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A nomeação de Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá Ali Khamenei, como novo líder supremo do Irã reforçou a percepção de continuidade da linha dura do regime e sinalizou que Teerã não pretende recuar no conflito com Estados Unidos e Israel. A decisão elevou ainda mais as tensões geopolíticas e impulsionou os preços do petróleo, que voltaram a superar US$ 100 por barril, em meio a cortes de produção entre importantes produtores do Oriente Médio e ao fechamento quase total do Estreito de Ormuz.
A escalada militar também levou à retirada de parte do corpo diplomático americano da região, ao aumento de ataques com mísseis e drones e à abertura de discussões dentro do G7 sobre uma eventual liberação coordenada de petróleo das reservas estratégicas, em uma tentativa de conter a disparada dos preços. Ainda assim, autoridades do Golfo já mencionam cenários mais extremos, enquanto o presidente Trump minimizou o movimento, afirmando que seria “um pequeno preço a pagar” pela segurança global (neutralizar programa nuclear iraniano).
Não estamos diante de um choque do petróleo nos moldes da década de 1970. Desde então, a economia global tornou-se relativamente menos dependente da commodity e o fluxo energético mundial tornou-se relativamente menos dependente do Estreito de Ormuz. Além disso, embora o preço do barril tenha avançado de forma expressiva nas últimas semanas, a magnitude do movimento ainda está distante da multiplicação abrupta observada naquele período. Ainda assim, o cenário atual não deve ser minimizado.
A disrupção logística em curso já é, em termos absolutos, a maior da história — reflexo de uma economia global muito mais ampla e integrada, com cadeias produtivas e fluxos energéticos significativamente maiores. Nesse contexto, mesmo sem repetir o choque clássico dos anos 1970, a perturbação no sistema de oferta de energia pode gerar impactos relevantes sobre inflação, expectativas e, consequentemente, sobre o comportamento dos ativos globais, como já vemos agora.
· 00:59 — Queda mais contida e eleição mais competitiva
No Brasil, a deterioração do ambiente internacional reduziu a probabilidade de o Banco Central iniciar o ciclo de cortes de juros com um movimento mais agressivo de 50 pontos-base, abrindo espaço para uma redução inicial mais cautelosa, de 25 pontos-base, em linha com o cenário que a própria autoridade monetária deixou como possibilidade em sua comunicação mais recente. Nesse contexto, ganha importância adicional a divulgação do IPCA de fevereiro, na quinta-feira. Ainda assim, a menos que o dado venha significativamente abaixo das expectativas, o cenário mais provável neste momento parece ser o de um início mais gradual do ciclo de flexibilização.
No campo político, a pesquisa Datafolha divulgada no fim de semana trouxe sinais de mudança na dinâmica eleitoral, ao apontar uma redução da vantagem do presidente Lula em alguns cenários testados. O levantamento mostra Flávio Bolsonaro ganhando tração e aparecendo tecnicamente próximo em simulações de segundo turno. Vale lembrar que, como já comentei, o rali observado nos ativos brasileiros entre 2025 e o início de 2026 ocorreu praticamente sem incorporar um componente eleitoral relevante nos preços. Caso os investidores passem a considerar com mais força a possibilidade de um cenário político percebido como mais favorável ao mercado e à disciplina fiscal, esse fator pode se tornar um gatilho adicional para os ativos.
Na agenda, B3 passa a operar das 10h às 17h a partir desta segunda-feira (9), em função do início do horário de verão em Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra.
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· 01:47 — Olhando para a inflação
Nos Estados Unidos, o relatório de emprego de fevereiro surpreendeu negativamente ao mostrar fechamento líquido de 92 mil vagas, quando o consenso esperava a criação de 60 mil postos de trabalho, enquanto a taxa de desemprego avançou para 4,4%. O dado pressionou os principais índices de Wall Street.
Em paralelo, o petróleo voltou a ocupar o centro das atenções: o barril acumulou alta de 36% na semana, no maior avanço semanal do WTI (referencial americano) desde 1983. Esse movimento reacendeu os temores de estagflação — um cenário especialmente desconfortável, em que a inflação sobe ao mesmo tempo em que a atividade econômica perde força —, o que dificulta a atuação do Federal Reserve, já que cortar juros para sustentar o crescimento se torna uma decisão mais complexa quando a inflação permanece pressionada.
