(Imagem: iStock.com/blackdovfx)
O Google divulgou recentemente um white paper que está causando tumulto no mundo dos criptoativos. Escrito em coautoria com a Fundação Ethereum, a mensagem principal do documento é simples:
O computador quântico necessário para quebrar a criptografia que protege quase todas as carteiras de criptomoedas ficou muito menor – e muito mais barato – do que qualquer um imaginava.
Vou tentar analisar essa informação e explicar passo a passo.
Imagine que você, investidor cripto, tem uma chave particular (a chave da sua porta da frente) e uma chave pública (o endereço da sua casa, que qualquer pessoa pode ver).
Os cálculos que as conectam são tão absurdamente difíceis que nenhum computador comum conseguiria fazer uma “engenharia reversa” da sua chave privada a partir da sua chave pública: essa é a promessa que a computação quântica faz.
Mas um computador quântico pode executar algo chamado algoritmo de Shor (um atalho que explora a física quântica) para fazer exatamente isso: transformar sua chave pública em chave privada, e permitir que hackers com poder computacional quântico suficiente entrem em sua conta e roubem suas criptomoedas.
A grande questão sempre foi: quão potente esse computador quântico precisa ser?
Até esta semana, as melhores estimativas indicavam que seriam necessários cerca de 10 milhões de qubits físicos. Qubits são as unidades básicas de processamento de um computador quântico, algo semelhante aos transistores em um chip comum.
Dez milhões pareciam estar a uma distância segura, talvez décadas à frente – o próprio chip Willow, do Google, só tem 105 qubits.
Mas o Google acaba de reduzir esse número necessário para menos de 500.000 qubits, uma redução de 20 vezes.
Por outro lado, outras pesquisas são ainda mais ousadas em suas estimativas: a Oratomic (startup de computação quântica), o Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia) e a UC Berkeley (Universidade da Califórnia – Berkeley) demonstram que computadores quânticos podem quebrar criptografia com “apenas” 10.000 qubits atômicos reconfiguráveis.
O Google estima 500.000 qubits, enquanto outras instituições renomadas estimam até menos. Em resumo: está mais claro do que nunca que as blockchains precisam de criptografia pós-quântica.
Agora, vamos para a parte menos chata de ler: o Bitcoin.
Aproximadamente 6,9 milhões de BTC já têm suas chaves públicas visíveis na blockchain no momento. Carteiras antigas, endereços reutilizados, moedas dos “primórdios”. E o nome mais importante dessa lista? Satoshi Nakamoto.

Os bitcoins de Satoshi estão armazenados em um formato de carteira antigo, chamado P2PK, ou Pay-to-Public-Key (não precisa decorar o nome, é só para te informar mesmo).
Esse formato coloca a chave pública completa diretamente na blockchain, no momento em que as moedas são recebidas. As carteiras modernas escondem a chave por trás de uma segunda camada de cálculos matemáticos, enquanto as carteiras de Satoshi, não.
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No Bitcoin, endereço é diferente de chave pública
- Chave pública: É o par da chave privada, usado para verificar assinaturas digitais. Ela é longa e, em transações antigas, ficava exposta na rede. É como se fosse o número do seu RG, usado pelo sistema para validar que você tem o direito de movimentar aquele dinheiro;
- Endereço Bitcoin: É uma representação curta e formatada da chave pública (geralmente começa com 1, 3 ou bc1). Funciona como um número de conta bancária, ou PIX, para receber bitcoins.
Quando você recebe Bitcoin, só aparece o seu endereço (hash da chave pública). Já a chave pública só aparece quando você gasta ou envia Bitcoin.
- Quem envia → revela a chave pública ao gastar;
- Quem recebe → não revela a chave pública, só o endereço.
Mas isso era um problema das carteiras antigas, que não tinham uma tecnologia para resolver a questão. Hoje, as carteiras modernas têm uma tecnologia que evitam a reutilização da chave pública, logo, estão protegidas.
Ainda sim, é um grande problema, uma vez que as carteiras antigas que não foram atualizadas – e, portanto, não tem essa tecnologia – têm suas chaves públicas reveladas, e estão expostas à computação quântica.
E aqui está o ponto crucial…
Nenhuma atualização de software pode corrigir esse ponto retroativamente na carteira de Satoshi.
O próprio Satoshi precisaria fazer login e transferir essas moedas para uma nova carteira à prova de computação quântica. Se ele já faleceu (é no que a maioria das pessoas acredita), essas moedas estão permanentemente expostas.
É um pote de mel, de mais de US$ 70 bilhões, armazenado na blockchain, à espera.
Já existe uma proposta preliminar de Jameson Lopp, pesquisador e especialista em segurança do Bitcoin, para congelar moedas em carteiras vulneráveis após um período de tolerância. Essa proposta incluiria o dinheiro de Satoshi, mas desafiaria o princípio fundamental do Bitcoin de que chaves privadas equivalem a propriedade.
Vocês devem imaginar que esse debate é acalorado e interminável…
A grande questão é que, antes deste artigo do Google, a ameaça quântica parecia um tema com o qual a próxima geração deveria se preocupar. O tipo de assunto que é ignorado em jantares. Mas agora, o próprio Google prevê sistemas quânticos úteis até 2029.
