Manifesto por um novo modelo de recomendações de investimento

É muito fácil tecer comentários descompromissados se você não é impactado, direta ou indiretamente, por aquilo.

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Uma opinião sem exposição não tem validade alguma. A frase é de Nassim Taleb. A esta altura, talvez seja desnecessário dizer que eu compactuo com ela.

É muito fácil tecer comentários descompromissados se você não é impactado, direta ou indiretamente, por aquilo.

Eu recomendo uma ação. Se ela sobe ou não sobe, nada me importa. Eu continuo o meu trabalho, sem ganhar ou perder nada além do típico salário mensal. Qual a validade disso? Qual o incentivo de se fazer uma boa análise?

Um dos princípios mais básicos da economia, que você encontra inclusive nas primeiras páginas dos livros de introdução à Ciência Jovem, é de que as pessoas respondem a incentivos.

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Também está nos livros-texto o trade-off clássico entre trabalho e lazer. É um dos dilemas tradicionais da microeconomia e talvez o mais emblemático da Economia do Trabalho: as pessoas gostam de lazer; as pessoas não gostam de trabalho.

Então, para o caso específico da análise de investimentos, se as pessoas respondem a incentivos e não gostam de trabalho, os analistas tendem a produzir recomendações ruins para aplicar seu dinheiro, quando não estão expostos aquilo. Isso porque as boas descobertas de investimento exigem muito esforço, diligência, obediência ao método, pesquisa, modelagem, conhecimento qualitativo da estratégia de negócios, etc.

Há algum tempo escrevi explicitamente sobre isto: como a indústria de análise no Brasil está subvertida.

Explico melhor meu ponto.

Desta vez, não falo do problema clássico – este já devidamente documentado por aí – de conflito de interesses da indústria tradicional, em que o analista de banco recomenda o IPO da empresa ZWYX3 porque a instituição financeira coordenadora da oferta está ganhando dezenas de milhões de reais pela operação.

Trato de algo pouco abordado, às margens da imprensa supostamente especializada e mesmo dos diálogos entre os “profissionais”. Falo especificamente das recomendações sem exposição.

Hoje, a regulamentação, definida pela Apimec, órgão subordinado à CVM mas com competência para fiscalização e enforcement das regras sobre os analistas, atua fortemente no sentido de inibir aqueles que produzem recomendações de carregarem posições na física.

Há um sentido claro e objetivo nisso. Se um analista detém uma ação, ele pode ser induzido a produzir relatórios favoráveis àquela determinada empresa, de modo a atrair novos compradores e valorizar o ativo que ele mesmo detém em Carteira. Há de se reconhecer esse ponto.

Entretanto, ao dificultar o acesso a ações pelos analistas, a Apimec/CVM esteriliza a verdadeira análise, tornando-a pasteurizada. Sob a égide de uma suposta independência, por não nutrir laços diretos com aquela ação, o analista acaba opinando sobre algo com que não tem nenhuma ligação. Falo de ZWYX3 como se falasse do conflito na Palestina: sua opinião não tem impacto direto pra você – embora, claro, possa ter para seus clientes…mas quem se importa, não é mesmo?

Pense bem…

O que você preferiria? Comprar uma ação recomendada por um analista que nunca comprou uma ação na vida? Ou comprar uma ação recomendada por uma analista que diz assim: “olha, eu comprei esta ação pra mim, porque eu acho que ela tem potencial. Acho que você deveria comprar também. Afinal, se não achasse, não compraria pra mim. Estou lhe recomendando exatamente a mesma coisa que estou fazendo pra mim”?

Nesse sentido, eu aprecio muito mais as análises dos fundos de investimento do que aquelas produzidas pelos bancos e pelas corretoras. No fundo de investimento, a conclusão de que uma ação é boa (ou ruim) resulta num posicionamento prático, de compra daquele papel, com consequências futuras (lucro ou prejuízo) para o próprio fundo. No banco/corretora, o analista recomenda e, se a ação subir ou cair, não há desdobramento algum – o sujeito continua recebendo o mesmo salário, repassando todo o potencial prejuízo ao cliente.

Honestamente, eu acho o problema gravíssimo. As decisões de investimento mudam completamente quando e se você está disposto a colocar “o seu na reta”.

Você acha que todos os analistas que recomendaram ações do Eike Batista por tanto tempo o fariam para investimento próprio? Os analistas do Credit Suisse teriam sugerido a compra de ações da Agrenco se fossem obrigados a comprar na física, seguindo suas próprias recomendações? As agências de rating teriam atribuído nota triplo A ao crédito subprime?

Eu tenho uma proposta pragmática para isso: que a atual regulamentação sobre analistas de investimento seja jogada no lixo. Ela serve apenas para aumentar os conflitos de interesse e a leniência na cobertura de ações.

Em vez de dificultar a compra e venda de ações pelos analistas, o órgão regulador deveria incentivá-lo, criando regras para que parte da remuneração da categoria estivesse diretamente atrelada à performance das recomendações; ou mesmo que parte da compensação anual deste pessoal fosse feita com as ações por ele sugeridas.

Mas eu sugerir isso à CVM e à Apimec é, guardadas as devidas proporções, como a Folha pedir a renúncia de Dilma. Nunca vai acontecer. Dependo de um terceiro e, portanto, não posso contar com isso. Não está ao meu alcance.

Felizmente, há algo que eu posso fazer. E, com efeito, estamos fazendo. Todos os analistas da Empiricus têm parte relevante de sua remuneração variável atrelada à performance de suas recomendações. Assim, acabam tendo exposição direta (bônus ou não bônus) à qualidade das sugestões produzidas.

O Bruce, com suas Melhores Ações da Bolsa, precisa superar o Ibovespa em determinado intervalo de tempo. O Carlos Herrera, em suas Vacas Leiteiras, tem um benchmark ligado a dividendos. O Max, em suas Microcaps, luta contra um ETF de empresas pequenas. A Marília, com seu foco em renda fixa, deve bater o CDI. E por ai vai…

A Empiricus não somente goza de total independência para produção de conteúdo, pois não tem nenhuma outra relação com as empresas das quais falamos, de modo que estamos 100% limpos de qualquer conflito de interesse.

Há algo mais: nosso time de analistas é diretamente impactado pela qualidade de suas recomendações.

Falamos o que pensamos, desprovidos de qualquer rabo preso. Mas isso não basta. Precisamos ser afetados por aquilo que falamos. Caso contrário, fica muito fácil.

Esse elemento está na essência da Companhia. Reflete todo um arcabouço ético fundamental. Somos irritantemente chatos conosco.

Isso já traz uma vantagem importante. Mas desta vez resolvemos ir além. Para reforçar a primeira frase deste texto, fomos atrás do máximo de exposição que podemos às nossas próprias recomendações.

Caio Mesquita investirá R$ 250 mil nestas ações, escolhidas com precisão cirúrgica por Max Bohm após meses de garimpo.

O presidente da Empiricus está 100% alinhado com as recomendações da Casa, investindo seu próprio dinheiro.

Evidentemente, se trata, sim, de uma questão ética. Mas não é só. Ele não faria isso se não tivesse convicção do potencial de multiplicação de capital à frente.

Pondo a nossa pele em jogo, nós nos colocamos do seu lado.

Está aí a chance de você se colocar no nosso.

Um abraço,
Felipe Miranda

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