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Crypto Insights

Mundo busca uma alternativa ao dólar: o ouro reage, mas o bitcoin (BTC) ainda espera sua vez

No momento em que o mundo mais questiona a força do dólar como reserva de valor, o preço do ouro responde à altura – mas o “ouro digital” parece ir na contramão

Por Marcello Cestari

10 fev 2026, 14:54

Atualizado em 10 fev 2026, 15:12

bitcoin btc ouro

(Imagem: iStock.com/bodnarchuk)

Em 1944, os Estados Unidos se tornaram o fornecedor global de ativos financeiros seguros.

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No acordo de Bretton Woods, apenas o dólar americano era conversível em ouro. As demais moedas se conectavam ao metal de forma indireta, por meio de câmbios fixos contra o dólar. O resultado foi simples e poderoso: os EUA viraram o “banqueiro do mundo”, responsáveis por fornecer ativos seguros denominados em dólar para o resto do planeta.

Nem todo mundo aceitou esse arranjo de bom grado.

O presidente francês Charles de Gaulle enxergava Bretton Woods como a origem do chamado “privilégio exorbitante” dos EUA: a capacidade de se endividar em sua própria moeda, sem custo real. Na prática, emitir Treasuries passou a ser uma forma moderna de senhoriagem — um imposto invisível pago pelo resto do mundo.

Mais do que isso, assessores franceses alertavam: o sistema era insustentável. Se o mundo inteiro precisasse de dólares, os EUA inevitavelmente teriam que rodar déficits crescentes — e, em algum momento, o dólar teria que ser desvalorizado em relação ao ouro.

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A França decidiu agir.

Nos anos 1960, começou a converter sistematicamente os dólares acumulados por seus exportadores em ouro, à taxa oficial de Bretton Woods. Mas foi além: lançou a “Operação Esvaziar os Bolsos”, trazendo fisicamente o ouro de volta para território francês.

Durante anos, isso foi feito de forma discreta. Até que, em agosto de 1971, a França enviou um destroyer militar ao porto de Nova York para buscar cerca de US$ 200 milhões em ouro.

Não era um ato de guerra, mas foi um ataque direto ao dólar.

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Dias depois, Richard Nixon anunciou o fim da conversibilidade do dólar em ouro. O motivo era menos ideológico e mais prático: os cofres americanos estavam vazios, drenados por déficits para financiar a Guerra do Vietnã, a Guerra Fria e o programa Great Society.

Dois anos depois, o sistema de câmbio fixo ruiu oficialmente. Bretton Woods havia acabado.

Mas o domínio do dólar, não.

Mesmo sem ouro por trás, o mundo continuou usando o dólar como principal moeda de reserva. O motivo era estrutural: os EUA tinham (e ainda têm) os maiores e mais líquidos mercados financeiros, forte proteção à propriedade privada e instituições confiáveis.

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O ouro, no fim das contas, era quase um detalhe.

Só que esse equilíbrio começou a dar sinais de desgaste.

Treasuries já não funcionavam como porto seguro automático. Instituições globais passaram a questionar a previsibilidade do governo americano, e países como a China já orientavam seus bancos a reduzir a exposição à dívida dos EUA.

O ponto é simples: a confiança no dólar estava sendo testada.

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E aqui entra o paradoxo cripto.

Depois de anos sendo ignorados, creio que nós, entusiastas do mercado cripto, estamos certos sobre o diagnóstico macro: déficits crescentes, abuso do privilégio monetário, erosão da confiança institucional e busca global por uma nova reserva de valor.

Mas erramos no timing do preço.

Enquanto o ouro subiu cerca de 74% no último ano, o bitcoin caiu aproximadamente 27%. O “ouro digital” não respondeu como muitos esperavam, justamente no momento em que o mundo mais questiona o dólar.

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Isso não invalida a tese do bitcoin. Mas mostra algo importante:

Por enquanto, Bitcoin ainda é tratado mais como ativo de risco do que como reserva de valor sistêmica.

O dólar virou moeda global não apenas por escassez ou lastro, mas porque era mais fácil de usar do que ouro. Bitcoin é ainda mais eficiente: digital, sem bancos, sem intermediários, sem fronteiras.

Em tese, o timing deveria ser perfeito.

Na prática, o mercado ainda não o enxerga como tal.

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Talvez porque confiança monetária não se constrói apenas com código, mas com tempo, liquidez, estabilidade política e aceitação institucional ampla.

Enfim, existem vários outros argumentos e explicações para explicar o atual preço do bitcoin. Mas discutiremos isso nas próximas edições.


