(Imagem: Montagem Canva Pro)
Todas as atenções estão voltadas para o prazo final imposto por Donald Trump, que condiciona qualquer acordo à reabertura do Estreito de Ormuz até o fim desta terça-feira, sob a ameaça explícita de ataques à infraestrutura iraniana.
O ultimato eleva o nível de tensão em um momento já delicado, marcado pela continuidade dos confrontos e pela ausência de um desfecho claro nas negociações. Trata-se de mais um prazo autoimposto pelo governo americano, o que reforça a imprevisibilidade do cenário e mantém os investidores diante de múltiplos caminhos possíveis, que vão desde uma eventual descompressão até uma escalada mais ampla do conflito.
Nos mercados, a proximidade desse deadline já se traduz em maior cautela. Embora as negociações sigam em curso, a incerteza ainda predomina, deixando os agentes altamente sensíveis ao fluxo de notícias. Mesmo considerando o histórico recente de adiamento de prazos, o risco de novos danos à infraestrutura, com potencial de prolongar a desorganização do mercado de petróleo, mantém o ambiente pressionado, com os mercados, mais uma vez, operando sob a lógica de esperar por maior clareza.
E os ataques realizados na madrugada de hoje às instalações militares na Ilha de Kharg, um hub logístico crucial para o escoamento de petróleo iraniano que já comentei neste espaço, pouco contribuem para o avanço do diálogo entre as partes e reforçam a aversão ao risco nos mercados nesta manhã de terça-feira.
· 00:52 — Combustível caro, conta fiscal mais cara ainda
No Brasil, seguimos acompanhando de perto o noticiário geopolítico, especialmente em um dia de agenda doméstica mais esvaziada, sendo o principal destaque da semana, do ponto de vista de dados, a divulgação do IPCA de março na sexta-feira.
Nesse contexto, ganha relevância o pacote anunciado pelo governo Lula para mitigar os efeitos da alta dos combustíveis. Trata-se de um conjunto amplo de medidas que combina subsídios e desonerações com o objetivo de conter o repasse inflacionário, incluindo subvenções ao diesel (tanto importado quanto nacional), incentivos ao gás de cozinha e alívio ao setor aéreo, além da oferta de crédito. O custo estimado desse pacote pode chegar superar a marca de R$ 30 bilhões.
A estratégia oficial parte do pressuposto de que esse impacto fiscal será compensado pelo aumento de arrecadação decorrente da própria alta do petróleo, por meio de royalties, impostos e participações especiais, potencialmente somando até R$ 40 bilhões, além de medidas adicionais, como a elevação de tributos sobre cigarros.
Ainda assim, a viabilidade desse equilíbrio levanta questionamentos, especialmente em um contexto de ano eleitoral, no qual há maior propensão à adoção de medidas voltadas ao curto prazo, como forma de conter a queda de popularidade, evidenciada por pesquisas recentes, como a Ipsos-Ipec do final de semana, entre outras. Esse movimento tende a pressionar ainda mais um quadro fiscal já fragilizado, dificultando o cumprimento das metas fiscais. Em última instância, isso eleva o custo do ajuste que se desenha como inevitável nos próximos anos, especialmente a partir de 2027.
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· 01:47 — Tentando separar o joio do trigo
Nos Estados Unidos, os mercados iniciaram a semana em alta moderada, apoiados por dados econômicos mais favoráveis, com destaque para o relatório de emprego da última sexta-feira, que veio mais forte do que o esperado (afastando o medo de recessão), mas seguem operando em compasso de espera diante da guerra com o Irã e do prazo estabelecido pelo governo americano para um possível acordo.
O ambiente segue sendo de cauteloso: há algum alívio nos preços, mas os investidores continuam atentos ao risco de mudanças de narrativa. Ao mesmo tempo, o posicionamento em ações se tornou mais leve, refletindo a redução recente de exposição, embora ainda sem sinais de capitulação mais ampla por parte do mercado.
