Imagem: iStock/ Stadtratte
Começamos o segundo trimestre de 2026 com sinais mais construtivos vindos do Oriente Médio, em um ambiente no qual os mercados permanecem altamente sensíveis a qualquer mudança de narrativa.
Donald Trump indicou que o conflito com o Irã pode se encerrar em um horizonte de duas a três semanas, sugerindo que os principais objetivos militares já teriam sido alcançados e que a questão do Estreito de Ormuz poderia ser transferida para outros países.
Bastaram esses sinais, somados a indícios de maior disposição do Irã em negociar, para desencadear uma reação expressiva dos ativos de risco: bolsas globais avançaram, o petróleo recuou e os investidores passaram a incorporar a possibilidade de uma normalização, ainda que parcial e gradual. Mesmo assim, o pano de fundo segue volátil, com o próprio Trump alternando entre discursos mais conciliatórios e ameaças de escalada ou a aliados na OTAN (risco real de ruptura da aliança), enquanto prepara um novo pronunciamento para esta noite que pode tanto reforçar quanto frustrar esse movimento de otimismo.
Sob a ótica de mercado, a leitura predominante é de que houve uma desalavancagem relevante nas últimas semanas, o que contribui para um ambiente tecnicamente mais saudável e, ao mesmo tempo, mais sensível a notícias positivas.
Ainda assim, a ausência de um acordo formal, as exigências por parte do Irã e a possibilidade de medidas indiretas, como custos adicionais sobre a navegação no Golfo (prêmio de guerra), mantêm um grau elevado de incerteza no horizonte. Em paralelo, a agenda econômica segue carregada, com a divulgação de dados relevantes do mercado de trabalho americano, vendas no varejo e indicadores de atividade global.
· 00:56 — Acompanhando a tendência
No Brasil, a agenda doméstica segue mais esvaziada, com os investidores ainda digerindo os sinais iniciais de descompressão do conflito com o Irã, movimento que contribuiu para a recuperação do Ibovespa, novamente acima dos 187 mil pontos na sessão de ontem.
Ainda assim, o fato de o petróleo permanecer acima de US$ 100 por barril sugere que os preços podem se acomodar em um patamar estruturalmente mais elevado do que o observado no período pré-guerra, mantendo pressões relevantes sobre a inflação.
Esse contexto tende a reduzir o espaço para cortes de juros mais agressivos. Ainda assim, o ciclo de flexibilização monetária permanece no radar, embora de forma mais gradual, com reduções de 25 pontos-base como cenário base e a taxa Selic podendo encerrar o ano entre 12,5% e 13%. Naturalmente, essa trajetória dependerá tanto da evolução do cenário no Oriente Médio quanto de uma leitura mais favorável dos dados domésticos de inflação e atividade.
No campo fiscal e inflacionário, o governo já começa a reagir aos efeitos do choque externo. Com mais de 80% dos estados sinalizando adesão, avança a proposta de subsídio ao diesel de R$ 1,20 por litro por dois meses, com custo estimado em R$ 3 bilhões, dividido entre União e governos estaduais, na tentativa de mitigar os impactos sobre preços e evitar desabastecimento.
Ao mesmo tempo, o elevado nível de endividamento das famílias volta ao centro do debate: a equipe econômica retomou a discussão sobre o uso de cerca de R$ 10,5 bilhões em recursos esquecidos em contas bancárias para reforçar programas de renegociação de dívidas. Em paralelo, a aproximação do calendário eleitoral começa a ganhar tração.
Pesquisas recentes indicam um cenário competitivo, com destaque para São Paulo, principal colégio eleitoral do país, onde levantamentos da AtlasIntel apontam, neste momento, uma vantagem de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, reforçando a relevância do estado como peça-chave na definição do resultado eleitoral.
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· 01:45 — Aguardando o pronunciamento
O presidente Donald Trump deve atualizar hoje o status da guerra com o Irã, em pronunciamento durante a noite, com a expectativa de que o conflito possa se encerrar em um horizonte de duas a três semanas. A avaliação corrente é de que os Estados Unidos já estariam próximos de atingir seus principais objetivos militares (seja lá quais forem eles), deixando a questão do Estreito de Ormuz sob responsabilidade de outros países, ainda que a possibilidade de um acordo formal permaneça em aberto.
Por lá, os efeitos começam a aparecer de forma mais direta, com o preço da gasolina acima de US$ 4 por galão, pressionando custos e potencialmente afetando o consumo e a atividade econômica. Ao mesmo tempo, os dados recentes apontam para uma desaceleração gradual do mercado de trabalho e sinais de consumo mais pressionado, ainda que sem uma deterioração abrupta. Em conjunto, o quadro sugere um impacto econômico relevante, porém ainda controlado, cuja magnitude final dependerá, sobretudo, da duração do conflito e da trajetória dos preços de energia.
· 02:39 — O possível fim do choque… Será?
Como já comentei neste espaço, choques geopolíticos impactam os mercados principalmente por meio do petróleo: interrupções pontuais são absorvidas, mas preços elevados por mais tempo pressionam inflação e crescimento. Apesar da forte alta recente, o mercado ainda aposta que esse movimento é temporário, como indica a estrutura futura dos preços e a ausência, até agora, de impacto relevante nos lucros das empresas, algo que será testado nas próximas divulgações. Nesse contexto, a resiliência das bolsas americanas parece estar mais ligada à expectativa de crescimento dos lucros do que a uma confiança estrutural no país.