Então, o quanto devemos nos preocupar?
Embora seja um risco real, não é iminente. Não existe, hoje, nenhum computador quântico capaz de fazer isso. Provavelmente, ainda temos anos pela frente. Então, quais são as soluções?
- A criptografia pós-quântica (uma nova matemática que nem mesmo os computadores quânticos conseguem quebrar) já está sendo testada pelo Ethereum, Algorand, Solana e outros;
- O próprio Bitcoin já passou por atualizações bem-sucedidas antes (SegWit, Taproot), e pode passar novamente;
- A Fundação Ethereum foi coautora deste artigo, o que demonstra que estão levando o assunto a sério.
Qual o meu palpite de como tudo isso vai terminar? Bom, acredito que toda a indústria cripto será obrigada a atualizar sua criptografia agora, enquanto ainda há tempo.
E, como resultado, os criptoativos se fortalecem.
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Variações semanais (23/03/26 a 31/03/26)
- ₿ Bitcoin (BTC): US$ 68.226 | Var. -3,72%
- ♦ Ethereum (ETH): US$ 2.103 | Var. -2,64%
- 🟠 Dominância Bitcoin: 58,74% | Var. -0,35%
- 🌐 Valor total do mercado cripto: US$ 2,32 tri | Var. -2,52%
- 💵 Valor de mercado de stablecoins: US$ 316,223 bi | Var. +0,18%
- 📊 Valor total travado (TVL) em DeFi: US$ 95,29 bi | Var 2,88%
*dados referentes ao fechamento em 31/03/26
Tópicos da semana
- Michael Barr, do Fed, defende supervisão mais rigorosa sobre as stablecoins: O governador do Federal Reserve (Fed), Michael Barr, alertou que as stablecoins exigem uma supervisão federal robusta. Embora tenha reconhecido que o GENIUS Act fornece maior clareza, Barr destacou lacunas significativas restantes, incluindo regulação dos ativos de reserva, potencial de arbitragem regulatória entre estruturas estaduais e federais, exigências de capital e liquidez, e proteção ao consumidor. Os comentários indicam que o Fed pretende pressionar por regras mais rígidas durante a implementação, mesmo com a expansão das stablecoins para além do trading cripto, incluindo remessas, trade finance e gestão de tesouraria corporativa.
- Nova regra busca abrir mercado de aposentadoria de US$ 8 trilhões para cripto: O Departamento de Trabalho dos EUA propôs uma regra de safe harbor que permite que fiduciários de planos de aposentadoria (os chamados “401(k)”) considerem investimentos alternativos, incluindo fundos ligados a criptomoedas, implementando a diretiva executiva de agosto de 2025 de Donald Trump para ampliar o acesso a planos de aposentadoria. A regra se aplica a um mercado de US$ 10,1 trilhões, distribuído em aproximadamente 721.000 planos elegíveis, onde atualmente apenas 4% dos planos de contribuição definida oferecem alternativas, e apenas 0,1% dos ativos estão alocados nelas. As dúvidas em aberto incluem as taxas reais de adoção pelos investidores e se o acesso ampliado via planos de aposentadoria poderia canibalizar a demanda por produtos de bitcoin baseados em ações já existentes.
- BNP Paribas lança seis ETNs de cripto para clientes de varejo na França: O banco BNP Paribas está disponibilizando seis ETNs ligados a cripto, indexados a Bitcoin e Ether, para clientes de varejo franceses, abrangendo investidores individuais, empreendedores, clientes de private banking e usuários do Hello bank!, com potencial expansão para clientes de wealth management fora da França. O acesso do varejo europeu a produtos cripto regulados está acelerando: o Reino Unido reabriu o acesso a ETNs cripto para varejo em outubro de 2025, após uma proibição de quatro anos, e o banco alemão ING adicionou recentemente ofertas de ETNs da Bitwise e da VanEck. O BNP Paribas também vem ampliando sua exposição à blockchain, tendo ingressado na Canton Foundation em setembro de 2025, participado da rodada de financiamento de US$ 135 milhões da Digital Asset e lançado cotas tokenizadas de fundos de mercado monetário na rede Ethereum.
Gráfico da semana

Ao longo de 2026 (e já desde 2025), o Bitcoin vinha ficando para trás em relação ao ouro e ao Nasdaq, sequer participando do “debasement trade“, que favoreceu o ouro como alternativa ao dólar, ou do rali de tecnologia global puxado pela inteligência artificial (IA).
No entanto, o gráfico acima mostra que, desde o início do conflito no Oriente Médio, o BTC começou a mudar esse comportamento. O ativo passou a reagir melhor nesse ambiente de maior incerteza, reforçando sua tese como hedge geopolítico.
Por que o Bitcoin está caindo — e será que esse ciclo é diferente de tudo que já vimos?
No último episódio do Crypto Never Sleeps, recebemos André Portilho (Head de Digital Assets do BTG Pactual) para uma análise profunda do momento atual do mercado de cripto.
A queda recente do Bitcoin levantou dúvidas importantes: estamos em bear market, ou apenas em uma correção? O institucional mudou o jogo? Será que as narrativas clássicas ainda fazem sentido?
Assista ao episódio na íntegra clicando aqui.
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