Nesse contexto, a agenda americana da semana ganha importância adicional e deve ajudar a calibrar o humor dos investidores. O foco recai sobre o início da temporada de balanços, os dados de bens duráveis e, sobretudo, a divulgação do índice de inflação (CPI), que tende a ser a primeira leitura mais completa dos efeitos do choque energético recente sobre os preços. Além disso, indicadores de expectativas de inflação e discursos no Federal Reserve entram no radar em um momento no qual o mercado busca responder a uma pergunta central: até que ponto a economia americana continua resiliente em meio a um ambiente potencialmente inflacionário?
· 02:31 — Negociação aos 45 do segundo tempo
O presidente Donald Trump intensificou a pressão sobre o Irã ao condicionar qualquer acordo à reabertura do Estreito de Ormuz dentro de um prazo definido, elevando o tom das ameaças e mencionando a possibilidade de ataques à infraestrutura crítica do país se não houver algum acordo até a noite de hoje.
Apesar de indicar que as negociações avançam, as exigências permanecem rígidas, enquanto o Irã demonstra resistência a propostas temporárias e mantém suas ações militares na região. Em paralelo, a Organização das Nações Unidas alertou para o risco de violação do direito internacional diante de eventuais ataques a alvos civis, ao mesmo tempo em que busca viabilizar uma resolução mais branda no Conselho de Segurança para garantir a navegação na região, ainda sujeita a possíveis vetos de países como Rússia e China.
Nos mercados, esse ambiente se traduz em uma combinação de tensão e incerteza. O petróleo voltou a subir ontem em meio à volatilidade, enquanto as bolsas perderam fôlego diante da proximidade do prazo imposto e da ausência de maior clareza sobre um desfecho. Ainda assim, a continuidade das negociações, mediadas por países como Egito, Paquistão, Turquia e Omã, sustenta a expectativa de um eventual cessar-fogo, ainda que temporário, o que ajuda a evitar movimentos mais abruptos nos ativos. Em síntese, o cenário segue instável, com os mercados oscilando entre a perspectiva de avanço diplomático e o risco concreto de uma nova escalada do conflito.
· 03:26 — Problemas com crédito
Em sua carta anual aos acionistas, Jamie Dimon destacou um conjunto de riscos relevantes para a economia global, que vão desde tensões geopolíticas até inflação persistente, passando por fragilidades no mercado de crédito privado e limitações no arcabouço regulatório.
Na sua avaliação, a inflação pode se consolidar como o principal desafio do ano caso desacelere de forma mais lenta do que o esperado, pressionando tanto as taxas de juros quanto o preço dos ativos. Ao mesmo tempo, ele chama atenção para uma mudança de comportamento dos investidores, que começam a retirar recursos do crédito privado, uma classe de ativos estruturalmente menos líquida, o que já gera sinais de estresse e dinâmicas que, ainda que incipientes, lembram movimentos típicos de corrida por liquidez, como já discutimos por aqui.
Apesar desse pano de fundo mais desafiador, o crédito privado, ao menos por ora, não configura um risco sistêmico, sobretudo em função de seu tamanho relativamente menor quando comparado a outros mercados.
Ainda assim, vale o alerta para a deterioração gradual dos padrões de concessão de crédito, o que pode amplificar perdas em um eventual ciclo adverso. Episódios recentes envolvendo a Blue Owl Capital ilustram bem esse momento mais sensível, com queda expressiva das ações e restrições a resgates diante do aumento da demanda por liquidez. Em síntese, o cenário não aponta para uma crise iminente, mas revela um ambiente mais frágil, em que a combinação de menor liquidez, ajustes estruturais e riscos macroeconômicos exige uma postura mais atenta e criteriosa por parte dos investidores.
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· 04:13 — Preocupação eleitoral
Os republicanos conquistaram em 2024 o controle simultâneo da Casa Branca e do Congresso, o que lhes permitiu avançar de forma mais coordenada em sua agenda política. Esse cenário, no entanto, pode começar a se reverter já nas eleições de meio de mandato de 2026. As projeções atuais apontam para uma probabilidade elevada de os democratas retomarem o controle da Câmara dos Representantes, dado que necessitam de um número relativamente pequeno de cadeiras e contam com vantagem nas pesquisas, além de um histórico que favorece o partido fora do poder nesses ciclos eleitorais.
