Você quer ter sorte em seus investimentos?

O almoço de terça-feira é algo religioso para mim. Aquela tilápia do Zé Gordo é impagável e dá uma mistura sinestésica com arroz e brócolis. Água de coco acompanha. Quando é dia dela, ao bater exatamente 12h30, dou aquela espichada no pescoço e, vendo o Beto na minha diagonal pelo canto direito superior do olho, proponho com voz impostada: “partiu ZG?”

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O almoço de terça-feira é algo religioso para mim. Aquela tilápia do Zé Gordo é impagável e dá uma mistura sinestésica com arroz e brócolis. Água de coco acompanha. Quando é dia dela, ao bater exatamente 12h30, dou aquela espichada no pescoço e, vendo o Beto na minha diagonal pelo canto direito superior do olho, proponho com voz impostada: “partiu ZG?”

Dessa última vez, porém, um sujeito quase conseguiu abalar a animação enquanto eu caminhava em direção à Clodomiro. No exato momento em que pus os pés para fora do prédio, um homem alto e esguio, de cabelos perfeitamente penteados para trás e abotoaduras reluzentes, interpelou-me de súbito. Colocando de maneira firme seu polegar pela parte interna de meu bíceps e os demais quatro dedos de sua mão direita no exterior de meu braço, disparou:

“Felipe, cara, que sorte esta oferta pela Estácio. Li no Palavra e ganhei 40% em um mês. Achei meio exagerada aquela história de oportunidade de uma vida – você adora essas coisas, né? – mas comprei seguindo sua recomendação. Baita porrada! E vai mais.  Que rabo, hein meu? Quem poderia imaginar esta fusão agora…”

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Ele é um gestor de ações, AUM de R$ 100 M. Já foi bem maior. Chegou a ter R$ 2 bi sob gestão. Eu não o culpo. Dado o genocídio com os gestores de equities desde 2008, os sobreviventes são verdadeiros heróis. Num bear market como este que vivemos nos últimos anos, você precisa apenas estar vivo para chegar até o outro lado. Uma hora o touro acorda e ressuscita todo mundo.

Felizmente, ele estava menos arrogante do que das outras vezes. Se houve uma coisa boa da quebra da Lehman foi que ela acabou com os super-heróis. A humildade dos gestores de ações, aqueles sujeitos que têm habilidades especiais, é marcada a mercado. Se você quer perceber se fala com Clark Kent ou SuperHomen sem precisar olhar para sua vestimenta, cheque a cota de seu fundo.

No caso, era Clark Kent – a verdade é que o tenho visto com mais frequência sem fantasia mesmo. E não valeria a pena a discussão. Respondi assim:

“Muita sorte. Ela tem me acompanhado, há 15 anos.”

Ele sorriu, mas não se mexeu. Tentou continuar o assunto aproximando-se ainda mais de meu rosto, para tão perto que eu poderia sentir seu hálito. Sem nenhuma vocação para Lois Lane, interrompi:

“Prazer em vê-lo. Dá um beijo em casa.”

Eu gosto do sujeito. Ok, não muito. Mas gosto. A tilápia que não poderia esperar.

Peço licença para falar um pouco mais sobre essa história da sorte. A primeira coisa que eu gostaria de dizer é que não tenho nenhum problema com ela. Ao contrário, se essa danada quiser me acompanhar para todo o sempre, estarei aqui de braços abertos, feliz pela parceria. Comunhão universal de bens com a deusa Fortuna, eu topo.

Vou um pouco além. Não se trata apenas de não se incomodar com a sorte. A verdade é que minha proposta de método de investimento deriva justamente de uma tentativa de se beneficiar da sorte. Estou escrevendo um livro com o Rodolfo sobre isso – enquanto ele não sai, apresento aqui a ideia geral.

Sei que pode parecer estranho. “Ora, sorte é um negócio aleatório, randômico. Ninguém pode se beneficiar dela”, diriam os críticos mais precipitados. Parece-me uma visão superficial.

Esclareço um ponto antes de prosseguir. Ao me referir à sorte, trato do benefício gerado a partir de um evento aleatório não esperado – acontece um choque exógeno imprevisível e o sujeito sai melhor a partir daquilo. Seu contrário seria o azar, o prejuízo desencadeado por um acontecimento imprevisto.

Foi exatamente o caso da Estácio. Eu havia recomendado aos meus clientes a compra das ações poucas semanas antes. Muitos deles acompanharam a sugestão e foram positivamente surpreendidos pelas propostas feitas por Kroton e Ser, eventos imprevisíveis e com efeito muito favorável sobre as ações de Estácio. Fomos sortudos. Que bom.