Assim, ainda que o impacto direto da guerra sobre as bolsas permaneça, até aqui, relativamente contido, a persistência do choque do petróleo pode contaminar inflação, expectativas e política monetária, tornando cada vez mais delicado o equilíbrio entre crescimento e estabilidade de preços. Nesse contexto, a semana ganha relevância adicional, com a divulgação de indicadores decisivos, como o CPI e o PCE, além de novos dados sobre confiança do consumidor e atividade empresarial.
· 02:35 — Disrupção com contornos mais estruturais
A intensificação da guerra no Oriente Médio voltou a provocar forte turbulência nos mercados globais de energia. O preço do petróleo chegou a disparar até 29% em termos intradiários, marcando a maior alta desde abril de 2020 e levando o barril a se aproximar de US$ 120 durante a madrugada (já voltou para a casa dos US$ 105 por barril). O movimento foi impulsionado por uma combinação de fatores: cortes de produção entre países do Golfo, ataques à infraestrutura energética da região e o fechamento quase total do Estreito de Ormuz. Parte dessa alta foi posteriormente amenizada após a divulgação de que os ministros das Finanças do G7 discutem a possibilidade de uma liberação coordenada de petróleo a partir das reservas estratégicas, em articulação com a Agência Internacional de Energia. Ainda assim, mesmo após essa acomodação parcial, os preços permanecem acima de US$ 100. Em paralelo, o mercado de gás natural também reagiu com força: os contratos na Europa chegaram a subir cerca de 30%, refletindo o receio de novos choques de oferta.
No campo político, o Irã anunciou a nomeação de Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá Ali Khamenei, como novo líder supremo do país, uma escolha que sinaliza a continuidade da linha dura que marcou o comando de seu pai. Aos 56 anos, Mojtaba recebeu apoio decisivo da Assembleia de Peritos e mantém vínculos estreitos com a Guarda Revolucionária Islâmica, que rapidamente declarou lealdade ao novo líder.
Enquanto isso, Estados Unidos e Israel ampliam suas operações militares contra alvos iranianos, ao passo que Teerã afirma possuir capacidade para sustentar o conflito por até seis meses, intensificando ataques com drones e mísseis contra Israel e contra países do Golfo. Para os mercados, no entanto, mais relevante do que a mudança de liderança em si é a duração potencial do conflito e o risco de uma interrupção prolongada no fluxo de petróleo da região. Esse ambiente de incerteza já pressiona diversos ativos globais, contribui para a elevação dos rendimentos de títulos soberanos e amplia os riscos macroeconômicos.
Segundo estimativas do FMI, cada aumento de 10% no preço do petróleo, caso persista ao longo de boa parte do ano, tende a adicionar cerca de 40 pontos-base à inflação global. Além disso, a interrupção logística no Golfo também ameaça o transporte de insumos agrícolas, como fertilizantes, elevando o risco de novos aumentos nos preços de alimentos e reforçando a possibilidade de uma pressão inflacionária mais ampla no mundo.
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· 03:21 — Sob pressão
Após enfrentar pressões competitivas crescentes, a OpenAI tem promovido ajustes estratégicos na evolução do ChatGPT, abandonando o plano de integrar diretamente à plataforma ferramentas de e-commerce, como compras online e reservas de viagens, e optando por deixar essa função a cargo de aplicativos de terceiros, uma mudança que reflete o entendimento de que essas atividades são melhor executadas por serviços especializados, enquanto o ChatGPT permanece focado em sua principal proposta de valor: inteligência conversacional e produtividade baseada em IA. Seja como for, o quadro estrutural permanece bastante robusto: a OpenAI segue entre as empresas de crescimento mais rápido do mundo, com valuation próximo de US$ 730 bilhões, cerca de 900 milhões de usuários ativos semanais no ChatGPT e discussões sobre um possível IPO, potencialmente já no quarto trimestre ainda deste ano.
