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Os mercados globais iniciam o dia em tom positivo, com recordes na Europa e na Ásia e alta nos futuros em Nova York, impulsionados pelo alívio no setor de tecnologia às vésperas do balanço da Nvidia, pela manutenção da tarifa americana em 10%, confirmado pela Alfândega e Proteção das Fronteiras dos Estados Unidos (CBP), e pelo avanço das negociações com o Irã, ainda que a volatilidade siga presente.
A agenda do dia macro é limitada — PIB alemão estável e inflação da Zona do Euro sem surpresas —, enquanto dirigentes do Fed ajudaram a moderar temores em torno da IA; no corporativo, destacam-se o acordo de até US$ 100 bilhões entre AMD e Meta para chips de IA, o corte de preços do Ozempic e Wegovy pela Novo Nordisk e a recuperação das criptos. O petróleo acumula alta no ano com tensões no Oriente Médio, embora um fechamento do Estreito de Hormuz seja improvável, e na China as bolsas avançam com dólar mais fraco sustentando commodities, consumo pós-feriado forte e sinais de estímulo imobiliário, apesar da dependência das exportações.
· 00:57 — Uma pesquisa pesada para o Planalto
No Brasil, a continuidade do fluxo estrangeiro seguiu fortalecendo os ativos locais. O Ibovespa renovou máximas no fechamento, aos 191.490 pontos — o 13º recorde do ano —, enquanto o dólar voltou a operar abaixo de R$ 5,15, acumulando a quarta queda consecutiva. Na agenda doméstica, o mercado acompanha a divulgação de resultados corporativos, além do resultado do governo central, após a arrecadação federal de janeiro ter atingido o maior valor da série histórica para o mês. A expansão da receita mostra eficiência arrecadatória, mas permanece o debate estrutural: o gasto público cresce em ritmo superior, o que mantém a questão fiscal central.
Em Brasília, está prevista a votação, na Câmara, do acordo entre Mercosul e União Europeia, após o plenário ter aprovado o PL Antifacção e o projeto que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), criando incentivos fiscais ao setor (bom estruturalmente para o país neste momento). No campo político, porém, o principal vetor do dia é a repercussão da nova pesquisa AtlasIntel, que mostrou Flávio Bolsonaro numericamente empatado com Lula (46,3% a 46,2%), revertendo uma desvantagem de 12 pontos observada em dezembro. Trata-se de uma das mais expressivas absorções de votos por transferência já registradas em disputas presidenciais (o próprio Haddad mostrou surpresa em evento recente), refletindo um ambiente de forte rejeição ao governo e indicando que o eleitorado parece sensível a alternativas menos alinhadas ao atual tom mais radicalizado da campanha governista.
Além disso, o conjunto de medidas assistenciais adotado até aqui ainda não produziu o impacto político esperado. A pesquisa tem potencial de influenciar expectativas de mercado, ao aumentar a probabilidade de um cenário eleitoral mais competitivo e, eventualmente, de um governo com agenda reformista a partir de 2027, quando um ajuste fiscal tende a se impor como necessidade. Naturalmente, a eleição ainda está distante e o cenário pode mudar, mas o desempenho recente do candidato oposicionista surpreende. Caso consiga atravessar os próximos meses — especialmente após abril — mantendo competitividade e administrando sua própria rejeição, sua posição tende a se consolidar. Naturalmente, a eleição tende a ser apertada. A oposição demorou a se organizar e, quando finalmente o fez, convergiu em torno de um nome com índice de rejeição mais elevado — o que impõe limites à margem de crescimento. É plausível supor que, se a transição de liderança tivesse ocorrido mais cedo em favor de um candidato com menor resistência, a inflexão do pêndulo político poderia hoje apresentar vantagem mais confortável. Ainda assim, para o mercado, o essencial não é a identidade do candidato, mas a direção das políticas: pouco importa a cor do gato, desde que ele cace o rato. É o que vemos.
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· 01:46 — Mais de 100 minutos
Em um discurso sobre o Estado da União que se estendeu por 108 minutos — o mais longo da história recente — e marcado por forte tom combativo, Trump voltou a defender sua política tarifária como o principal motor de uma “reviravolta histórica” da economia americana. Classificou como “desastrosa” a decisão da Suprema Corte que considerou ilegais parte de suas tarifas, mas afirmou que pretende mantê-las com base em alternativas jurídicas, sem depender do Congresso, chegando a sugerir que, no limite, poderiam substituir o atual sistema de imposto de renda.
