1 2019-12-09T13:32:41-03:00 xmp.iid:217a1f9b-69a9-426f-a7e6-7b9802d22521 xmp.did:217a1f9b-69a9-426f-a7e6-7b9802d22521 xmp.did:217a1f9b-69a9-426f-a7e6-7b9802d22521 saved xmp.iid:217a1f9b-69a9-426f-a7e6-7b9802d22521 2019-12-09T13:32:41-03:00 Adobe Bridge 2020 (Macintosh) /metadata
Investimentos

Brincando com fogo

Os bombeiros têm muito a ensinar aos economistas.

Por Felipe Miranda

05 jun 2017, 10:13

Os bombeiros têm muito a ensinar aos economistas.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Em 1988, o Parque Nacional de Yellowstone, nos EUA, enfrentou um incêndio que consumiu aproximadamente 45% de sua área. Nunca se tinha visto ali fenômeno de tal proporção, nem de perto. A partir daquele momento, a paisagem do local jamais voltaria a ser a mesma.

O Parque convivera por 100 anos com uma política de total supressão ao fogo, até a descoberta de que a prática de tolerância zero com incêndios, mesmo aqueles de baixa intensidade e gerado por causas naturais, posicionava a região para o desastre.

Após perceber que o fogo, sob determinadas circunstâncias, atuava como um importante fator de equilíbrio para a homeostase do sistema, o Federal Wildland Fire Management alterou, em 1995, a forma com que se encaravam pequenos incêndios. Em vez total supressão, permitiam-se ocorrências pontuais, como forma justamente de, por meio de feedbacks positivos e negativos, atingir-se a homeostase do ecossistema a partir de forças naturais. Pode soar contraintuitivo mas a melhor forma de evitar um grande incêndio é permitindo pequenos focos de fogo.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Sistemas complexos encontram em si mesmos o equilíbrio, dinamicamente. Há pequenos avanços e retrocessos, que funcionam como forças indicativas para onde devemos ir. O feedback positivo e negativo vai limpando os organismos mais fracos e pouco competitivos, adubando o solo para um momento posterior mais profícuo. É como um processo de destruição criativa de schumpeter. O novo surge como mais eficiente e adequado, não, porém, sem matar o velho. Tentar coibir as forças naturais em prol da homeostase interna como um mecanismo de proteção aos menos eficientes reduz a volatilidade no momento inicial, mas vai acumulando a poeira embaixo do tapete até a completa explosão.

Os mercados funcionam como florestas. Tentar suprimir a volatilidade, conter informações que possam gerar sustos no curto prazo, evitar uma falência de uma empresa supostamente grande demais para falir são práticas que abrandam pequenos choques momentâneos, trazendo-nos uma falsa sensação de controle a curto prazo. As consequências, porém, virão depois, amplificadas e cobrando seu preço com juros e correção monetária.

Na minha adaptação de Churchill, os mercados são a pior forma de alocação dos recursos, com exceção de todas as outras.

Por que isso agora?

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Por várias razões. Alguns corolários do argumento:

i. Não aposte em JBS achando que ela é too big to fail. Se tiver de quebrar, vai quebrar e o governo adoraria exercer seu revanchismo aqui. Pode ser barato e ter upside, mas risco não compensa;

ii. Toda vez em que o mercado estiver calmo demais, o risco de cauda estará alto. Há uma confusão entre risco e volatilidade. A menor variação dos ativos sugere uma tranquilidade que, na verdade, esconde riscos. Nesses momentos, todos estarão dispostos a incorrer num pouco mais de risco e você poderá arbitrar a má interpretação alheia para comprar seguros e/ou apostar num incremento da vol.

iii. O fato de Eduardo Bolsonaro cursar pós-graduação em economia liberal no Instituto Mises é uma excelente notícia. Se o espectro da direita está mais forte para 2018, melhor eliminar qualquer risco de uma política nacional-desenvolvimentista do tipo intervencionista, militarista e estatizante, conforme muitas vezes se imputa à família Bolsonaro. Eu, pessoalmente, não gosto dele, tampouco acho que ele ganhará as eleições, mas que existe um risco, existe. Logo, é melhor evitar qualquer possibilidade de tentarmos, pela terceira vez, reviver o Segundo PND. Estamos, sim, abertos a um aventureiro nas próximas eleições e o fato de esse aventureiro compreender a dinâmica dos mercados é boa notícia.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

iv. Não há tanta razão para preocupação com a prisão de Rodrigo Rocha Loures. Governo tenta suprimir a volatilidade e faz ofensiva nos bastidores para conter delação. Mas por que havemos de temer a revelação da verdade aqui? Se Loures for capaz de derrubar o governo, talvez seja ainda melhor, pois acelera a transição e eliminamos o risco de doses homeopáticas de sofrimento. É preferível um fim terrível ao terror sem fim. Um presidente eleito por eleição indireta, dada a predominância no Congresso hoje do espectro de centro-direita, parece ter mais chances, na margem, de caminhar com as reformas do que Michel Temer.

v. Se quisermos evitar a insurgência das ruas, simplesmente coibindo a volatilidade e evitando a pauta impopular das reformas, caminharemos a passos largos para o colapso fiscal – sem reformar a Previdência, será impossível cumprir a PEC do teto de gastos possivelmente já em 2019. A briga na rua é antifrágil e chama atenção para os argumentos essenciais da coisa. O problema é a supressão do debate. Ou fazemos as reformas por bem ou por mal. Não há alternativa. E é isso que permite a aparente tranquilidade esquizofrênica dos mercados neste momento. Se houve uma coisa boa da nova matriz econômica é que ela pode revelar o quão periclitante era nossa situação fiscal. Agora, a agenda de reformas se impõe naturalmente. É o mecanismo de feedback negativo que leva o sistema sozinho para a homeostase interna.

CIO e estrategista-chefe da Empiricus, é ex-professor da FGV e autor da newsletter Day One, atualmente recebida por cerca de 1 milhão de leitores.