Mesmo considerando possíveis ajustes distritais que possam suavizar perdas republicanas, o cenário-base ainda sugere uma mudança de controle na Câmara, ainda que com alguma margem para variações ao longo da campanha.
Por outro lado, o Senado apresenta uma dinâmica distinta, com os republicanos em posição mais confortável para preservar a maioria. Isso se deve ao fato de que a maior parte das cadeiras em disputa está localizada em estados tradicionalmente conservadores, restando poucos casos efetivamente competitivos.
Nesse contexto, o desfecho mais provável é o de um Congresso dividido, com democratas controlando a Câmara e republicanos mantendo o Senado. Esse arranjo tende a exigir maior grau de negociação bipartidária para a aprovação de medidas legislativas e pode intensificar disputas institucionais, especialmente caso o Executivo busque ampliar sua margem de atuação sobre o orçamento (já muito apertado). Como resultado, o ambiente político-fiscal nos Estados Unidos tende a se tornar mais complexo, com potenciais implicações para a previsibilidade das políticas públicas nos próximos anos.
· 05:07 — Um orçamento de trilhão
Os gastos militares globais seguem em trajetória de expansão, refletindo um ambiente geopolítico progressivamente mais tensionado. A China, por exemplo, multiplicou seu orçamento de defesa por 13 vezes nas últimas três décadas e continua elevando seus investimentos, enquanto o Oriente Médio ampliou seus gastos para cerca de 4,3% do PIB, movimento impulsionado sobretudo por Israel após os ataques de 2023.
Na Europa, países liderados pela Alemanha aceleram seus orçamentos em ritmo recorde, em resposta tanto às tensões com a Rússia quanto à menor previsibilidade do apoio americano. Esse processo não ocorre de forma isolada: outras economias relevantes, como a Índia, também avançam em seus programas militares, reforçando uma tendência global clara de rearmamento e modernização das forças de defesa.
Ainda assim, nenhum país se aproxima da escala dos Estados Unidos. Em 2025, Washington destinou cerca de US$ 921 bilhões à defesa, praticamente o equivalente à soma dos 14 maiores orçamentos seguintes, e já sinalizou a intenção de elevar esse montante para US$ 1,5 trilhão em 2027, um salto de 44% que, se aprovado, representará o maior nível de gasto militar da história moderna.
Esses recursos devem ser direcionados à recomposição de estoques, expansão da frota naval e desenvolvimento de sistemas avançados, como a chamada “Cúpula Dourada” de defesa antimísseis, além de potencialmente se somarem a outros US$ 200 bilhões relacionados ao conflito com o Irã. Em síntese, embora o rearmamento seja um fenômeno global, os EUA seguem operando em uma liga própria, consolidando sua liderança absoluta em capacidade militar e investimento em defesa.
Para o investidor, a implicação desse cenário é relativamente direta. Em um mundo mais instável e marcado por orçamentos militares estruturalmente mais elevados, o setor de defesa deixa de ser apenas uma oportunidade cíclica e passa a se afirmar como uma tese estrutural de longo prazo.
Nesse contexto, ETFs temáticos focados em aeroespacial e defesa, como o Select STOXX Europe Aerospace & Defense (EUAD), o Global X Defense Tech (SHLD) e o First Trust Indxx Aerospace & Defense (MISL), surgem como instrumentos eficientes para capturar essa tendência por meio de uma exposição diversificada.
No Brasil, o iShares U.S. Aerospace & Defense ETF (BDR: BAER39) cumpre papel semelhante, oferecendo acesso a esse tema de forma simples e acessível. Ainda assim, a disciplina na alocação permanece fundamental: posições individuais entre 1% e 2,5% da carteira, com limite agregado próximo a 5% para o tema, ajudam a equilibrar o potencial de retorno com uma gestão de risco adequada, respeitando tanto o caráter estrutural da tese quanto a volatilidade inerente ao setor.