Ao mesmo tempo, sinais de possível descompressão do conflito, com falas de Donald Trump e abertura do Irã para negociação, trouxeram alívio aos mercados, com queda do petróleo e alta das bolsas. Ainda assim, a volatilidade segue elevada, refletindo a incerteza sobre o desfecho da guerra e o papel estratégico do Estreito de Ormuz, que segue no centro das tensões. Mesmo com maior probabilidade de encerramento no curto prazo, persiste o risco de um ambiente estruturalmente mais desafiador, caso o Irã mantenha influência sobre o fluxo global de energia, o que poderia sustentar pressões inflacionárias e incertezas econômicas à frente.
· 03:24 — Problemas na Ásia…
O fechamento do Estreito de Ormuz tende a produzir efeitos particularmente severos sobre a Ásia, dada a elevada dependência da região em relação às importações de energia. Diante desse risco, diversos países passaram a buscar fontes alternativas de abastecimento, inclusive petróleo russo, como forma de mitigar o impacto sobre os preços e sobre a atividade econômica. Ao mesmo tempo, a capacidade de reação não é homogênea: economias com maiores estoques e uma base de suprimento mais diversificada, como a China, têm demonstrado maior resiliência, enquanto países com menor margem de manobra, como Filipinas, Indonésia, Vietnã e Índia, já começam a sentir de forma mais clara os efeitos da desaceleração e das pressões inflacionárias.
Embora alguns exportadores de energia da região possam colher benefícios pontuais com preços mais elevados, o saldo agregado tende a ser desfavorável. O choque energético pressiona a inflação, compromete o poder de compra das famílias, afeta cadeias produtivas e pode exigir juros mais altos por parte dos bancos centrais. Em certa medida, o paralelo com a pandemia é inevitável: em choques globais de oferta, os países mais vulneráveis costumam ser os primeiros a sofrer os efeitos econômicos.
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· 04:11 — Fissuras na OTAN
A guerra no Irã vem revelando novas fissuras dentro da OTAN, à medida que aliados europeus demonstram crescente resistência a um envolvimento direto no conflito conduzido por Donald Trump. Países como Espanha, Itália e Polônia já deram sinais concretos de maior cautela na cooperação militar, enquanto as críticas públicas feitas por Trump a parceiros tradicionais, como França e Reino Unido, contribuem para elevar ainda mais a temperatura política dentro da aliança. Esse ambiente reforça dúvidas relevantes sobre o grau de coesão da OTAN e, em última instância, sobre os contornos futuros da relação entre os Estados Unidos e seus aliados europeus.
Ao mesmo tempo, a Europa já começa a sentir, de forma mais nítida, os efeitos econômicos da guerra. A alta dos preços de energia tem pressionado a inflação, ao mesmo tempo em que as projeções de crescimento vêm sendo revistas para baixo. Essa combinação entre estresse econômico e desalinhamento político enfraquece a coordenação entre os países do bloco e pode acabar favorecendo adversários estratégicos, como a Rússia, que se beneficia tanto de preços mais elevados do petróleo quanto de um eventual enfraquecimento da aliança ocidental.
· 05:03 — Período mais conflituoso
Historicamente, períodos de grandes conflitos globais tendem a favorecer empresas ligadas ao setor de defesa, que costumam apresentar desempenho superior ao mercado nos meses subsequentes. Ainda assim, trata-se de um segmento com baixa representatividade nos principais índices globais, o que sugere espaço para maior alocação, especialmente em um ambiente marcado por rotação de investimentos e elevação das tensões geopolíticas. A demanda por defesa já vinha em trajetória de crescimento e, com a intensificação recente dos conflitos, a expectativa é de aceleração adicional nos gastos militares, que podem ultrapassar US$ 3,6 trilhões até 2030. Nesse contexto, os Estados Unidos devem antecipar níveis historicamente elevados de investimento, reforçando o papel central do setor.
Paralelamente, a natureza dos conflitos vem passando por uma transformação relevante. O uso crescente de drones de baixo custo tem exigido respostas cada vez mais sofisticadas, acelerando o consumo de estoques militares e ampliando a necessidade de reposição e modernização dos arsenais. Esse novo paradigma amplia o conjunto de oportunidades para empresas ligadas à tecnologia de defesa, incluindo sistemas antidrone, defesa aérea, antimísseis e soluções avançadas de comando e controle. Para o investidor, esse cenário aponta para um ciclo de crescimento que ainda não parece totalmente refletido nos preços, impulsionado tanto pelo aumento estrutural dos gastos globais quanto pela evolução tecnológica no campo militar.
Em outras palavras, mesmo que o conflito atual caminhe para uma eventual resolução, como acreditamos e desejamos que aconteça, o pano de fundo permanece inalterado: vivemos em um mundo mais fragmentado, com tensões recorrentes e uma demanda crescente por segurança e capacidade defensiva. Isso desloca o setor de defesa de uma tese tática para uma oportunidade mais estrutural e de longo prazo.
A implicação prática desse contexto é relativamente direta. ETFs temáticos com foco em aeroespacial e defesa, como o iShares U.S. Aerospace & Defense ETF (BAER39), surgem como instrumentos eficientes para capturar essa tendência, oferecendo exposição diversificada ao setor. Ainda assim, é fundamental manter disciplina na alocação. Posições individuais entre 1% e 2,5% da carteira, com um limite agregado próximo a 5% para a classe de ativos temáticos, ajudam a equilibrar o potencial de retorno com uma gestão de risco adequada, respeitando tanto o caráter estrutural da tese quanto a volatilidade inerente a esse tipo de investimento.