· 04:16 — Não passou despercebida
A Anthropic caminha para atingir cerca de US$ 20 bilhões em receita anualizada, mais que dobrando o ritmo observado no fim de 2025, impulsionada pela forte adoção de seus modelos de inteligência artificial, como o Claude Code, o que evidencia a velocidade com que a companhia vem ganhando espaço em um mercado cada vez mais competitivo.
Apesar desse crescimento expressivo, a empresa passou a enfrentar um foco de incerteza após um impasse com o Pentágono, que classificou a companhia como um possível risco para a cadeia de suprimentos depois que ela se recusou a flexibilizar restrições ao uso de sua tecnologia em vigilância doméstica e armas totalmente autônomas. A decisão levou o governo americano a cancelar mais de US$ 200 milhões em contratos e a proibir o uso das ferramentas da Anthropic por agências federais, embora o impacto de longo prazo ainda permaneça incerto, uma vez que a demanda no setor privado continua forte e sustentando o avanço da companhia.
· 05:03 — Ficou para trás
O petróleo consolidou-se como o principal ativo do momento, deixando de representar apenas um choque geopolítico pontual para assumir também um papel relevante como choque macro global. Após um rali superior a 35% na semana passada, os contratos futuros romperam a marca de US$ 100 por barril e chegaram a ameaçar US$ 120 durante a madrugada, antes de recuar novamente para a região de US$ 105. O movimento foi impulsionado por uma combinação de fatores: a escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo do Irã, a escalada militar na região e, sobretudo, a ausência de sinais claros de normalização no Estreito de Ormuz. Nesse contexto, o risco deixou de se limitar a um simples “prêmio de guerra” e passou a incorporar preocupações mais amplas, como interrupções logísticas prolongadas, possíveis ajustes forçados de produção e repasses inflacionários em escala global.
Do ponto de vista econômico, preços elevados do petróleo tendem a pressionar as expectativas de inflação, levando os bancos centrais a manter uma postura mais cautelosa na condução da política monetária. Ao mesmo tempo, a energia mais cara reduz o poder de compra das famílias e pressiona margens de empresas, o que pode afetar o ritmo da atividade econômica e até ampliar o risco de um cenário de estagflação — crescimento mais fraco combinado com inflação persistente. Ainda assim, é importante lembrar que movimentos dessa natureza podem ser revertidos de forma relativamente rápida caso haja algum avanço diplomático ou normalização logística nas rotas energéticas. Curiosamente, nem todos os ativos de proteção reagiram como seria esperado nesse ambiente. O ouro e a prata, por exemplo, ainda não apresentaram a valorização típica observada em momentos de forte tensão geopolítica, mesmo diante de um cenário de crescimento mais frágil e maior volatilidade nos mercados de ações. Em parte, isso ocorre porque o avanço dos metais preciosos continua sendo limitado pela força do dólar e pelos juros reais elevados, que competem diretamente com o papel tradicional do ouro como reserva de valor.
Contudo, caso a alta do petróleo continue pressionando a inflação global, o ouro pode voltar a ganhar tração adicional, reforçando seu papel histórico como proteção contra eventuais erros de política monetária. Esse tipo de exposição, porém, deve sempre ser construído com critério e disciplina, respeitando o perfil de risco e os objetivos de cada investidor. Em termos gerais, alocações entre 2,5% e 5% do portfólio costumam ser suficientes para cumprir a função de proteção sem comprometer a diversificação da carteira.
Para quem investe no exterior, ETFs como o iShares Gold Trust (IAU) oferecem acesso direto ao ouro com elevada liquidez. No mercado brasileiro, alternativas como o ETF BTG Pactual B3 Ouro (GOLB11) cumprem papel semelhante. Já fundos de ouro dolarizados (sem hedge cambial) adicionam uma camada extra de proteção ao combinar exposição ao metal com defesa cambial. Em qualquer caso, a mensagem central permanece a mesma: disciplina na alocação, alinhada ao perfil do investidor, diversificação, dimensionamento adequado das posições e equilíbrio entre liquidez.
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