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Day One

Extraordinário

O comportamento do mercado financeiro é tipicamente exponencial. Primeiro porque estamos sob a égide dos juros compostos, que, por construção, nos leva à trajetória Bola de Neve. Leia mais.

Por Felipe Miranda

17 jan 2018, 10:30

No meio de 1997, o telefone de Craig Venter não parava de tocar. Seu melhor amigo implorava para que ele desistisse de sua mais recente empreitada. Era um ato de desespero, uma tentativa destemperada de salvar sua carreira. “Craig, saia enquanto é tempo. Devolva o dinheiro e mostre retidão moral. Já não dá mais. Fracassos acontecem. Basta assumir. Todos sabiam o quanto seria difícil.”

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Craig Venter era um dos principais pesquisadores por trás do Projeto Genoma Humano, lançado em 1990 com o objetivo explícito de sequenciar por completo um único genoma humano. A estimativa original era de que o projeto levaria 15 anos para ser concluído, sob um custo total de 6 bilhões de dólares.

Sete anos mais tarde, apenas 1% do genoma humano tinha sido sequenciado. As críticas eram atrozes. Todos proclamaram o fracasso retumbante. Ora, se foram necessários sete anos para cumprir 1% do projeto, precisaríamos de 700 anos para completar todo o Genoma. Não haveria tempo nem dinheiro para tocar aquilo. Era melhor desistir, certo?

Errado. Dada a natureza da coisa, percorrer 1% do projeto representava justamente metade da caminhada. Pode soar contraintuitivo, mas estávamos rigorosamente no prazo. Isso porque a quantidade sequenciada estava dobrando a cada ano. Logo, se você dobrar 1% sete vezes, chega em 100%. Bingo!

O Projeto Genoma foi concluído em 2001, antes do prazo e dentro do orçamento. O primeiro genoma humano foi mapeado ao custo de 2,7 bilhões de dólares. Cerca de 10 anos depois, custava algo como 100 mil dólares. A previsão é de que atinja a casa dos centavos em 2020.

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Esse tipo de comportamento não é uma exclusividade do genoma. Ao contrário, é a trajetória típica de projetos associados a informação, tecnologia e escala.

Pensando em custo médio para uma funcionalidade equivalente, a impressão 3D saiu de 40 mil dólares em 2007 para 100 dólares em 2014, os robôs industriais passaram de 500 mil dólares em 2008 para 22 mil dólares em 2013, os drones vieram de 100 mil dólares em 2007 para 700 dólares em 2013, a energia solar veio de 30 dólares/kWh em 1984 para 16 centavos de dólares por kWh em 2014. Por aí vai.

Acho que você entendeu o ponto. Há uma tendência brutal a se pensar as coisas linearmente, quando, na verdade, elas acontecem de forma exponencial e em saltos. Nosso cérebro foi desenhado para o gradualismo e a aritmética. Temos uma facilidade muito grande com adição e multiplicação, comparativamente ao traquejo com log.

O problema é exacerbado pelo mercado financeiro, cujo comportamento é tipicamente exponencial. Primeiro porque estamos sob a égide dos juros compostos, que, por construção, nos leva à trajetória linear. Ou, para usar o termo clássico de Warren Buffett, aos efeitos da Bola de Neve.

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Segundo pois, em Bolsa, poucos dias (ou momentos) fazem a diferença. Por vezes, você passa anos com uma ação paradinha ou até mesmo caindo um pouco. Subitamente, em 18 meses, aquilo salta 10x, por conta de uma reestruturação interna, pela quebra de um paradigma tecnológico ou diante de um movimento de aquisição.

Penso em três coisas diante do argumento. A principal delas hoje se liga às criptomoedas. Elas estão tendo um desempenho desastroso neste início de 2018. A capa da Bloomberg sugere possível estouro da bolha. Algumas pessoas estão assustadas. Ora, aquilo que sobe 10 mil por cento agora está caindo 50%. De certo modo, não deveria ser surpresa, certo? Ou você esperaria ausência de riscos e de volatilidade ao comprar bitcoins?

Eu sinceramente não entendo nada desse negócio, mas conto com a análise do Andre Araújo e do Vinícius Bazan, que estudam a coisa 24 horas por dia, para responder a questão: grande oportunidade de compra a partir da fraqueza recente ou estouro da bolha?

Penso também em Alupar (ALUP11). Enquanto a Bolsa inteira voou em 2017, ela ficou praticamente parada. Eu me pergunto: por que chinês vai pagar 3% de TIR em concessões esparsas, se pode comprar esse negócio, muito mais ajeitado, a 9% de TIR – mesmo se o cara bidar 50% acima do preço de tela, ele leva por 5% de TIR. Pra mim, de repente esse negócio voa, num clássico movimento não linear e em salto. Você captura 50 purça num negócio de baixíssimo risco (transmissão de energia).

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E obviamente tenho que pensar em Fleury (FLRY3). Volte aos parágrafos iniciais. Veja como a força natural da medicina diagnóstica é desinflacionária. Você não precisa fazer nada em esforço de custo que já nasce o ano com uma tendência estrutural empurrando as coisas para baixo. Junte isso à alavancagem operacional e temos um efeito brutal na última linha.

Mais detalhes sobre Alupar e Fleury na série Vacas Leiteiras.

Mercados iniciam a quarta-feira perto da estabilidade, ponderando uma série de forças divergentes. Bolsas europeias estão predominantemente no vermelho diante de escalada dos yields e pressão por realização de lucros. Futuros de Wall Street tentam se manter em alta, empurrados por bons resultados corporativos.

Internamente, afastamento de dirigentes da Caixa pelo presidente Michel Temer eleva temperatura política, enquanto Rodrigo Maia não demonstra otimismo com Previdência em fevereiro.

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Inflação voltou a surpreender para baixo em prévia do IPC-Fipe e sinalização foi de bandeira verde na energia até março. Vencimento de Ibovespa Futuro e opções sobre o índice pode adicionar um pouco de volatilidade.

Agenda norte-americana traz livro bege do Fed, produção industrial e confiança das construtoras, em meio a discussões sobre elevação do teto da dívida, cujo eventual fracasso poderia levar a um shutdown do governo norte-americano.

Ibovespa Futuro registra leve queda de 0,1%, dólar sobe contra o real e juros futuros avançam, embora variações sejam bem comedidas.

CIO e estrategista-chefe da Empiricus, é ex-professor da FGV e autor da newsletter Day One, atualmente recebida por cerca de 1 milhão de leitores.