Michel alinhado

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O título do texto não é uma referência às boas partidas de Michel Bastos, alinhado como quarto homem de meio-campo em sua época de Lyon.

Falo de assunto um pouco menos sério do que o futebol: o cenário político-econômico brasileiro nos próximos meses e anos. Infelizmente, ainda tenho o péssimo hábito do bom-humor, mesmo nos momentos mais adversos. Grace under fire, diria a série televisiva da ABC durante os 90s.

Há uma espécie de fato-estilizado por aí de que o PMDB representa os verdadeiros políticos. Os demais são principiantes. Jovens escriturários recém-chegados ao Banco Garantia.

Não sei como será o pós-Dilma. A esta altura dos acontecimentos, tampouco sei se haverá mesmo pós-Dilma antes de 2018. Também sou incapaz de responder se, lá na frente, o TSE julgará desfavoravelmente a chapa Dilma-Temer, inviabilizando um governo do pmdbista em alguns meses – deixo essa última questão para ser julgada pelas devidas instituições incumbidas, pois nelas acredito. Não há outro caminho no Estado democrático. Refraseio Maquiável: aos amigos e aos inimigos, a lei. Apenas ela.

Como pode ter notado, sou um expert em saber o que não sei. Orgulho-me disso. Talvez seja minha principal virtude.

Ainda que valha a máxima lugar-comum de Sócrates, cuja explicitação se faz aqui desnecessária, tenho uma convicção: de que Michel Temer poderia fazer um Governo muito melhor do que supõe o consenso de mercado, realizando as reformas necessárias e pavimentando a via para efetivo processo de valorização vigoroso dos ativos brasileiros.

Destarte, um esclarecimento imperativo: tenho nojo do fisiologismo, odeio o Eduardo Cunha e o Renan Calheiros e, sim, li todas as notícias da Lava Jato associadas ao PMDB. Não é disso que estou falando. Escrevo com viés pragmático, interessado principalmente nas possibilidades de investimento de meus clientes. Esse é o meu trabalho. Esse é o foco deste texto. Eu não votei, não voto, nem votarei no PMDB. Ponto final.

Retomo.

Então, por que trato dessa possibilidade positiva?

Porque o PMDB, naquilo que ficou conhecido como Plano Temer 1, foi o único partido capaz de ouvir a voz das ruas e alinhar-se com o que há de efetivamente novo e importante no debate político brasileiro. Mais do que isso, representa aquilo que, no meu entendimento, se faz necessário para o Brasil entrar na rota do crescimento: a adoção de um regime efetivamente liberal.

A tal Ponte para o Futuro simboliza, essencialmente, um programa típico da direita liberal – e eu acho isso ótimo.

Veja que nem mesmo o PSDB, com sua verve esquerdopata social-democrata, que seria a antítese natural à tese  lulopetista, foi capaz de entender a mensagem recente.

A única síntese possível a partir do embate contra o Estado inchado, os subsídios excessivos, o crédito mais barato para os amigos do rei, a promiscuidade entre o público e o privado, o viés inflacionário, a gestão perdulária do recurso público, a falta de meritrocracia emerge a partir da simbólica e material antítese desse modelo, que certamente não é o welfare estate social democrata sueco.

Conforme muito bem definiu em comentário recente Luiz Felipe Pondé, de quem orgulhosamente fui aluno em dois cursos de filosofia, o único elemento novo significativo no debate político brasileiro é o rompimento da dicotomia clássica entre a direita autoritária fascistóide e a esquerda “boazinha”, que finge-se de vovozinha para, como um grande lobo mau, destruir o orçamento público, os indicadores de produtividade e a estabilidade de preços.

Há que se distinguir a proposta da visão estereotipada do neoliberalismo do Consenso de Washington e mesmo da visão já ultrapassada de Perry Anderson sobre a questão, tipicamente associadas ao entreguismo ao capital estrangeiro, ao Estado mínimo e ao aumento do desemprego.

Ao referir-me ao liberalismo, falo, de forma curta e direta, basicamente de duas coisas: do aumento da possibilidade de escolhas e da perseguição implacável da igualdade de oportunidades. A isso, poderia somar o respeito aos contratos, o direito inabalável à propriedade privada, a obediência às sinalizações do sistema de preços e um Governo que apoie tudo isso. Isso resume a coisa.

Se quisermos especificar o caso brasileiro, falaremos de um amplo programa de privatização, incluindo ai possivelmente a Petrobras ou, ao menos, parte dela, pela adoção do Orçamento Base-Zero em nível federal, pelas reformas da Previdência, Tributária e Trabalhista, por um programa obstinado de aumento da produtividade sob a égide da meritocracia e por um crível projeto de modernização da infraestrutura – tudo isso circunscrito ao clássico tripé macroeconômico de respeito efetivo ao sistema de metas de inflação, de austeridade fiscal e regime de câmbio flutuante.

Além, claro, de acabarmos em definitivo com os amigos do rei e com a promiscuidade na escolha de privilégios e subsídios sem critério. Como diria o ídolo Marcos Lisboa, todos os iguais pagam o mesmo juro e o mesmo imposto. Simples assim,

Temos de por fim ao modelo que nos levou à ruína e enterrá-lo a sete palmos do chão.

Conforme definiu Gustavo Franco, com a precisão e o brilhantismo que lhe são característicos, “muitas doutrinas de boa aparência e reputação aparentemente ilibada foram construídas sobre a simples e perigosa ideia de que o dinheiro da Viúva não tem dono, cujo patrocínio é atribuído de forma involuntária a John Maynard Keynes, o genial economista inglês, pai da macroeconomia moderna. Será sempre instigante especular sobre as razões pelas quais o pobre lorde Keynes – um grande herói do establishment, que, com orgulho, dizia que luta de classes o encontraria convicto ao lado da burguesia educada – se tornou um objeto de apropriação indébita por parte da heterodoxia inflacionista brasileira e latino-americana.”

Numa adaptação macunaímica do clássico de Churchill, o liberalismo é a pior filosofia política existente, depois de todas as outras.

Michel Temer entendeu isso.

Eu acredito no rali do impeachment, mesmo no pós-Dilma.

No meio do caminho, porém, pode-se preparar: haverá sangue, suor e lágrimas. Apertem os cintos. Felizmente, a bonança talvez nos espere depois da tempestade.

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