter as ruins, que estão com performances péssimas.

Lembrando que:

3) Quando um pequeno investidor toma uma decisão errada, em geral há um expert do outro lado. Quando o amador vende, o profissional é quem compra. Quando um amador compra, o profissional vende. 

4) As pessoas têm duas vezes mais aversão à perda do que felicidade com o ganho.

Essa afirmação de Kahneman é bem mais conhecida e, basicamente, significa que tratamos ganho e perda diferentemente. A dor da perda é mais intensa do que o prazer de ganhar em proporção de 2 para 1. Isso faz com que tomemos decisões ruins como investidores.

Vale a pena reproduzir aqui dois rápidos exercícios Kahneman fez conosco:

Você tem duas opções: Perder US$ 900 com certeza, ou apostar com 90% de chance de perder US$ 1.000 e 10% de chance de não perder nada. O que você faz? 85% a 90% das pessoas prefere arriscar.

E o que você faria se pudesse ter US$ 900 com certeza, ou apostar com 90% de chance de ganhar US$ 1.000 e 10% de chance de não ganhar nada? A maioria das pessoas opta pela primeira opção. Ou seja, não há um padrão racional de comportamento.

Vamos agora jogar cara ou coroa. As regras são: se der cara, você perde R$ 100. Se der coroa, você ganha R$ 200. Se eu disser que vamos jogar apenas uma vez, você topa? E se eu disser que vamos jogar dez vezes?

Analise a racionalidade de sua resposta.

5) Pessoas que checam sua carteira de ações todos os dias tendem a ter resultados piores do que as que não checam.

Quem olha todos os dias tem mais tendência de entrar em pânico e cometer erros.

Em geral, pessoas que olham sua carteira diariamente têm resultados 2% a 2,5% (ao ano) inferiores ao das pessoas que não fazem isso.

Por hoje, encerro aqui. Se você quiser ler mais, acompanhe o relatório Você Investidor . Vou trazer mais discussões de economia comportamental nos próximos meses.

Um abraço,

Olivia Alonso

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