Quer tomar um café com Friedman?

Bastam 5 ou 10 minutos por dia para cuidar das próprias finanças. É o tempo justo de se tomar um café, com alguma pretensão de melhorar de vida.

O ano era 1968.
Na cafeteria do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Chicago, dois dos maiores economistas da história batiam um papo informal, quase despretensioso.
Na época, Milton Friedman tinha 56 anos.
George Stigler era um ano mais velho.
Milton ficou mundialmente conhecido como o defensor do livre mercado.
Em paralelo, Stigler levantava a espada contra abusos do governo.
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Ambos já despontavam para os alunos de Chicago como monstros sagrados da teoria econômica.
Seriam agraciados com o Nobel apenas tempos depois (Friedman em 1976 e Stigler em 1982), embora ninguém duvidasse disso nos corredores universitários de 1968.
Ouvi essa conversa do relato da Professora Deirdre McCloskey, que a presenciou pessoalmente.
Tomo aqui a liberdade de traduzi-la, preservando o que compete à forma e ao sentido.
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George: Milton, você parece um pregador religioso! Se as pessoas quiserem livre comércio, terão livre comércio. Mas, se elas não quiserem, nenhum discurso econômico será suficiente para fazê-las mudar de ideia.
Milton: Ah, é justamente aí que eu e você nos distinguimos, Goerge. Nós somos ambos admiradores do livre mercado, mas você acha que o livre mercado já está funcionando desde sempre.
George: E por que não estaria? Os indivíduos são guiados por seus próprios interesses, e votam de acordo com isso – é o que basta para o livre mercado funcionar. Se os eleitores acabam comprando tarifas maiores de importação, provavelmente é o que desejavam ter.
Milton: Não é assim que acontece; os eleitores perseguem vontades, mas frequentemente não sabem quais são exatamente essas vontades. As pessoas precisam de educação. O cidadão médio não tem ideia de como uma tarifa adicional pode machucá-lo.
George: Educação?! Tente então educar um lobista trabalhando a serviço da indústria têxtil [a quem as tarifas de importação beneficiariam].
Milton: Conforme eu disse, aí nos distinguimos. Sou um professor. Acredito que as pessoas fazem certas coisas simplesmente porque ignoram sua lógica econômica e suas últimas consequências.
George: E eu sou um cientista, um cientista econômico. As pessoas fazem o que fazem porque são sábias.
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A conversa de café entre Stigler e Friedman sintetiza um debate fundamental na Economia e nas Finanças.
Há economistas que assumem, de antemão, que somos todos racionais. Agindo por conta própria, alcançamos rapidamente a melhor situação possível. Esses são os stigleritas.
Outros, apelidados de friedmanitas, também estão certos de que podemos alcançar a melhor situação possível, DESDE que nos esforcemos para aprender como as coisas funcionam.

Eu, Felipe e os demais analistas da casa concebemos a Carteira Empiricus como uma série de recomendações friedmanitas – originais e acompanhadas das devidas explicações.

Admiramos a eficiência do livre mercado, mas não somos ingênuos a ponto de achar que essa eficiência é conquistada automaticamente.
Precisamos de educação – aprender o que nos machuca e o que nos faz enriquecer.
Precisamos transpirar para bater o CDI.
As pessoas não são burras, nem nasceram espertas.
Se o mundo fosse stiglerita, tudo seria bem fácil; talvez fácil demais. Não daríamos valor ao conhecimento adquirido.
Mais difícil é o caminho do investidor que se esforça para ler, questionar, aprender e aplicar. Mais difícil e mais lucrativo
Para a maioria dos casos, bastam 5 ou 10 minutos por dia para cuidar das próprias finanças.
É o tempo justo de se tomar um café, com alguma pretensão de melhorar de vida.

Um abraço,

Rodolfo Amstalden

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