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Depois de um longo ciclo de valorização frente ao real, o dólar entrou em ritmo de queda nas primeiras semanas de 2026. Até o fechamento deste texto, o dólar comercial estava cotado a R$ 5,19, menor nível desde maio de 2024.
Mas para muito além da cotação no Brasil, esse é o reflexo de um movimento mais amplo: a desvalorização acumulada do dólar contra diversas moedas globais, como o euro, a libra esterlina e o franco suíço. Esse padrão começou a tomar forma ainda na primeira metade de 2025 em meio às incertezas tanto domésticas quanto externas geradas pelo governo de Donald Trump.
Na última terça-feira (27), quando perguntado por um repórter se achava que o dólar já caiu demais, Trump respondeu que achava que o dólar “está ótimo” no momento.
Desta forma, surge o questionamento: por que a desvalorização da moeda soberana dos EUA consegue ser positiva aos olhos do presidente do país?
Matheus Spiess, analista de macroeconomia da Empiricus Research, discutiu o assunto como convidado do podcast Touros e Ursos, do Seu Dinheiro, na última terça-feira (27):
Para analista, desvalorização do dólar sempre fez parte dos planos da Casa Branca: entenda o porquê
Ainda vivemos em um mundo no qual o dólar é a moeda franca do mercado. Porém, a “desdolarização” vem ganhando força e, curiosamente, sempre esteve nos planos de Donald Trump, segundo Spiess.
O dólar mais fraco torna os produtos fabricados nos EUA mais competitivos para exportação. Consequentemente, ajuda no processo de reindustrialização dos Estados Unidos, uma das principais promessas de campanha de Trump, envelopada no conceito “America First”.
“É verdade que eles queriam desvalorizar o dólar. Foi uma opção americana construir esses déficits, com a condição de que fosse utilizado o dólar do outro lado da transação, e esse dólar voltaria, no final, aos Estados Unidos” em forma de investimento, afirma o analista.
Porém, segundo Spiess, não é algo que Donald Trump pode admitir abertamente: “Ele precisa falar ‘não, comigo o dólar tem que ser mais forte’, porque precisa falar ao seu eleitor médio, que não necessariamente entende esses temas em toda sua complexidade ou profundidade”.
Enquanto isso, Trump tem atingido seus objetivos “por caminhos tortos”: “O que vemos agora é um dólar mais fraco sem que tenha ocorrido a reindustrialização, porque ainda existe um processo de amadurecimento do investimento na indústria, que não ocorre do dia para a noite. O que ele imaginava com o ‘America First’ ainda não aconteceu”.
O dólar que saiu dos EUA, por hora, ainda não retornou em forma de investimentos na indústria do país. E há motivos que podem atrasar esse processo ainda mais.
‘Tiro pela culatra’? Disrupção global que culminou no dólar mais fraco pode trazer efeitos de longo prazo
Nesse ponto, é preciso lembrar do protagonismo que os Estados Unidos têm exercido no xadrez geopolítico atual: com destaques para o tarifaço sobre os principais parceiros comerciais. Além disso, há as ameaças de envolvimento nos conflitos do Oriente Médio, as ações militares na Venezuela e, por último, as ameaças de tomada da Groenlândia.
Todas essas medidas, de certa forma, podem afugentar a entrada de capital nos EUA. Não apenas por parte de investidores institucionais, mas também vindos de acordos entre nações:
“O fato de você perverter a dinâmica de um ordenamento internacional formal, que os Estados Unidos, inclusive, foram responsáveis por criar no passado, é problemático a longo prazo. E a desconfiança com o governo americano mostra que o mundo está disposto a dar um passo além, olhando outros parceiros comerciais.”
Um exemplo recente disso, segundo ele, é o próprio acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, uma tentativa especialmente por parte da Europa de evitar “relações comerciais demasiadamente dependentes dos Estados Unidos”.
Além do contexto externo, o segundo mandato de Trump também tem trazido incertezas ao ambiente doméstico. O conflito entre o gabinete do governo e o Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos EUA, é citado como exemplo.
Nos últimos meses, Trump passou a proferir ataques públicos ao presidente do Fed, Jerome Powell – colocando em xeque a autonomia da instituição.
Isso “é muito ruim”, afirma Spiess. “Você tira eficácia da política monetária e faz com que o Banco Central precise atuar mais para tentar alcançar o mesmo nível de resultado anterior, o que é péssimo a longo prazo. Sem dúvida, também é um tipo de ruído que afugenta investidores.”
O que esperar do dólar daqui para a frente?
“Eu não acredito em desdolarização em absoluto, os Estados Unidos ainda são a principal economia do mundo. Mas vemos uma maior diversificação internacional”, afirma. “Justamente por conta dessa desconfiança em relação aos Estados Unidos, que era o principal fiador desse modelo de sistema que a gente vivia, os investidores acabem se posicionando de maneira diferente.”
Contudo, o analista aponta alguns pontos em especial que podem recuperar parte da credibilidade institucional norte-americana no médio prazo, e servir como gatilhos positivos.
“As tarifas, dependendo de como for a decisão da Suprema Corte, podem cair parcialmente. Isso seria uma demonstração de institucionalidade preservada dentro dos Estados Unidos. Isso também serve para as eleições de meio de mandato que vão acontecer no final desse ano. Caso o eleitorado tire a maioria tímida dos republicanos da Câmara, por exemplo, também será um recado de institucionalidade.”
Já frente ao real, especificamente, o analista ainda enxerga espaço para que o dólar continue caindo. O principal vetor de um cenário contrário a esse são as eleições presidenciais deste ano.
“Naturalmente, processos eleitorais aumentam muito a volatilidade cambial, e podemos ter um choque que traria prejuízos a posições montadas em real”, afirmou.
Enquanto isso, mercados emergentes se beneficiam do movimento – inclusive o Brasil
Considerando que o dinheiro ainda não está retornando aos EUA em forma de investimento, os países que o recebem seguem se beneficiando: como o próprio Brasil.
Como evidência desse movimento, podemos citar o pequeno rali do Ibovespa nos últimos dias. Até o fechamento deste texto, o índice negociava acima dos 183 mil pontos – nova máxima histórica com folga.
“Em uma só semana, o Ibovespa subiu mais de 8% com essa entrada de recursos. É a maior alta semanal em 6 anos. Tudo isso é um reflexo de um dólar mais fraco no mundo”, afirma Spiess.
O analista cita que, somente neste começo de 2026, a entrada de capital estrangeiro no mercado brasileiro já equivale a um terço da entrada total registrada em 2025, e “isso tem um vetor de preço muito importante”.
“É claro que, se tivermos uma recessão internacional por conta de tarifas, ou conflitos maiores, podemos ter consequências negativas para esse fluxo que está vindo. Mas em um primeiro momento, tem sido positivo para nós”, conclui.