O RH quer ter uma conversinha com você

Um de meus amigos de infância trabalhava na Page Personnel. Muito solícito e cordial, talvez em retribuição àquela assistência maravilhosa na final do campeonato do Arqui em 1994 (que passe, hein Paulinho?), ele me convidou para uma entrevista.

O RH quer ter uma conversinha com você

Um de meus amigos de infância trabalhava na Page Personnel. Muito solícito e cordial, talvez em retribuição àquela assistência maravilhosa na final do campeonato do Arqui em 1994 (que passe, hein Paulinho?), ele me convidou para uma entrevista.

Eu não procurava emprego, mas ele insistiu. Dizia – tem gosto para tudo nesta vida – que eu poderia encontrar algo realmente bom com a ajuda de um headhunter.

“Mas não vai ser comigo. Aqui contratamos só até o nível de gerência. Quando é pra cima, preciso encaminhar para a Michael Page. Vem aqui uma meia-hora antes. A gente troca uma ideia, fala umas besteiras e depois você sobe pra conversar com a Márcia.”

Pausa. Esclarecimento antes de prosseguir: revelo se tratar da Michael Page apenas para enriquecer a narrativa. Não há nada contra essa empresa em particular. Acredito que essa companhia é tão boa ou melhor que qualquer outra de recrutamento e/ou head hunting. Os nomes pessoais foram alterados, para evitar constrangimento. O conto serve para ilustrar a qualidade dos recrutamentos em geral, e não como uma referência específica a esta ou aquela firma. Sim, é uma história real.

Mesmo descrente naquele processo, segui as recomendações e lá fui eu em direção à Rua Funchal, talvez apenas em consideração à gentileza do Paulo.

Pé direito alto, elevador inteligente, café gostoso e entrevistadora elegante, com o esforço da maquiagem.

A conversa transcorreu tranquila – ao menos sob minha ótica. Eu me treinara para blindar-me às perguntas lugares-comum tradicionais em entrevistas de emprego logo cedo, depois de uma experiência mal-sucedida ainda na adolescência. Também adotara a tática de ignorar o desafio de ponderar arrogância e humildade, algo típico de situações em que você precisa mostrar suas qualidades sem soar prepotente. Eu simplesmente era eu mesmo, a partir de uma postura severamente crítica sobre mim. Por alguma razão que ainda desconheço, costumava funcionar. Talvez porque eu o fazia com certo charme e grande nível de detalhe. Enfim, ainda não sei mesmo a razão…

Depois conversei com o Paulinho sobre o feedback da Márcia. “No geral, ela adorou você. Disse que se expressa muito bem e tem uma erudição que sequer condiz com sua pouca idade. Uma coisa, porém, pegou muito mal. Ela disse que você não estava de terno. Isso é um sinal de que você não leva a sério seus compromissos”.

Lembrei na hora do Caetano. “Quando eu chego em casa, nada me consola.” A coroa não entendeu nada. Primeiro porque eu não me expresso tão bem assim. Depois, passo longe de ser um cara erudito. Por último e, desculpem, ainda mais importante, posso não ser exemplo de elegância (de fato, passo longe de ser), mas eu não uso terno por uma escolha deliberada.

Àquela época, eu já lia Taleb e adotava, desde então, a tática de combater os empty suits. Os ternos vazios, que se travestem de sujeitos bem vestidos e supostamente importantes para impor-lhes um argumento de autoridade. Levar a sério um compromisso não significa ter de se fantasiar.

Ao contrário, você deve valorizar o cerne do discurso do sujeito, o que ele está lhe propondo, quais métodos adota, como pode efetivamente ajudar. O conteúdo deve importar mais do que a forma. E quando você coloca um terno empurra a atenção à forma, desviando daquilo que realmente interessa.

Em cada um de nossos planos de assinatura (se você ainda não os conhece, comece por algum de R$ 9,90 – isso não vai ferir seu bolso e vai solidificar nosso relacionamento), não usamos terno. Transmitimos as ideias da forma mais simples possível, mesmo que os métodos adotados internamente sejam sofisticados.

Nossa série sobre Aposentadoria, por exemplo, começa com o passo mais trivial de todos. Ouvimos dos leitores como eles estão montando suas aposentadorias. A partir desse interação, podemos traçar recomendações mais precisas e realistas.

A simplicidade é a maior das sofisticações. Era esse o lema de Steve Jobs, copiado de Leonardo da Vinci, que não usava terno.

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