No plano doméstico, apresentou um quadro otimista da economia e anunciou propostas como um novo modelo de plano de aposentadoria (uma discussão que todos os países terão que ter, inclusive o nosso, já que a previdência como a conhecemos não se sustenta mais), além de atribuir aos democratas a responsabilidade pela inflação e adotar postura confrontacional em temas como imigração. No campo externo, reiterou que prefere uma solução diplomática para as tensões com o Irã, mas enfatizou que não permitirá, em hipótese alguma, que o país desenvolva arma nuclear, estabelecendo prazo para avanços nas negociações — enquanto autoridades iranianas também vêm sinalizando disposição para um acordo.
· 02:35 — Ceticismo e preocupação
O avanço acelerado da inteligência artificial tem levado parte do mercado a repensar a aposta concentrada no tema e a buscar empresas mais “tangíveis”, em detrimento de modelos que, ao menos em teoria, poderiam ser replicados por ferramentas de IA, como algumas plataformas digitais. Nesse ambiente, relatórios mais alarmistas, como o da Citrini Research, que já mencionei neste espaço, ajudaram a elevar a volatilidade e chegaram a pressionar ações de companhias sensíveis ao consumo e a serviços financeiros, embora muitos economistas vejam exagero nessas projeções. Ao mesmo tempo, o noticiário segue mostrando que o setor é dinâmico: novas atualizações e integrações de ferramentas de IA reforçam que a tecnologia continua avançando.
Em paralelo, Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, voltou a alertar para um nível elevado de complacência nos mercados e para riscos crescentes no crédito privado, traçando paralelos com o período pré-2008 e lembrando que, em ciclos assim, as tensões costumam aparecer justamente onde hoje há mais otimismo — o que inclui, potencialmente, segmentos do software mais expostos à narrativa de IA.
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· 03:23 — A crise da memória
A indústria de tecnologia atravessa uma possível nova “crise de memória”: impulsionada pela expansão da inteligência artificial, a demanda por chips disparou e fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron não conseguem atender plenamente data centers e eletrônicos de consumo. O desequilíbrio tem origem no ciclo pós-pandemia, quando a forte expansão foi seguida por cortes de produção e baixo investimento em nova capacidade, o que hoje limita a oferta; como novas fábricas exigem ao menos 18 meses e mais de US$ 15 bilhões para operar, a normalização não é rápida, mantendo a tendência de preços mais altos para smartphones, PCs e outros dispositivos até que oferta e demanda se reequilibrem.
· 04:18 — Polo estratégico
No início deste ano, Emirados Árabes Unidos, União Europeia e Rússia protagonizaram movimentos estratégicos relevantes tendo a Índia como eixo central. Os Emirados firmaram uma parceria de defesa e um contrato de energia de US$ 3 bilhões em uma visita breve, porém significativa. A União Europeia concluiu o maior acordo comercial de sua história com os indianos. Já a Rússia recebeu o presidente emiradense logo após mediações conduzidas pelos próprios Emirados entre Moscou e Washington.
Ainda que não tenha havido coordenação explícita entre esses atores, o encadeamento dos fatos revela uma convergência clara de diagnóstico geopolítico. Em um ambiente marcado por incertezas quanto à confiabilidade dos Estados Unidos e pela fragmentação das hierarquias regionais tradicionais, diferentes potências passaram, de maneira independente, a direcionar esforços para fortalecer laços com a Índia. O país se consolida, assim, como um polo estratégico cada vez mais central na reorganização da ordem internacional que tenho comentado com frequência por aqui.
· 05:04 — Depois da correção de ontem
A Gerdau (GGBR4) entregou resultados em linha com as expectativas, tendo novamente a América do Norte como principal destaque positivo. A região registrou crescimento de 13,9% no volume, avanço de 15,4% na receita e EBITDA de R$ 1,8 bilhão — alta expressiva de 125% — com margem robusta de 21,1%, sustentada por tarifas já vigentes, demanda resiliente e disciplina no controle de custos. Ainda assim, as ações sofreram no pregão de ontem, refletindo a leitura mais cautelosa do mercado em relação às demais geografias. No Brasil, por exemplo, o cenário permaneceu pressionado. Embora as vendas tenham crescido 2,4%, a receita…