Variações semanais (26/01/26 a 09/02/26)

  • Bitcoin (BTC): US$ 70.110 | Var. -10,91%
  • Ethereum (ETH): US$ 2.103 | Var.-10,30%
  • 🟠 Dominância Bitcoin: 59,24% | Var. -0,73%
  • 🌐 Valor total do mercado cripto: US$ 2,62 tri | Var. -9,92%
  • 💵 Valor de mercado de stablecoins: US$ 307,643 bi | Var. +2,19%
  • 📊 Valor total travado (TVL) em DeFi: US$ 98,797 bi | Var.-4,93%

*dados referentes ao fechamento em 09/02/26


Tópicos da semana

  • Polymarket processa Massachusetts por disputa sobre quem regula mercados de previsão: O Polymarket entrou com uma ação federal contra o estado de Massachusetts, argumentando que mercados de previsão são derivativos regulados em nível federal, sob a autoridade da CFTC, e não produtos de apostas estaduais. A iniciativa ocorre enquanto estados como Massachusetts e Nevada avançam para encerrar contratos de eventos ligados a esportes. O caso evidencia um conflito crescente entre regulação estadual e federal, que pode definir se os mercados de previsão serão tratados nacionalmente como instrumentos financeiros ou localmente como jogos de azar — especialmente em um momento em que a CFTC sinaliza uma postura mais permissiva em relação a esse tipo de produto.
  • Compra de 40.613 ethereum (ETH) pela BitMine eleva tesouraria para 4,33 milhões de ETH: A BitMine comprou 40.613 ETH em apenas uma semana, elevando sua tesouraria total para 4.325.738 ETH (cerca de US$ 9,2 bilhões, aproximadamente 3,58% da oferta circulante). Desse total, 2.897.459 ETH (67%) já estão em staking, gerando cerca de US$ 202 milhões em receita anualizada. A empresa está próxima de atingir sua meta de controlar 5% do supply de ETH e planeja novos rollouts de staking via MAVAN, o que pode ampliar ainda mais a receita com staking.
  • Tether vai acelerar contratações: A Tether conta atualmente com cerca de 300 funcionários, e planeja contratar aproximadamente mais 150 pessoas nos próximos 18 meses. As novas contratações serão focadas principalmente em engenheiros, além de algumas posições regionais nas áreas regulatória e de produto, e serão financiadas pelo crescimento contínuo da adoção do USDT, que hoje possui market cap em torno de US$ 185 bilhões. Ao mesmo tempo, a empresa segue realocando seus lucros em investimentos nos setores de esportes, tecnologia, agricultura e mídia, enquanto expande sua atuação global em meio a concorrência cada vez mais intensa e maior escrutínio regulatório.

Gráfico da semana

Fonte: Bloomberg

O Truflation é um indicador econômico que utiliza dados em tempo real de milhões de itens para medir a inflação de forma independente, diferenciando-se do CPI (Índice de Preços ao Consumidor) oficial, que depende de coletas governamentais mensais e metodologias mais lentas.

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Historicamente, as duas métricas apresentam uma forte aderência, caminhando em direções semelhantes, mas a imagem atual revela uma divergência sem precedentes: o Truflation despencou para sua mínima histórica, descolando-se significativamente do CPI. Esse movimento sugere que a inflação real, na ponta do consumo, já arrefeceu de forma muito mais drástica do que o CPI consegue demonstrar no momento.

Os dados do CPI referentes ao mês de janeiro serão divulgados nessa sexta-feira (13), e, como o Truflation costuma atuar como um indicador antecedente, essa mínima histórica sinaliza que os dados oficiais tendem a seguir essa mesma trajetória de queda nos próximos meses, sugerindo que a economia pode estar desacelerando.


Bitcoin pode sobreviver à computação quântica?

Neste episódio do Crypto Never Sleeps, Avelino Morganti Neto (engenheiro e ex-OTC) explica por que acredita que o BTC falhou como dinheiro — e por que o futuro do cripto estaria na tokenização (RWAs).

Assista esse episódio aqui e tire suas conclusões!

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Aviso obrigatório

Este conteúdo é apenas informativo e tem como objetivo compartilhar insights e análises sobre o mercado. Não constitui recomendação de investimento, e qualquer decisão financeira deve ser feita com base em sua própria análise e, preferencialmente, com o apoio de profissionais qualificados.

Analista de criptoativos na Empiricus Asset, responsável pela gestão dos fundos da casa focados em ativos digitais. Formado em Administração de Empresas pela FGV com mais de cinco anos de experiência no mercado financeiro, com atuação em research, alocação e execução de estratégias no universo cripto. Colunista no Money Times e apresentador do podcast Crypto Never Sleeps, onde entrevista os principais nomes do setor para discutir tendências, tecnologia e investimento em Web3.