Antes de recomendar Estácio, tínhamos proposto a aquisição dos papéis de Kroton, ainda a R$ 8,60. Suas ações subiram para R$ 13,00 e, a partir dos ganhos de 50%, apontamos a troca por Estácio, cujos papéis nos pareciam mais baratos.

Antes de Kroton, tinha sido Cetip, logo antes da fusão com a BM&F Bovespa. E antes, Ibovespa em torno de 45 mil pontos. Antes ainda, fora o dólar a $ 2,00. E por aí vai.

Com efeito, tenho dado sorte, seguidamente. Por que essa recorrência de eventos aleatórios em nosso favor? Viriam tantos acertos da aleatoriedade?

Sim. E não. Explico…

value investing tradicional (a escola de valor clássica, que vê ações como empresas) oferece um método simples de se entender, que poderia ser resumido, de uma forma um pouco grosseira mas sem perda de generalização, da seguinte forma:

  1. Existe o preço do ativo Y (não vou usar X para evitar que ele convirja para zero);
  2. Existe um negócio chamado “valor intrínseco” para este ativo Y e ele pode ser estimado; e
  3. Ao longo do tempo, o preço converge para o valor intrínseco. Logo, se A (preço) está muito abaixo de B (valor intrínseco), você compra. Caso contrário, você vende.

O preço é o que você vê na tela, a cotação da ação. Seria o valor pelo qual o carro é vendido no feirão do Pacaembu.

O valor intrínseco é aquilo que a ação deveria valer. Isso, fundamentalmente, deriva da soma dos fluxos de caixa futuros daquela companhia de hoje até o infinito, trazidos a valor presente por uma taxa de desconto apropriada. Ou seja, corresponde a todo fluxo de caixa que pode ser gerado ao longo do tempo, a valores de hoje.

A ideia é linda. Mas é platônica. Como eu vou saber os fluxos de caixa no futuro? Veja: não é um problema meu, do Felipe. É um problema do método. Eu não posso saber o fluxo futuro. Ninguém pode, pois o futuro é opaco, impermeável. Ele depende, por definição, de coisas que acontecerão no futuro, e não podemos depreendê-las a priori.

No mundo onde eu vivo, a incerteza sobre o que acontecerá amanhã jamais desaparecerá do processo. Por mais sofisticados que sejam nossos métodos para projetar os fluxos futuros, eles serão um mapa errado – e não ter mapa algum é melhor do que ter um mapa errado.

Isso porque certamente haverá surpresas no meio do caminho, coisas que não podíamos antever ao tentar estimar os fluxos de caixa futuro. E mais importante: serão justamente essas surpresas as maiores responsáveis pela evolução do preço dos ativos. Os tais cisnes negros explicam quase 90% dos fenômenos.

Ora, essa é uma conclusão lógica. Se o preço dos ativos reflete um consenso de estimativas formado a partir das informações disponíveis, o que guiará sua evolução futura será a informação não disponível! Não há meios de ser diferente.

Sendo assim, jamais poderá haver valor intrínseco, algo inapartado, indissociável da empresa, como uma verdade aristotélica escrita na pedra. Ao contrário, só pode existir valor extrínseco, que depende do viés do observado, de sua taxa de juro, de câmbio, de sua visão sobre o futuro.

Então, pergunta-se: como investir num mundo desse, em que a incerteza é predominante? Qual o método se não podemos definir o valor intrínseco?

Desista de estimar quanto vale, de fato, aquela ação. Isso depende do futuro, que a Deus – e não aos investidores – pertence. O preço da ação caminhará a partir de um evento inesperado, que nós jamais poderemos antever. Será uma fusão, uma aquisição, um fechamento de capital, um resultado abaixo/acima das projeções, um terremoto do outro lado do mundo, a quebra da Lehman Brothers, um ataque terrorista.

Assim, só nos resta uma única coisa a fazer – e isso vai lhe parecer pouco, mas é a melhor atitude possível: vamos comprar barato e procurar opcionalidades, sem saber o que vai acontecer.

Não falo isso esperando uma convergência de A para B. Direciono o argumento para uma tentativa de nos certificar de que as surpresas à frente estarão do lado positivo. Se você compra uma empresa boa num preço atraente, suas chances de contar com um movimento inesperado no futuro capaz de guiá-las para cima (seja ele qual for) são muito maiores.

É exatamente esse meu método de investimento. Compro coisas boas e baratas, com chances de perder pouco (se você não topa perder alguma coisinha, você jamais poderá ganhar muito) e lucrar muito.

Eu o convido hoje para uma espécie de boot camp em investimento, um treinamento perfeito para alçá-lo da categoria de leigo para alguém com o mesmo talento de um profissional. Eu lhe garanto: você vai estar com muito mais sorte a partir dele.

QUERO TER SORTE NOS INVESTIMENTOS

 

Um abraço,

Felipe Miranda

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